MARIANO SENA
Em um mundo rendido às meias verdades e discursos invertidos, um olhar mais atento aos detalhes é sempre revelador.
Na Alemanha, pujante potência exportadora de armas (recorde de 8 bilhões de euros em 2015), a indústria bélica ganha cada vez mais espaço. Mas não só no orçamento militar do país (40 bilhões de euros anuais).
A justiça alemã acaba de agraciar os “deslizes” de um fabricante com uma sentença intrigante. Mesmo não sendo inédita, a decisão oferece uma janela para o jogo comercial dentro da principal economia européia.
A disputa iniciou há cinco anos e envolve o uso do rifle de assalto G36 pelo exército alemão. A arma, produzida pela empresa Heckler & Koch (HK – http://www.heckler-koch.com/en.html), foi acusada de apresentar um defeito.
Testes em laboratório mostraram que em temperaturas acima dos 30 graus, ou em situações de uso extremo (combate prolongado), a precisão dos disparos é reduzida significantemente.
O rifle usado em missões no Afeganistão seria inapropriado para países com grandes variações climáticas e insegura para situações de luta real. Expertos de uma comissão do Ministério da Defesa decidiram perguntar a 200 soldados a sua opinião.
Os praças alemães acostumados em sua grande maioria apenas a situações de treino responderam que gostavam da arma. Ela é leve, fácil de usar e confiável, mostrou a enquete.
Mesmo assim, a ministra da Defesa, Ursula von der Leyen (CDU), anunciou a substituição de centenas de milhares de rifles por novos, ainda por serem contratados. “Nao há futuro para a G36 no exército alemão”, declarou a ministra.
Ela também mandou o ministério pedir indenização para a HK por “defeitos” no material vendido ao governo.
A empresa reagiu com uma acão de declaração negativa na justiça. Isso mesmo, a empresa entrou na justiça antes mesmo de negociar com o governo o pagamento da tal indenização, que no fim das contas custaria um ínfimo percentual de suas vendas para o exército. Segundo analistas, o objetivo era salvaguardar o prestígio da fabricante, um dos líderes mundiais na produção de armas militares leves.
Na sexta-feira, dia 02 de setembro o tribunal regional de Koblenz, no Sul da Alemanha onde fica a matriz da empresa, deu ganho de causa à HK. O juiz Ralph Volckmann deixou claro que a arma, em uso no exército alemã desde os anos 90, cumpre o seu papel contratual. “Se houve mudanças nas necessidades e exigências da corporação, então houve falha do Ministério da Defesa em informar tais mudanças à fabricante”, declarou o juiz.
Apesar da derrota, a ministra Ursula mantém a sua posição. Ela prometeu apresentar nas próximas semanas mais um relatório comprovando os defeitos da G36. Também estão mantidos os planos do seu Ministério para a compra de 200 mil exemplares de um novo modelo de rifle de assalto até 2018 e 2019.
O afair da G36 confirma acima de tudo o estilo de gerência da ministra. Em 2014, menos de um ano após assumir o posto, ela apresentou os resultados de um estudo de especialistas externos comprovando problemas em diversos projetos do Ministério.
Encabeçados por consultores e advogados da KPMG, o documento de apenas 50 páginas sugeria mudanças gerenciais e estratégicas em projetos de desenvolvimento de armamentos da Alemanha e da União Européia. Na época os jornais saudaram a iniciativa com manchetes tipo: “Atestado miserável para a política armamentista”.
O estudo serviu especialmente para justificar o aumento do orçamento militar da Alemanha. E isso inclui, claro, a propaganda. Em 2015 o exército gastou mais de 35 milhões de euros em publicidade, 20% a mais que no ano anterior.

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