Matheus Chaparini
A ocupação do maior colégio estadual do Rio Grande do Sul já dura uma semana. Os estudantes do Júlio de Castilhos estão na escola desde quinta-feira passada, 12. O movimento começou como uma ocupação de 24 horas, mas o grupo decidiu em assembleia pela permanência.
Um grupo de cerca de 30 pessoas dorme na escola todas as noites. Durante o dia o grupo cresce.
As principais reivindicações do movimento são contra a PL 44, criticada como privatização do ensino; a precariedade da estrutura do colégio, que apresenta goteiras em várias salas do terceiro andar; e o programa Escola Sem Partido, “tira qualquer direito nosso de debater alguns assuntos polêmicos, justamente no colégio, que é onde a gente cria opinião”, explica a estudante Nicole Schilling.
Nicole, que faz parte do Grêmio de Julinho, conta que a inspiração veio das ocupações escolares de outros estados, principalmente São Paulo. “A gente vinha acompanhando as ocupas de São Paulo, daí alguém lançou a ideia no grupo do face e a gente foi se organizando”, explica Nicole.
A assembleia é o órgão supremo de decisão da ocupa. As cadeiras permanecem constantemente postadas em roda no saguão da escola. Várias vezes ao longo do dia, conforme surgem questões a serem debatidas ou problemas a serem resolvidos, o grupo convoca uma reunião geral.
As tarefas são divididas entre as comissões: Segurança, Cozinha, Comunicação, Cartazes. As funções são identificadas por faixas com cores diferentes que os integrantes trazem amarradas nos braços.
Os estudantes se revezam em turnos de 6 horas. Os estudantes controlam quase toda a escola, as refeições – café da manhã, almoço e janta – são preparadas no refeitório e a porta é guardada pela equipe da segurança. O acesso à escola é fechado à meia noite e reaberto às 6h30, pois alguns ocupantes precisam sair para trabalhar.
Eles garantem que estudantes, professores, direção e visitantes em geral podem entrar, mas todos precisam se identificar. Na entrada, nome, RG e telefone são solicitados. “Se não se identificar não entra, porque a gente não pode deixar entrar qualquer pessoa. É uma questão de segurança”, explica Nicole.
Escola ocupada tem aulas e atividades culturais
Na escola ocupada e com greve dos professores, as aulas normais estão suspensas. Entretanto, professores da UFRGS, do próprio Julinho e de outras escolas se ofereceram para dar aulas e promover debates na ocupação. Além dos conteúdos do currículo escolar, os temas são educação, política, feminismo, entre outros.
O grupo de teatro Levanta Favela também se apresentou na escola esta semana. Para o próximo sábado, 21, está prevista uma atividade com a Frente Quilombola.
Senac e UFRGS utilizam salas do julinho
Nas noites do colégio Julio de Castilhos, os integrantes da ocupação se acostumaram a conviver com vizinhos, muitos nem sabiam que dividiam o espaço. Há cerca de dois anos, alunos da UFRGS têm aulas à noite em salas do Julinho. Um estudante de Administração que chegava para a aula explicou: “O prédio estava caindo, daí nos mandaram pra cá.”
Além da universidade, o Senac também utiliza as salas do colégio. Em assembleia, os alunos de Julinho decidiram que a entrada destes alunos será permitida normalmente.
Brigada Militar e Polícia Civil estiveram na ocupação
A necessidade de identificação na entrada gerou um conflito no último sábado. Um integrante da banda marcial do colégio entrou na ocupação sem se identificar. Os estudantes queriam que ele desse seus dados antes de ir embora, mas ele se recusara. Diante do impasse, o homem chamou a polícia.
A Brigada Militar foi até o local e chegou a passar do primeiro portão, em um momento de distração dos “porteiros”. Os estudantes se apressaram em fechar a porta de vidro, que dá acesso ao saguão, e o incidente foi resolvido na escadaria.
A Polícia Civil também deu as caras na ocupação do Julinho, no segundo dia.. Os estudantes contam que o portão estava aberto e dois homens à paisana entraram. Quando já estavam no saguão, eles se identificaram como policiais civis. A alegação era de uma denúncia de tráfico de drogas ao lado da escola. Os integrantes da ocupação contam que conversaram com os agentes, que desistiram de entrar nas dependências do colégio.

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