O comentário de Alexandre Fetter, na rádio Atlântida, do Grupo RBS, provocou indignação, sobretudo de colegas de profissão. Professores da Unisinos lançaram uma carta aberta e o Sindicato dos Jornalistas emitiu uma nota cobrando uma manifestação do Grupo RBS.
O secretário de Comunicação do Estado respondeu em sua página pessoal no Facebook. A jornalista Márcia Martins, em coluna no Coletiva.net, perguntou a Fetter: “Você perdeu totalmente o juízo? Você não tem a mínima noção do poder de formação de opinião de uma rádio como esta onde você trabalha?”.
Nota do Sindicato dos Jornalistas
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors) reforça que luta, acima de tudo, pela liberdade de expressão. Todavia, ela não deve, em hipótese alguma, ser usada como desculpa para incitação à violência. Nossa liberdade de expressão deve respeitar, sobretudo, a integridade das pessoas. Logo, lamentamos profundamente a manifestação pública do comunicador Alexandre Fetter, do grupo RBS, feita na sexta-feira, dia 26, durante o Pretinho Básico, na qual, em discurso apresentado como editorial do programa radiofônico, fez clara incitação à violência, à intolerância e ao crime.
Cabe ressaltar que ele agrediu colegas que são jornalistas, faculdades de Jornalismo, professores, defensores dos Direitos Humanos e outras instituições. Reforçou atitudes contra formadores de opinião que se opõem aos excessos praticados pela polícia, enfatizando que essas pessoas deveriam ser as próximas vítimas. Manifestou-se, ainda, aos “amigos, parentes e familiares destes que aí estão patrocinando e promovendo um massacre urbano lá de dentro dos seus gabinetes”. Para ele, “que sejam vocês as próximas vítimas, seus parentes, seus filhos, seus pais, suas mães. Porque vocês merecem isso”.
O artigo 286 do Código Penal brasileiro deixa claro que não se deve incitar, publicamente, a prática de crime. A atitude ganha gravidade ao levarmos em conta a situação em que se encontra o país e, em especial, o Estado.
Vivemos em uma realidade em que a violência faz vítimas diárias. É preciso mudar esse cenário o mais rápido possível e questionar, sempre, as lideranças. A população não pode ficar refém do crime enquanto o governo do Estado adota uma política de desvalorização do serviço público. Entretanto, a redução da criminalidade nunca se dará por meio de falas de ódio.
Cobramos do grupo RBS uma postura em relação ao ocorrido. O discurso do comunicador foi proferido em uma emissora de rádio, que é concessão pública, logo, não deveria canalizar manifestações de violência.
O Sindjors luta pela verdade dos fatos, pelo fim de preconceitos e da desigualdade, por uma mídia democrática que se preocupe em tempo integral com o bem de toda a população, de todas as classes sociais.
Repercussão
Os docentes da Unsinos destacam que Fetter teria feito “uma sequência de insultos e incitação à violência contra os que supostamente seriam os culpados pelos dados que preocupam a todos”. O texto também registra o quão preocupados os professores ficam com o fato de um radialista de uma emissora com tamanha audiência usar o espaço para contrariar os princípios éticos do Jornalismo.
Após a grande repercussão acerca da sua manifestação sobre violência na última sexta-feira, 26, Alexandre Fetter pediu desculpas no programa Pretinho Básico, desta segunda, 29. Em seu pronunciamento, o comunicador disse que dialogou pacificamente com todos aqueles que se manifestaram, “outros não foram dignos nas suas colocações, estes ficaram sem repostas”.
Na sexta-feira, o radialista do Grupo RBS defendeu que colegas de Comunicação que criticam a Brigada Militar e a Polícia Civil “sejam as próximas vítimas [da violência urbana], que sejam eles a sangrar e deixar suas famílias enterradas”. Durante o programa da Atlântida, o âncora se mostrou indignado com a postura de alguns jornalistas, afirmando ter nojo destas pessoas: “Gente que eu adoraria citar o nome, colegas de profissão que trabalham ali no morro do lado, trabalham aqui, um pouquinho acima, mas não dá, infelizmente”.
A postura de Fetter repercutiu negativamente, inclusive, entre os colegas da RBS, que se sentiram incomodados, pois as críticas dirigidas a ele foram transferidas também para os demais comunicadores. No início do programa da Rádio Atlântida de terça, o radialista falou que, se foi mal-interpretado, gostaria de pedir desculpas, pois não era sua intenção causar a discussão. “Não prego a violência e não quero a morte de ninguém e também sou pai de família. Quero pedir humildemente desculpas, pois trabalho para o bem”, falou.
Nesta terça-feira, 30, o secretário de Comunicação do Rio Grande do Sul, Cleber Benvegnú, se manifestou em relação à carta aberta do comunicador Alexandre Fetter a respeito da onda de violência na Capital. O texto foi lido na última sexta-feira, 26, durante o programa Pretinho Básico, da Rádio Atlântida. Benvegnú publicou seu posicionamento em sua conta pessoal do Facebook, onde desaprovou a conduta de Fetter.
Em um dos trechos, o secretário afirmou que ele e sua equipe também sofrem com as mortes violentas que vêm acontecendo em Porto Alegre. Acrescentou que o sofrimento foi um pouco maior em relação à sugestão de Fetter, de que os profissionais de comunicação e suas famílias, que divergem de algumas opiniões do radialista, fossem as próximas vítimas. “Sim, foi isso que disseste. E não há senso de humor, compreensão, diplomacia ou largueza de espírito que possa considerar essas palavras construtivas. Para um comunicador com a tua experiência, não avaliar tudo isso é incoerente, para dizer o mínimo, com aqueles princípios que referi”, avaliou, e salientou que o comentário não corresponde com o Código de Ética do Grupo RBS, que preza pela vida e pela família.
Relatou, ainda, que a carta aberta foi um pedido de sua equipe a fim de lembrar que “todos fazemos parte da mesma família gaúcha e brasileira – mesmo aqueles que temporariamente estão em um gabinete”. Além disso, destacou que não publicou uma resposta com o objetivo de afastar a atenção dos debates em relação à segurança pública nem pela assessoria de imprensa do governador ter sido chamada de ‘cretina’ pelo comunicador. “Mas considerei que devia escrever, inclusive para dizer que as lágrimas de vocês, por tudo o que aconteceu, também correram em nossos rostos. O Rio Grande do Sul é um só”, finalizou.
Carta dos docentes da Unisinos
Manifestação de Repúdio
Nós, professores de Jornalismo da Unisinos abaixo listados, por iniciativa do grupo, manifestamos nosso repúdio ao conteúdo da “carta aberta” lida pelo comunicador Alexandre Fetter no Programa Pretinho Básico da Rádio Atlântida FM na última sexta-feira, dia 26 de agosto. De acordo com o áudio disponível na página do programa, o “pequeno editorial” teria um caráter de desabafo frente aos casos de latrocínio que aumentam no Estado e um pedido de solução urgente para a escalada da violência.
O que se ouviu, no entanto, foi uma sequência de insultos e incitação à violência contra os que supostamente seriam os culpados pelos dados que preocupam a todos. Dentre eles, os políticos, magistrados e jornalistas (formadores de opinião) que fazem críticas aos excessos da Brigada Militar, acusados pelo apresentador de “proteger bandidos”.
Disse ele: “Não é possível que jornalistas ou formadores de opinião sigam em seus espacinhos públicos batendo na Brigada Militar, na Polícia, em suas práticas de defesa da sociedade, denegrindo (sic) e manchando a imagem da instituição. Tenho mais do que vergonha destas pessoas, tenho nojo destas pessoas, gente que eu adoraria citar o nome, colegas de profissão que trabalham ali no morro do lado, trabalham aqui, um pouquinho acima, mas não dá, infelizmente. Para mim, que gente assim sejam as próximas vítimas, que sejam eles a sangrar e deixar suas famílias enterradas”.
Preocupa-nos sobremaneira que este tipo de manifestação possa ser entendida como Liberdade de Expressão, princípio inalienável da função jornalística e comunicativa. Há que se distinguir que nenhum direito, como o de opinar, pode ser superior ao direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal (Artigo III da Declaração Universal de Direitos Humanos). Direito este aviltado pelo comunicador, que mostrou desejar destruir seletivamente pessoas e pensamentos divergentes dos seus. É fundamental que se diga que a incitação à violência é crime previsto no Código Penal (Art.286).
Ficamos atemorizados com o fato de um comunicador que tem o microfone à disposição numa das rádios de maior audiência neste Estado possa estar usando esse espaço para ir contra os princípios que norteiam a profissão jornalística que, em qualquer situação, devem balizar-se por conduta ética.
Acreditamos que é função de todos os cidadãos estarem atentos aos compromissos assumidos pelos veículos nos seus códigos de ética. A atuação do comunicador vai frontalmente contra o Código de Ética e Conduta e o Guia de Ética e Autorregulamentação Jornalística do grupo RBS disponibilizados para o público. Dentre os princípios, está o de que “A RBS não admite preconceito de qualquer espécie”, e ainda, “As fronteiras de opinião são demarcadas por valores e pela responsabilidade individual. Tais princípios devem ser respeitados por jornalistas e comunicadores, incluindo colunistas e comentaristas regulares ou não”.
Cabe ressaltar que o episódio em questão afronta a Constituição Federal. Em seu artigo 221, inciso IV, ela estabelece que a programação das emissoras de rádio e televisão deve pautar-se pelo “respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família”.
Por fim, manifestamos toda solidariedade às vítimas desta violência que tem destruído famílias em todos os estratos sociais. Concordamos que a crise da falta de segurança no Rio Grande do Sul é grave, e que exige a colaboração cidadã de todos. As críticas devem ser feitas, mas lembrando que a violência não pode ser combatida com mais violência. O momento requer reflexão, discernimento e ações firmes, embasadas numa cultura de paz.
Alberto Efendi de la Torre
Beatriz Marocco
Beatriz Sallet
Cybeli Moraes
Debora Lapa Gadret
Daniel Bittencourt
Daniel Pedroso
Edelberto Behs
Éverton Cardoso
Felipe Boff
Flavio Dutra
João Damasceno Ladeira
Luciana Kraemer
Maria Clara Aquino Bittencourt
Mariana Bastian
Marlise Brenol
Micael Vier Behs
Nikão Duarte
Pedro Luiz da Silveira Osorio
Ronaldo Henn
Sabrina Franzoni
Sérgio Endler
Sônia Montaño
Thaís Furtado

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