Matheus Chaparini
A concentração começou por volta das cinco da tarde, sob intenso calor, na Esquina Democrática, no coração de Porto Alegre.
Rapidamente, a multidão foi crescendo e se espalhando pela avenida Borges de Medeiros – da Sete de Setembro até a Andrade Neves – e transbordava também para os dois lados na Rua dos Andradas. Há anos, não se via tanta gente naquela esquina.
“Não vai ter golpe, vai ter luta” é a frase que resume o movimento que reuniu, segundo a organização, 50 mil pessoas no centro de Porto Alegre em defesa da democracia. A Brigada Militar falou em 10 mil.
“Não minta, Rede Globo! Coloque aí pelo menos 30 mil em Porto Alegre”, disse Claudir Nespolo, presidente regional da CUT, ironizando as divergências comuns nos números das manifestações.
De qualquer forma, o ato reuniu muito mais gente do que o realizado na Redenção, no domingo.
Não só o tamanho mudou. Ficou claro o forte engajamento de cidadãos independentes. Jovens, idosos, famílias inteiras, com carrinhos de bebê. Nos entornos da aglomeração era comum ver pessoas em roda, discutindo política, com direito a divergências, como manda a democracia.
Um grupo de senhores idosos recordava o golpe de 64 e traçava alguns paralelos entre os dois momentos históricos. Um rapaz de vinte e poucos, inconformado, argumentava com os amigos que deve haver uma terceira via, uma saída pela esquerda.
As falas no carro de som também tinham um tom um pouco diferente. Defendiam a democracia, mais do que o partido, ou Lula, ou Dilma.
Em alguns momentos se ouviu “Olê olê olê olá! Lula! Lula!”, mas a tônica era mesmo o “Sou brasileiro, é pra valer, não vou deixar esse golpe acontecer.”
O MST levou mais de mil militantes para a manifestação. “Hoje nós não trouxemos as foices. Mas se precisar a gente traz”, bradou um representante do movimento ao microfone. “Só sai reforma agrária com a aliança camponesa e operária” respondeu o público cantando.
Sérgio Moro e Rede Globo, os principais alvos
Além das tradicionais bandeiras do PT, do PCdoB, do Brasil, de centrais sindicais, e de movimentos sociais, havia diversas faixas e cartazes independentes, muitos feitos em casa. Os temas eram a lembrança da ditadura, o não ao golpe e críticas à atuação do juiz Sérgio Moro e à cobertura jornalística da Rede Globo. “TV Globo quer incendiar o país” dizia a faixa do grupo teatral Ói Nóis Aqui Traveiz.
Equipes de diversos veículos circulavam pela multidão. TVE, SBT, Record, Band foram vistas acompanhando a manifestação.
Enquanto isso, dez metros acima, sobre a marquise de um prédio, um repórter solitário da RBS aguardava o momento de entrar ao vivo. Quando a luz da câmera acendia os manifestantes davam a sentença: “Golpista! Golpista! Golpista!”
O carro de som era comandado por três mulheres, “três mulheres crespas”, observou uma delas, em alusão à estética da chapinha, predominante nas manifestações do domingo anterior, no Parcão.
“A questão não é que aqui tem mais gente. É que lá só tem branco, só tem rico, aqui tem o povo”, destacou o sociólogo Emir Sader. O ex-governador Tarso Genro afirmou que é preciso “semear ideias contra o golpe, contra o sectarismo e contra o fascismo.”
O apoio ao governo não era incondicional entre os manifestantes. “Não vim pelo Lula, nem pela Dilma. Vim contra o golpe”, explicava um homem na faixa dos 50 anos.
Um ambientalista carregava um cartaz que dizia: parem Belo Monte. Uma moça que passava concordou e completou: “está faltando também a criação de uma política indigenista. Se os índios viessem protestar, não sei não se eles estariam do nosso lado.”
Um pequeno grupo de ativistas pela liberação da maconha também trouxe sua reivindicação: “Dilma Rousseff, legaliza o beck!”
Momento político domina as conversas
Por volta das 19 horas, saiu a caminhada pela Borges de Medeiros até o largo Zumbi dos Palmares.
Quando a marcha passou pela esquina da rua Fernando Machado, alguns moradores, favoráveis ao impeachment, bateram panelas nas janelas dos apartamentos.
Os manifestantes responderam com “pode bater panela, representamos o povo da favela” e “Que palhaçada, bate panela mas quem lava é a empregada”.
Na chegada ao largo, o último carro de som anunciava: “Já somos aqui mais de 60 mil pessoas”. Dali em diante, a multidão se dividiu.
Uma parte permaneceu na esquina da Loureiro da Silva com a José do Patrocínio, outra ficou no largo, onde houve mais alguns discursos antes do canto do hino nacional. A bandeira brasileira era vista com frequência, uma forma de tentar desvincular os símbolos nacionais da pauta da direita.
Às 21 horas, restavam algumas centenas de pessoas em uma das pistas da Loureiro da Silva, mas o ato já se dissipava. Pela Cidade Baixa, a política era o assunto das mesas dos bares, em algumas, as pessoas ainda cantavam.
Até mesmo no supermercado. Logo na entrada do Zaffari da Lima e Silva, um pequeno grupo de jovens cantava que “a verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”. Na fila dos caixas eletrônicos, o conturbado momento político do país era o assunto predominante.
A sexta-feira ia saindo de cena, para dar lugar a um final de semana repleto de expectativas quanto aos próximos acontecimentos.
Veja alguns momentos:
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