A escola Infante Dom Henrique, situada no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, está ocupada há quatro dias. Parece pouco, mas é o necessário para os alunos quererem a substituição da diretora do colégio.
Desde que um grupo de estudantes anunciou à mesa diretora que a escola seria ocupada ,começaram os entraves. Em um primeiro momento, a diretora Jaqueline Boff apoiou, depois voltou atrás e, por último, trancou a escola, chaveou os banheiros e tentou intervir junto aos pais para que a escola não fosse ocupada.
Na sexta-feira, dia da ocupação, o ato final e que iniciaria um grande conflito com os alunos proponentes da ocupação: a diretora agrediu física e verbalmente três estudantes.
Diretora humilhou aluna vítima de abuso sexual
A denúncia foi feita na página da ocupação no Facebook por meio de vídeo e depoimentos. Os atos da professora foram presenciados por colegas das jovens, que tentavam ocupar a escola. O relato mais grave dá conta de que a diretora teria se valido de uma confissão, feita em sigilo em outro momento, para expôr publicamente uma aluna menor de idade, que foi vítima de estupro.
“O que é que uma estuprada está fazendo revoltada?”, gritou a diretora, humilhando a estudante menor de idade diante de seus colegas.
A jovem estudante de 16 anos fala pouco sobre o assunto e pede anonimato. A confiança que tinha pela professora foi quebrada. A jovem sabe que o fato é o ápice da turbulência da ocupação, mas tenta manter o bom humor e a animação para continuar ocupando.
Há ainda relatos de duas agressões físicas. A professora, ao tentar fechar a porta, prendeu o pé de um aluna que a impedia do ato. Outra jovem foi fortemente segurada pelo braço.
A partir disso, a pauta da ocupação mudou. A escola já apresentava motivos suficientes para a ocupação, agora só será desocupada quando a diretora deixar o cargo, afirmam os alunos. “ Queremos que ela largue a Educação, mas sabemos que é difícil, por isso queremos que ela saia da escola”, afirma um dos estudantes.
A queixa foi dada nesta segunda-feira, quando as três alunas, acompanhadas de uma advogada, foram até o Centro de Referência em Diretos Humanos da Defensoria Pública relatar o ocorrido. Na próxima quarta-feira, prestarão o depoimento oficial.
A Defensoria encaminhará um medida administrativa contra a professora, para que saia da diretoria da escola. Outras medidas judiciais, tanto na área cível quanto criminal podem ocorrer.
OCUPAÇÃO ENGATINHA E ESTUDANTES AINDA SE ORGANIZAM
A reportagem do Jornal JÁ esteve na ocupação no começo da noite desta segunda-feira, 23. Um menino embalando um skate vigiava a entrada. Após saber quem éramos, nos deixou entrar. Era Lucas, 16 anos, estudante do segundo ano. Logo nos apresenta para João Vitor, da Ubes, e para Mariane, todos eles estudantes e líderes da ocupação.
Eles ainda organizam o movimento. Com a ajuda de Jessica, estudante de Letras da UFRGS e apoiadora das ocupações, montam a programação cultural.
Dormindo mesmo na escola são poucos. Cinco, talvez seis, não mais que dez.
As reivindicações da ocupação são principalmente ligadas à própria escola. A situação da estrutura não é boa. A iluminação é precária dentro das 9 salas de aula do segundo andar. Em uma delas estão dormindo os estudantes, há barracas e colchões.
A sala dos professore é grande, bem ajeitada e tem até ar-condicionado. O colégio não tem um laboratório de Ciências. No banheiro masculino, duas cabines estão interditadas. No feminino, são três. Nos corredores, extintores com a validade vencida. Na biblioteca, o acesso aos livros é restrito. “Não há ensino pedagógico”, reclama Mariane.
No pátio, a situação não é diferente. Um dos postes de iluminação está estragado. Parte do muro está demolido, entra quem quer. Com telhas, os alunos improvisaram uma barreira, mas em dias normais a passagem fica aberta. Mendigos e usuários de drogas invadem o pátio durante a noite, denunciam os alunos.
A noite avança e chegam mais alguns estudantes. Estavam em casa, voltaram para passar a noite. Pouco depois começam uma reunião. Surgem novas pautas, reivindicações a serem feitas, como irão se comunicar entre eles, entre outros assuntos. Sabem que precisam atrair mais colegas para a ocupação, para isso estão se organizando.
A reunião termina e dá pausa para a janta. A noite é longa e fria mas a vontade de fazer história ainda é maior que qualquer outra coisa. Nos despedimos dos jovens enquanto preparavam sua alimentação para aguentar mais uma noite de ocupação. Que só terminará quando a diretora cair.




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