Quixote gaúcho ocupa a entrada da biblioteca da USP

Desde quinta-feira, 27 de abril, a obra “O Triunfo de Dom Quixote”,  do gaúcho Enio Squeff, domina a entrada da biblioteca central da Universidade de São Paulo
dom quixote a tela
O quadro foi pintado em 2005 para a comemoração de 400 anos da edição do livro de Miguel de Cervantes. Tem mais de 12 metros metros quadrados ( 3 m de altura, por 4 de comprimento).
No total, foram retratados 30 dos mais de 200 personagens do livro de Miguel de Cervantes. No centro do quadro, pode-se ver Dom Quixote, montado em seu cavalo Rocinante: ele aponta uma lança para o céu para onde dirige também o seu olhar.
Ao seu redor, pode-se ver  o cura, amigo de Dom Quixote, e um dos muitos mouros do livro, além de, dentre outros, uma Dulcinéia idealizada num nicho (amor platônico de Dom Quixote).
O autor do livro,  Miguel de Cervantes, também está no quadro, juntamente com Santo Amaro ( em homenagem ao bairro onde a pintura foi feita) e o bandeirante Borba Gato, duas “licenças poéticas”, como as define o pintor, pois nenhum deles foi contemporâneo do livro.
No caso do bandeirante, houve a menção explícita à famosa estátua de Júlio Guerra no próprio bairro. O próprio, aliás, pintor aparece de costas, numa referência à metalinguagem muito praticada na obra de Cervantes
No canto do quadro, foi pintada uma natureza morta com frutas tropicais, criada não apenas como atração para Sancho Pança e seu Russo, mas também como uma evocação histórica já que, na época do livro, o Brasil, colônia de Portugal, pertencia à Coroa Espanhola.
Dom Quixote está na parte central do quadro, usando uma armadura com uma faixa laranja: ela representaria a auto-intitulada nobreza do personagem
O artista Enio Squeff:
Nascido em Porto Alegre, Enio Squeff iniciou sua carreira como jornalista na “Veja”, transferido-se em seguida para “O  Estado de S.Paulo”, onde foi  editor da Página de artes do jornal. Mais tarde, continuou sua trajetória na  “Folha de S. Paulo”, na qual, além de editorialista, fez crítica musical. Foi a pedido do próprio jornal, que o hoje artista começou a  ilustrar na página três da “Folha”, quando, então, iniciou sua carreira artística.
Mas afinal, quem é Dom Quixote?.
Nascido numa remota localidade da Mancha, na Espanha,  no século XVI, o Dom Quixote, do livro de Cervantes, passa parte da sua vida mergulhado em livros sobre cavalaria. Depois de algum tempo, resolve se aventurar pelo mundo, como cavaleiro andante, ao lado de seu amigo e escudeiro, Sancho Pança, onde passarão por diversos desafios, conquistas e batalhas, muitas delas meras digressões do personagem título.  Diagnosticado como louco, depois de uma, sua trajetória em que a alucinação se confunde com a realidade, Dom Quixote, no segundo volume da obra de Cervantes, chega ao fim da vida, de forma tranquila. Aproveitou seus últimos dias em sua casa, a distribuir seus bens e onde, na versão de Cervantes, será lembrado como um homem digno, que um dia perdeu o juízo, mas que  o recupera, pouco antes de seu fim.Escrito em 1605, a obra de Cervantes talvez seja hoje a obra mais conhecida da literatura ocidental

d.quixote

“Há que ter loucura para fazer o mundo melhor”
Enio Squeff
Vivemos uma época em que tudo nos autoriza a sermos quixotescos. Miguel de Cervantes com seu personagem – o Cavaleiro da Triste Figura – nos ensina que, como disse o compositor Giuseppe Verdi, – via Shakespeare – a vida é uma burla, uma brincadeira. “Tutto è burla, dizia o seu Falstaff, ou seja, a vida é um jogo, por vezes trágico e cruel, mas sempre um jogo.
No entanto, na idade em que vestimos pijama e pantufas, Dom Quixote enceta suas aventuras, a enfrentar e a inventar seus gigantes – ainda que sejam Moinhos de Vento. Assim talvez devamos encarar nossos inimigos. E eu não me furto, como Richelieu, que dizia nunca ter tido outros inimigos, a não ser os que eram contra a França, de eleger como nossos adversários, os inimigos do homem, os inimigos da humanidade, quem sabe, os inimigos do Brasil.
Sabemos muito bem quem são.
Por isso enfrentamos gigantes, ora fazendo arte, arquitetura, engenharia, medicina e ora até, ou principalmente, sendo professores e alunos. Não nos interessa-  ou não deveria nos interessar  -que nos acusem de sermos poetas, ou nefelibatas – aqueles que vivem nas nuvens. Realmente, não nos interessa. Mas nada é simples: o quixotesco da nossa condição, é que sabemos, como o personagem de Cervantes, que o mundo é torto. Numa certa medida, ele justifica,  se não a loucura muito delirante, pelo menos a loucura por enquanto não tida como tal.
 
No belo poema intitulado “Pneumotorax”, Manuel Bandeira assaca uma frase estranha, aparentemente desalentadora. Diz o poeta: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”. É um equívoco, se quixotescamente lutamos, talvez não possamos repetir como Van Gogh na sua agonia de suicida, que dizia, quase o mesmo que Manuel Bandeira, ou seja, que a vida  não tinha valido a pena.
 
Pobre Van Gogh, talvez não tivesse lido Dom Quixote. Ou Fernando Pessoa, a proferir que tudo vale a pena. se a alma não é pequena.
Dom Quixote teve a alma grande, a bendita loucura de inventar a sua vida – como se até a sua saída de casa em seu cavalo, ainda de madrugada, belo dia por sinal, disposto a arrostar o mundo – começasse ali, naquele momento em que, como disse, os velhos descansam, esperando a morte. E ele se inventa como cavaleiro andante.
Acho que esta é lição de Dom Quixote: inventemos a nossa vida – ainda que levemos uma surra, ou quem sabe, não nos acossem prisões preventivas e outras mazelas. Cultivemos nossas loucuras. Vivamos nelas.
Todo o ideal é quixotesco, se for ideal. Digam de um artista que não sofreu – este não existe. Para Vinícius de Moraes, o sofrimento é que  definia o poeta.
Enfim, entrego-lhes o “Triunfo de Dom Quuixote. Espero que entendam que não existem triunfos, a não ser nas artes, no estático das artes,independentemente dos artistas. Existem vitórias como uma ou outra – muito rara, que Dom Quixote obteve ao longo de suas aventuras.
Mas são passageiras.
Consigno, não quixotescamente, como uma vitória, ter um obra  minha nesta  Biblioteca, nesta Universidade.
De resto, ainda sobre Dom Quixote: ele sabia que tinha de enfrentar sempre mais dificuldades – porque seu ideal não era seu – era o da Humanidade. Ele pretendia livrá-la dos seus malfeitos.
É o que faz o artista: ele inventa uma realidade que só acontecerá se sua obra um dia, não necessariamente durante a sua vida, for apreciada de alguma maneira. A arte é humanidade.
Dizer do humano que ele é humano, esta a condição da arte. É isso. Ponto. A criança continuará a pedir esmola na esquina, o ladrão vestirá a toga, com que julgará outros criminosos. Mas há que ter a loucura de querer fazer o mundo melhor.
Troquemos o mundo por nosso país. E quixotescamente, de novo,  tentemos inventar algo de melhor do que aí está. Pode não adiantar – Quixote sempre ensinará aos nossos pósteros que a luta vale a pena. É essa a sua grande lição.

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