
A devoção e o medo são as duas faces da medalinha na festa de Nossa Senhora dos Navegantes, em Porto Alegre (Fotos Naira Hofmeister)
Naira Hofmeister
Devoto acostumado com festança nem estranha mais. Esperar quarenta minutos na parada de ônibus, uma das duas únicas linhas que saem do centro rumo ao Santuário da Nossa Senhora dos Navegantes. Entrar no ônibus e acreditar que o espreme-espreme, pelo menos hoje, é sinal de esperança.

Os prevenidos já trazem de casa a ‘farofa’: pastel, água, refrigerante e chocolate para as crianças e até a cervejinha. Quem não tinha pensado nisso antes, tem que comer o pão que o diabo amassou: ou passa fome e sede, ou se submete ao preço dos ambulantes, que varia de acordo com o movimento, a localização e principalmente com a temperatura.
Além dos devotos, é bom que se saiba, há os forasteiros, que, sem ter reza para agradecer, se divertem nas várias opções que circundam a igreja. O roteiro começa assim que se entra no local reservado para a festa: de cara, entre os brinquedos do parque infantil, a famosa roleta. Da pra jogar no Grêmio ou no Colorado, quanto quiser, e, se não tiver trocado, a banca troca o dinheiro. Um vencedor, questionado se ia dar o dinheiro pra santinha, responde: “Vou dar sim… para aquela que está lá em casa”.

Voltemos aos desavisados: aqueles que assistem a missa, mas que não trouxeram “objetos para a benção”. Os ambulantes têm de sobra: santa para todos os gostos e bolsos. Tem de gesso, de plástico, fotografia, dentro de garrafa, com altar, na vela. O que importa é ter algo para a benção. “Esse ano, o movimento tá grande!”, festeja o vendedor de medalinhas. “Deve ser porque tá todo mundo feliz… ou precisando demais”, complementa outra.

O Pai-Nosso é entoado com vontade, mas nem se compara ao coro que a rapaziada do pagode já começa a ensaiar no boteco da esquina. Isso que ainda não passa do meio-dia. Maria, proprietária de um desses bares, avisa, amedrontada: “Depois das duas da tarde, começa a ter arrastão!”

Maria não é a única a reclamar da falta de segurança. A Polícia Militar, oficialmente, garante: Esse ano não haverá confusão. O efetivo de mais de 300 homens deve dar conta do recado. Pelo menos os quatro guardas com farda especial que cuidaram da segurança da missa, por volta das 13 horas esperavam o caminhão da PM para ir embora. “Com essa máquina, é melhor você ir também”, foi o comentário de um dos policiais à repórter. Com o final da missa, o clima vai ficando mais pesado nos bares da redondeza. Assim, voltamos ao início: parada de ônibus, 40 minutos, espreme-espreme. Nossa Senhora dos Navegantes!
Padroeira de Porto Alegre e protetora dos pescadores

O evento, realizado desde o ano de 1875, é considerado a maior festa religiosa do Rio Grande do Sul. Em 1988, após o famoso acidente com o Bateau Mouche, no Rio de Janeiro, as procissões pela água foram proibidas. Desde então, a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes é conduzida em procissão pelas ruas da capital, até a Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira da cidade. Após a missa acontecem os festejos populares.
* Com informações do site do Governo Brasileiro

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