Porto Alegre terá oito novos pontos de cultura

Adriana Lampert
Porto Alegre será beneficiada com oito novos pontos culturais, eleitos para receberem verba do programa Cultura Viva do Ministério da Cultura (MinC), em uma seleção que envolveu a análise de 2.365 projetos de todo o país.
A Secretaria de Programas e Projetos Culturais do MinC escolheu 328 propostas de todo o Brasil, para as quais irá liberar mais de R$ 70 milhões até 2007. A definição dos novos Pontos de Cultura foi anunciada no último dia 3, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pelos ministros Gilberto Gil (Cultura) e Luiz Marinho (Trabalho e Emprego) e por Célio Turino, secretário do Programa, em Heliópolis , SP.
Respaldados pelo convênio com o Ministério da Cultura (cada ponto contemplado receberá até R$ 185 mil divididos em cinco parcelas semestrais) serão criados 33 pontos na região norte do país, 113 no Nordeste, 27 na região centro-oeste, 114 no Sudeste e 41 na região Sul.
Em Porto Alegre, as instituições responsáveis pela criação dos novos Pontos de Cultura (PC) são: Sociedade Recreativa Beneficente do Estado Maior da Restinga; Movimento Paulo Freire (que instituirá a Biblioteca do Fórum Social Mundial); Instituto de Cidadania e Direitos Humanos – Teia (PC do Bairro Assunção); Guayí (Casa do Cristal Quilombo do Sopapo); Somos Comunicação, Saúde e Sexualidade (Ponto de Cultura GLBT do RS); Maria Mulher – Grupo de Mulheres Negras (PC Maria Mulher); Sociedade de Ação Social Recreativa Beneficente Cultural Odomodê (PC do bloco Afro Odomodê) e Associação Cultural Depósito de Teatro (Ocupação teatral na Vila Santa Rosa).
Para que o convênio seja estabelecido efetivamente, as instituições responsáveis pelos projetos selecionados ainda devem enviar documentação ao MinC até o dia 14 de novembro. Os critérios de seleção envolveram os benefícios artísticos, sociais e econômicos de cada projeto e o seu contexto social. Cada ponto de cultura deverá agregar “agentes culturais” que terão papel de articuladores e deverão agir em prol de um conjunto de ações nas comunidades envolvidas. A criação do Programa Cultura Viva ocorreu em 6 de julho de 2004. O primeiro edital (16 de julho de 2004) gerou a criação de 500 pontos em todo o território nacional.
Teatro como resgate da identidade cultural
A Vila Santa Rosa, localizada no bairro Rubem Berta, é um exemplo porto-alegrense do contexto social que o Programa pretende atingir. Área habitada por ocupação, abriga população de baixa renda, onde a maioria dos adolescentes e jovens são afro-descendentes em situação de vulnerabilidade social e pouco contato com serviços de cultura.
Ali nasceu o grupo ResgatArte, em 1992. Formado por aproximadamente nove pessoas, o grupo solicitou à Prefeitura o financiamento de oficinas teatrais e, tendo sido beneficiado, apresentou resultados tão positivos, que inspirou o projeto de Descentralização da Cultura, que existe até hoje. No entanto, a Descentralização deixou de atender o bairro em 1996 e o ResgatArte passou a enfrentar dificuldades para se manter.
Nos quatro anos que a Descentralização contemplou a Vila Santa Rosa, foi a atriz Sandra Possani (atualmente integrante da Associação Cultural Depósito de Teatro) que acompanhou o grupo e participou de suas descobertas, entre elas, o resgate da identidade afro-descendente e a transformação que a experiência teatral provocou em cada indivíduo do grupo.
“Na época, começamos a trabalhar em cima de temáticas do negro – da escravidão à marginalização – e realizamos três espetáculos dentro deste universo”, conta Sandra. “Foi pensando na continuidade deste trabalho e no fomento a manutenção e auto-gestão do grupo ResgatArte, que o Depósito de Teatro projetou a Ocupação Teatral da Vila Santa Rosa” explica a bailarina e atriz Maria Falkembach, integrante da Associação.
“A idéia é que os integrantes do ResgatArte também passem a ser agentes culturais dentro da comunidade e venham a fazer trabalhos voluntários no futuro. Pretendemos não só estruturar este grupo de teatro, mas também capacitar as pessoas que estiverem na volta”, explica Sandra. “Mas as questões e os caminhos serão muito discutidos, será um trabalho a ser decidido com a comunidade”, completa.
A estimativa é de que a Ocupação Teatral da Vila Santa Rosa beneficie entre oito a 15 mil pessoas, através de apresentações de teatro e da realização de oficinas gratuitas de dramaturgia, figurino, fotografia, antropologia (como base de outra forma de compreensão da vida e das diversas culturas ), cenário, dança, circo, iluminação, adereços e produção.
O projeto será todo documentado pela própria comunidade beneficiada, através da oficina de vídeo e edição de imagem. Tudo que for feito será avaliado a cada dois meses, através de uma parceria que o Depósito de Teatro fez com a Unijui. Uma equipe da universidade irá organizar seminários de dois dias para que todos os participantes falem do que esta sendo feito e possam avaliar e refletir suas ações durante todo o processo.
O projeto irá receber R$ 170 mil do Ministério da Cultura em dois anos e meio. Este dinheiro será destinado aos cachês dos 15 ministrantes das oficinas, ao aluguel e estrutura do espaço – ainda a ser definido – e à montagem de dois espetáculos (um adulto e um infantil). O grupo pretende viajar para conhecer outros pontos de cultura no Brasil e levar outros espetáculos para se apresentarem no local.
“A meta é fortalecer o grupo ResgatArte. Vamos criar um esquema de produção, passar a experiência do Depósito, capacitando este pessoal para o mercado de trabalho”, ressalta Maria. “Concretizar este projeto significa a realização de um desejo de contribuir para o direito ao acesso à cultura que todo o cidadão deve ter. Além disso, nós como artistas necessitamos estar perto da nossa realidade. Quando fazemos arte, buscamos expressar o sentimento de uma comunidade. Será uma troca de experiências”, conclui.

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