O Gaudério Voltou


Zé Gomes, de volta ao Rio Grande: “Coisa de elefante”

A volta de Zé Gomes ao Rio Grande do Sul ainda não mereceu uma nota em jornal. Ele voltou em silêncio e está, desde outubro do ano passado, morando em Guaíba, numa pequena casa que tem um salso chorão na frente.

Retorna depois de 30 anos fora, com casa em São Paulo, mas viajando e tocando pelo Brasil todo. Aos 70 anos, é um dos últimos remanescentes de uma geração que revolucionou a música regional e lhe deu a glória inédita de ser ouvida no Olympia, em Paris, no longínquo ano de 1958, feito que nunca mais se repetiu.

“Estou voltando para casa”, diz ele para explicar que não tem planos definidos. Pensa em compor, quer extrair uma síntese dessas vivências das regiões brasileiras e fronteiriças. Está terminando um método para rabeca, pensa em fazer oficinas que poderiam incluir até a construção do instrumento. Já tem uma bancada pronta.

A rabeca é um instrumento muito antigo (ele toca numa construída a partir de um modelo do ano 1.200). Muito antes da cordeona, foi a rabeca o instrumento que animava os bailes no Rio Grande primitivo. Hoje está esquecida e isso, em grande parte, é o que explica o interesse de Zé Gomes por ela.

Enquanto o projeto não se define, ele vai trabalhando no que aparece. Recentemente gravou quatro músicas para o filme “O General e o Negrinho”, de Tabajara Ruas. No filme ele toca rabeca num baile, três peças do folclore, recolhidas por Paixão Cortes e uma milonga. Ele e Paixão, antigos parceiros, já andaram se encontrando e concluíram que tem muito o que conversar. A ultima vez em que os dois fizeram planos juntos, há 50 anos atrás, a história foi parar em Paris. Como se verá nesta entrevista:Elmar Bones

Você é do dia de São João?
24 de junho, de 1935.

Musicalmente, nasceu quando?
Tinha uns quatro anos. Meu pai era boêmio, tocava violino, voltava de manhã pra casa. Chegava em casa com uma serenata. Eu começava a ouvir ainda dormindo, não queria acordar, aquela música… Mas aí acorda é apenas música. Era bonito. Meu pai ouvia muita música clássica, cedo tinha noção da estrutura de uma orquestra.

Teu pai era músico profissional?
Não, ninguém era profissional naquela época. Tocava com os amigos. Depois ele perdeu o movimento dos dedos num acidente, não tocou mais. Mas continuou naquele ambiente boêmio, participava de um grupo de teatro, chegava em casa para o café da manhã. Ijuí tinha uma vida musical muito intensa, havia muitas bandas, grupos seresteiros, de choro, orquestra de baile, muitos músicos.

Grupos de teatro também?
Sim. Assisti a peças em que meu pai atuava. Lembro que fiquei furioso quando ele fez o papel de um covarde. Misturava a peça com a realidade. Ele se escondia atrás de um armário para não apanhar. Eram peças bem montadas, com belos cenários, luzes, música, coreógrafos coisas de colo do alemão. Tinha até fábrica de piano.

O estudo da música começou quando?
Saí de Ijuí aos sete anos, fomos para São Luiz, um ano e meio depois, para Carazinho, onde havia o mesmo ambiente musical. Fui estudar piano com a professora Gladis Bassani Junqueira no Instituto Carlos Gomes. Não tinha piano em casa. Estudava na casa da professora, meia hora todos os dias. Com onze anos fui para um colégio lassalista. Na capela tinha um harmônio. O diretor me deu licença para no recreio ficar tocando o harmônio. Não lia partituras, ficava improvisando. Improviso é o meu negócio, sempre gostei.

E a primeira vez no palco?
Aos nove anos, toquei uma peça de Schumann na festa de fim de ano da escola, pediram bis

Estudou quantos anos de piano?
Cinco. Um dia estava indo para a aula, vi na praça um tocador de cavaquinho, tocando Waldir Azevedo. Fiquei ouvindo cheguei atrasado. Quando falei pra professora, ela disse: “Isso não é música”. Parei de estudar com ela, despedi  a professora. Passei a tocar num programa de rádio, feito pelos alunos da escola. Cantava, tocava violão, fazia locução.

Cantava?
Aos 14 anos, cantava na rádio. O Maurício Sobrinho, fundador da RBS, tinha um programa na rádio de Passo Fundo. Era o tempo do rádio. Ary Barroso fazia no Rio a “Hora do Pato”, famoso programa de calouros. O Maurício fez a “Hora do Bicho”, ou algo assim. Eram poucos quilômetros, eu ia a Passo Fundo participar. Depois ele trouxe o programa também para Carazinho. Era feito no cinema e transmitido ao vivo pela rádio local.

Era um concurso de calouros?
Sim, tinha prêmio. Eu ganhava sempre, era meu salário, tipo R$ 50. Passava a semana muito bem, picolé, coca-cola, todi com misto quente na sorveteria Selda. Um dia ele me disse: “Você não pode concorrer mais, vai vir ao programa como convidado”. Então uma vez por mês ele me convidava.

Cantavas o quê?
Naquela época o grande sucesso era o Vicente Celestino, com aquele vozeirão de ópera. Eu não gostava daquilo, cantava músicas do Pedro Celestino, irmão do Vicente Celestino, quase desconhecido. Meu pai que era seresteiro tinha uns discos dele, eu aprendi. Eram umas serestas mineiras, lindas, não me lembro. Que voz que eu tinha. Parei de cantar porque começaram a pedir, todo o lugar queriam que eu cantasse. Era fácil cantar, passei a tocar violino percebi que podia cantar através dele. Me enchiam muito o saco. Hoje não canto porque não tenho mais domínio da voz.

E o violão começou, quando?
Aos 13 anos. Tinha um cara, o Finha que ia lá em casa, gostava de tocar para nós, era parceiro do meu pai. Um dia não deixei levar o violão. Queria aprender a tocar uma valsa que ele tocava: “Saudades do Rio Grande”, era do pai dele, o Levino da Conceição. Perguntei a ele: “Em quanto tempo eu toco?” “Em um ano você toca”. Comprei métodos, já tinha a base teórica, em três meses estava tocando a valsa.

Esse Finha foi famoso…
Era uma injeção de entusiasmo a música dele. Nascido em Ijuí, ele se criara no Rio de Janeiro. Voltou para o Rio Grande com 17 anos. Tinha vinte e poucos quando o conheci. Era filho do lendário Levino da Conceição, o primeiro a gravar um disco de violão no Brasil. Não tinha quem tocasse como esse Finha, sem arestas. Mas não vivia de música. Era mecânico de automóvel e jogador de futebol.

E o violino teve estudo formal?
O violino resguardei, nunca coloquei em estudo, passei só a tocar… aquela sensação de que não é você que faz, que está descendo.

Houve um período de bailes?
Desde os 14 anos tocava em bailes em Carazinho, violino, com o conjunto do maestro Jacques. Tocava também numa “típica”, naquela época tinham as típicas, com bandoneon, baixo, piano, que tocavam tangos nos bailes. Tocava por esse Rio Grande afora.

E Porto Alegre?
Cheguei em Porto Alegre em 1952, me liguei ao grupo que estava fundando o movinento tradicionalista. Meu pai me apresentou para o Thierry Castro e ele me levou para o CTG 35 na noite em que o Paixão Cortes estava se retirando de lá para fundar os Tropeiros da Tradição. Saí com ele, entrei para os Tropeiros, com o Thierry, Zé da Gaita… Paixão declamava e dançava. Percorríamos o interior. Aí foi criado o programa Grande Rodeio Curinga, na Rádio Farroupilha. Nessa época eu tocava também com Primo e seu Conjunto, o acordeonista era o Neneco (Fernando Schirmer Miranda, já falecido), que foi, pra mim, um dos maiores gaiteiros do mundo.

Confira a entrevista completa no Jornal Já Porto Alegre que está nas bancas

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