A menina perguntou: “Por que essa violência?” O PM respondeu: “Porque sim”. E, puxando-a pelo braço, meteu-a numa viatura. O vídeo está circulando na internet, publicado pela Jornalistas Livres. Ela só foi liberada à noite.
Ela foi uma das três pessoas detidas pela Polícia Militar de São Paulo durante manifestação contra o governo do presidente Michel Temer na capital paulista, na tarde de domingo, 11/9.
Organizada pela Frente Povo Sem Medo e pela Frente Brasil Popular, mas com adesão de diversos grupos, a manifestação começou sob o vão livre do MASP, às 14hs, saiu da Avenida Paulista, às 17h30 e seguiu em passeata até o Parque do Ibirapuera, onde chegou às 19h30. Entre os participantes, estava o prefeito Fernando Haddad (PT).
Um dos homens detidos era um fotógrafo, que tentou argumentar com a polícia em defesa do grupo que estava sendo revistado, mas acabou sendo preso também. Amigos dos detidos contaram que a polícia abordou o grupo e revistou suas mochilas, por volta das 17h30. O grupo usava máscaras, sob a alegação de que faria uma intervenção artística durante ato. Nas mochilas, a polícia encontrou um soco inglês, bolas de gude e uma faca de cozinha, sem ponta. O soco inglês seria para defesa pessoal, segundo uma amiga do grupo detido.
Tumulto
Pessoas que presenciaram a prisão disseram que não houve incidente provocado pelo grupo que pudesse motivar a abordagem e a detenção. Mas o major Telles, que comandou a operação, disse que foram abordados “porque estavam mascarados e com mochilas” e seriam levados para o 78º Distrito Policial e depois para o Departamento Investigações Criminais. Isso, entretanto, não ocorreu, porque o delegado cancelou a transferência.
Houve um início de tumulto durante a detenção, com correria entre participantes da manifestação, por medo que pudesse ocorrer violência contra outras pessoas. O ex-senador petista Eduardo Suplicy, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) e o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) se aproximaram e mediaram a situação, que logo voltou ao normal.
Valente criticou a ação policial: “Imensa desnecessidade e uma truculência da Polícia Militar. Mesmo que alguma pessoa esteja mascarada ou com alguma coisa na mochila, você não pode tensionar uma manifestação de milhares de pessoas. É uma irresponsabilidade isso. Em todo caso, por pressão aqui dos parlamentares, a Polícia Militar afastou a tropa e a passeata vai seguir pacificamente”.
Representação à OEA
O senador Lindbergh Farias, disse que há uma representação já pronta para ser entregue à Corte Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), sobre a atuação policial nas manifestações. “Não permitiremos a criminalização dos movimentos sociais”, assegurou.
Segundo o senador, a representação tem dados das últimas manifestações e a intenção é que a Corte se posicione sobre a questão. Lindbergh falou do caso do militar do Exército que estava infiltrado e disfarçado entre manifestantes, capitão William Pina Botelho.
Lindbergh, junto com o ex-senador Eduardo Suplicy e o deputado federal Ivan Valente, interveio no princípio de tumulto durante a ação policial para prender três manifestantes. “Estão lá parlamentares, artistas, mas não inibe. Nada inibe essa polícia aqui, que parece descontrolada”, disse o senador.
Por volta das 17h, ainda na Paulista, a Polícia Militar se exaltou e partiu para cima dos manifestantes. Repórter do GGN no local relatou uso de gás de pimenta. Na descida pela rua Brigadeiro Luiz Antônio, em direção ao Ibirapuera, a PM tentou bloquear o trajeto dos manifestantes, e só liberou o caminho depois de negociação com os organizadores do protesto e dos parlamentares presentes.
De acordo com a página Mídia Ninja, o jovem Gabriel Simeone, militante do MST, foi espancando na ação da Polícia Militar. “Não se sabe o paradeiro dele, que pode ter sido detido, ainda sem justificativa, pelos militares.” Os organizadores anunciaram ao microfone, no final do ato, a prisão de três pessoas durante a confusão.
Segundo a RBA, a confusão começou porque a PM sentiu-se provocada após o senador Lindbergh Farias (PT) denunciar, junto ao deputado federal Ricardo Teixeira (PT), a repressão sofrida por manifestantes e prisões arbitrárias registradas no protesto do dia 4 de setembro à OEA (Organização dos Estados Americanos).
“Sou autor de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) para acabar com a PM. A PM é para a guerra e não para proteger o povo”, disse, provocando forte reação dos manifestantes, que gritavam “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar”.
“Como o carro de som estava localizado em frente ao posto da PM, no Parque Trianon, os policiais sentiram-se provocados com os gritos e foram para cima de manifestantes empunhando cassetetes, mas o episódio foi contornado”, publicou a RBA.
Organizadores do ato Fora Temer tentaram acalmar participantes após ataque da Polícia Militar. “Vamos seguir a manifestação. Não vamos cair na provocação. O nosso ato está incomodando porque a gente é grande”, disse uma militante pedindo Diretas Já.
Já estava escuro quando o protesto terminou, no Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera.

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