Passou em branco o aniversário de batismo das abelhas africanizadas, “criadas” há 60 anos pelo agrônomo paulista Warwick Kerr. Nascido em 1922 em Santana do Parnaíba, pequena e velha cidade às margens do rio Tietê, perto de São Paulo, o cientista havia sido autorizado em 1956 pelo Ministério da Agricultura a importar da África uma centena de abelhas-rainha da espécie Apis mellifera scutellata.
A pesquisa sobre a possibilidade de miscigenação com as abelhas criadas no Brasil tinha por base o horto florestal de Rio Claro, onde a Cia Paulista de Estradas de Ferro mantinha desde 1915 uma portentosa plantação de eucaliptos. Num fim de semana de abril de 1957, algumas abelhas-rainha escaparam do espaço onde estavam confinadas.
Tudo não teria passado de um episódio curioso se as africanas livres não tivessem se revelado muito mais agressivas do que as abelhas europeias (Apis mellifera mellifera) trazidas ao país pelos imigrantes alemães no século XIX.
Foi um terror. As abelhas africanas picaram animais e pessoas, provocando algumas mortes. A imprensa as chamou de “assassinas”. Warwick Kerr foi responsabilizado pelo acidente, nunca devidamente esclarecido. As abelhas não teriam escapado e, sim, ganho a liberdade, já que dentro do espaço da pesquisa pareciam normais.
Na realidade, Kerr estava encantado com as africanas, pois elas eram mais sadias e produtivas do que as abelhas europeias, que adoeciam facilmente e produziam bem menos.
Na natureza, revelou-se o fato promissor: as africanas cruzaram com as europeias, gerando um híbrido mais produtivo e mais resistente à varroa, a principal doença da Apis mellifera mellifera. Além disso, o cruzamento genético permitiu o desenvolvimento de um híbrido mais manso do que as agressivas africanas.
O resultado genético apareceu logo, pois as abelhas vivem apenas 45 dias. Em apenas dois ou três anos, a apicultura brasileira estava renovada.
A progressão geográfica da nova espécie também foi rápida. Já nos anos 1960, as abelhas africanizadas estavam chegando a Misiones, na Argentina. Nos anos 1980, estavam em toda a América Latina. Em 1990, com a chegada à Florida e à Califórnia, o governo americano mandou armar barreiras que se revelaram inúteis. Nesse ano, Kerr foi o primeiro brasileiro a ser acolhido pela Academia de Ciências dos Estados Unidos.
As abelhas africanizadas se tornaram uma espécie de troféu vivo de Kerr, que também estudou profundamente as abelhas nativas, como a jataí e a mandaçaia. Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência de 1969 a 1973, ele lecionou e pesquisou nos Estados Unidos, em Rio Claro, Ribeirão Preto, Manaus, São Luiz do Maranhão e Uberlândia, onde deu aulas até 2012. Em 2016, todo seu material pessoal de pesquisa foi doado à biblioteca da Universidade Federal de Uberlândia.

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