Naira Hofmeister, para a CARTA MAIOR
Herdeiro de um legado que inclui a sistematização dos direitos do trabalhador, a criação da Petrobras e a resistência ao golpe, protagonizados em momentos distintos por Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola, o Partido Democrático Trabalhista (PDT) tenta manter, neste final de 2015, a unidade em torno da defesa do mandato presidencial de Dilma Rousseff.
Não está fácil, o que ficou comprovado na convenção estadual da sigla, ocorrida no último sábado (12), em Porto Alegre.
Nacionalmente, a executiva do PDT fechou posição em apoio ao governo, porém há dissidências e a decisão final sairá de uma reunião do diretório nacional nos dias 21 e 22 de dezembro, no Rio de Janeiro.
O encontro em Porto Alegre foi sintomático porque reuniu as principais lideranças estaduais, o presidente nacional do partido, Carlos Lupi, e o pré-candidato à presidência da República Ciro Gomes.
Os dois últimos sustentaram a posição atual da executiva nacional, enquanto o senador pelo Rio Grande do Sul, Lasier Martins, defendeu o desembarque imediato do governo Dilma e o “direito ao prosseguimento das investigações’, rechaçando os gritos da plateia que o acusavam de incentivar o golpe.
Teve também outro elemento especial, pois a convenção ocorreu apenas um dia depois do ato de adesão multipartidária à nova Campanha da Legalidade, que havia sido lançada uma semana antes pelo próprio Ciro e pelo governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), em São Luís.
“O voto dá legitimidade para o político defender uma posição, porém a história sobre a qual está fundado este partido nos impele para a luta. Não vamos admitir que se rasgue a Constituição do Brasil”, conclamou Lupi.
Ele se referia à posição de Lasier Martins, que dividiu os convencionais. Enquanto uma parte da plateia gritava “saiam”, uma referência ao rompimento com o governo Dilma Rousseff, outros gritavam “não vai ter golpe”. A juventude do PDT, megafone na mão atacou de “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura” – uma referência à extensa carreira que Lasier Martins teve como apresentador e comentarista nas rádios e TVs do grupo RBS, a afiliada da Vênus Platinada no Rio Grande do Sul.
Como a empresa de comunicação gaúcha está sendo relacionada entre as que teriam comprado pareceres de conselheiros do Carf para anular dívidas fiscais com o governo federal, não faltaram também menções à Operação Zelotes.
Alerta para o arrependimento
Diante do quadro de divisão, Lupi tentou mostrar aos militantes que discordavam de sua defesa do mandato de Dilma que o arrependimento poderia vir depois.
“Em 1954 havia multidões nas ruas pedindo a saída do Getúlio, incentivados pelas manchetes dos jornais. Mas quando ele deu um tiro no coração todos choraram sua morte e foram se despedir daquele líder”, recordou.
Ele apelou também para a imagem de valentia do caudilho trabalhista. “Getúlio deu a vida por este país sem consultar a ninguém. Foi um ato solitário, no qual ele deixou claro que a sua voz era a sua vida”, ilustrou.
Também foi um elogio à hombridade sua analogia com 1961. “O (palácio) Piratini foi palco de um chamado radical do Brizola que escreveu a página de ouro da política brasileira como o único civil que liderou um movimento para impedir um golpe militar”, assinalou.
Sobre 1964, quando Jango não conseguiu reeditar a resistência e acabou exilado no Uruguai pelo golpe, Lupi recordou que houve um grande contingente de apoiadores repetindo o discurso de que seria uma mudança institucional temporária. “Eles achavam que iam impedir as forças comunistas de governar e que dali a três meses haveria eleição. Só que durou 21 anos”, apontou.
“Esta não é uma discussão sobre se somos a favor ou contra o PT. É sobre de que lado da história estamos. O PDT não pode engrossar a direita”, concluiu.
Ciro ovacionado
Último a falar no evento, Ciro foi conciliador como cumpre a um pré-candidato à presidência da República e deixou a convenção debaixo de gritos: “Ciro, guerreiro, do povo brasileiro” e “Brasil, Urgente, Ciro presidente” – os mesmos versos que a militância se habituou a dirigir à Leonel Brizola, quando ainda vivo.
Começou tranquilizando o senador Lasier Martins, que lhe parecia tenso na reunião: “Qualquer patriota que aponte as mazelas do governo Dilma está coberto de razão. Mas a justa zanga não é boa conselheira”, alertou.
Abonou a tese de que o impeachment traria instabilidade econômica ao Brasil, mas foi além, mostrando que o debate “politiqueiro’, como classificou, concentra as atenções do país enquanto temas de fundamental relevância ficam em segundo plano.
“Este ano os bancos contabilizaram o maior lucro da história, superando em 40% o recorde de 2014. São os mesmos bancos que fizeram um ataque especulativo ao Real, a nossa moeda”, condenou.
“E nós, distraídos com essa conflagração politiqueira”, completou.
Defendeu o legado dos governos do Partido dos Trabalhadores: o poder de compra do salário mínimo, que saltou de 76 dólares para 320, entre janeiro de 2003 e janeiro de 2015; a expansão do crédito que era de 13% e passou a 50% do PIB brasileiro e o Bolsa Família.
“São muitas famílias que antes viviam com fome e é isso que está ameaçado com este debate sobre o impeachment”, observou.
Políticas que ele ficaria satisfeito em dar continuidade como presidente. E diante de uma plateia que, neste caso, parecia unânime sobre a necessidade de sua candidatura (a exceção talvez fosse Lasier Martins, que defende o nome de seu colega de senado Cristóvam Buarque), Ciro disse que não se lançaria à aventura “para ser poeta” – uma alfinetada, aliás, no concorrente interno.
Defendeu o pragmatismo. “Se elegemos o presidente da República e 100 deputados federais. Fazemos o quê? Dispensamos as outras forças políticas como se fôssemos um anjo vingador que não perdoa as falhas alheias?”, indagou.

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