Servidores da TVE e FM Cultura denunciam retaliação e censura

Tiago Baltz
Um dia depois de ser publicada a entrevista do presidente da Fundação Piratini Orestes de Andrade Jr, um grupo de funcionários procurou o JÁ para manifestar a “perplexidade” que tiveram ao ler o texto e rebater o que foi classificado como “inverdades”, ditas por Orestes.
Com medo de represálias, pediram para serem identificados como representantes do Movimento dos Servidores em Defesa da TVE e FM Cultura.
Segundo o grupo, as alterações nas grades para acabar com os desvios de funções é uma retaliação contra a denúncia feita pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão de que o próprio presidente da Fundação e outros contratados em cargos de confiança, os Ccs, estariam desempenhando atividades ilegais nos estúdios das emissoras.
“O que ocorreu é que o sindicato fez uma denúncia ao Ministério Público do Trabalho do Estado, (MPT)”, apontando que Ccs, incluindo o presidente Orestes, praticavam atividades-fim não autorizadas, como apresentação e produção de programas. O Orestes chegou a participar do programa de entrevista Faces, segundo funcionários.
Depois da denúncia, o clima no alto do morro Santa Teresa, já tenso desde que o governador Sartori sancionou a Lei que autoriza a extinção da Fundação Piratini, azedou de vez. Quase não existe diálogo entre os servidores e a nova direção.
Os funcionários relatam que, em uma reunião no dia 8 de março, Orestes chegou a falar: “por hora, esqueçam os desvios”. Mas, voltou atrás, assim que a denúncia no MPT saiu.
“Na entrevista ao JÁ, Orestes diz que desde o começo avisou que enfrentaria os desvios, e não é verdade. Houve, inclusive, rodízio de apresentadores na TVE, promovido pela direção. E ninguém questionou se estavam fazendo desvios ou não”, relata um funcionário da tevê. E lembrou que uma pessoa da direção chegou a comentar: “Vocês denunciariam a direção. Agora irão atrás de vocês”.
Em junho, com o embate em andamento, servidores tiveram uma reunião em que Orestes avisou que iria, a partir daquele momento, ser 100% legalista, e iria mexer com os que estavam em desvios de função. Servidores gravaram parte da reunião.

 
Os funcionários admitem que há desvios de função, devido às legislações antiquadas em que os contratos dos funcionários concursados foram baseados. Sugerem que a solução é uma discussão séria, onde a gestão, o MPT e os sindicatos pudessem sentar e rever os contratos e adequar as funções a que cada um estaria apto a realizar. “Mas não pode ser como agora, uma imposição”, criticam.
Mudanças na FM Cultura foram impostas 
Os servidores contestaram também o que disse Orestes sobre a realocação de funcionários e, depois, dos apresentadores. “Não foi como ele disse, que mexeu por último com os apresentadores, foi ao contrário. Pouquíssimos outros servidores foram deslocados. Temos aqui editores que estão na chefia de reportagem e foi uma escolha da direção, e não mudou”.
Os funcionários falam ainda que algumas pessoas foram trocadas de função para serem colocadas na “geladeira”.
“Havia cinco repórteres na rádio e dois foram recentemente transferidos para TV. Um deles está há duas semanas encostado, praticamente sem função. Ë papo furado essa história que valorizaram o jornalismo. Como a rádio passou a fazer isso se retiraram repórteres?”; questionam.
Sobre as mudanças na grade da rádio, não teria ocorrido um diálogo aberto, como foi colocado por Orestes. O que houve é que os funcionários teriam conseguido “salvar” alguns programas, O caso mais marcante é o ‘Conversa de Botequim’, cujo o apresentador Luiz Henrique Fontoura foi retirado da função porque estaria em desvio de função. Os funcionários dizem que convenceram a direção a manter o programa com outro apresentador, o Demétrio Xavier.
Já o Estação Cultura acabou. “Não concordamos com a grade proposta, e nem a troca dos apresentadores da Casa por terceirizados (três foram contratados). Mudaram o horário dos Clássicos, inventaram novos programas, não é à toa que sofrem críticas dos ouvintes” coloca um radialista, que completa: “E é ridículo ele dizer que foi traído pelos servidores pelas críticas na internet. Foi criado um evento no Facebook, “Salve a programação da FM Cultura”. Nasceu espontaneamente de ouvintes. Pode ver que 95% dos comentários na página da própria rádio sobre a nova programação são negativos. Isso não foi criado pelos servidores e sim por ouvintes”.
“Presidente desrespeita ouvintes”
Os servidores ainda questionam o fato de o presidente Orestes achar a rádio elitista e pouco plural. “Como ele sabe que é elitista. Sem estudo. Não assinamos o Ibope, não há pesquisa. Se existe um público, estão sendo patrolados, para criar o novo, pisoteia nos ouvintes fiéis. Temos que atingir novas pessoas, todas as classes sociais, jovens, mas sem destruir o que temos hoje”, ponderam os trabalhadores das emissoras públicas.
Direção censura cobertura jornalística
Um dos pontos mais criticados pelos concursados é a posição de que a atual gestão permite ampla cobertura dos acontecimentos, inclusive de assuntos contrários ao governo estadual.
Foram relatados ao menos três assuntos em que houve cobertura pouco plural.
No dia do anúncio das vendas das estatais, uma equipe deu a notícia e falou com o secretário de Minas e Energia. E ainda foram ouvidos alguns funcionários contrários à venda. A matéria foi ao ar no jornal da TVE. Mas, ainda naquela noite, ocorreu uma entrevista ao vivo do secretário, ele falou durante 15 minutos, sem nenhum contraponto.
Já, no caso da desocupação dos Lanceiros, havia uma equipe na Assembleia Legislativa, que não foi autorizada a cobrir a desocupação.
“A coordenação não permitiu, eles estavam perto do local. E, dois dias depois, os repórteres pediram para cobrir os desdobramentos do caso, mas foi autorizada apenas uma matéria básica. Sem nenhum debate sobre o ocorrido. Qual a linha da TVE, matéria, entrevista sobre o fato e debate, era o assunto da semana, e não houve nada disso”, lamenta uma servidora.
Outro caso de censura, de acordo com a jornalista, foi quando a TVE teve que se retratar sobre uma nota em que comentava justamente uma denúncia no TCE, que investiga o possível desvio de função de Ccs. “Foi noticiado uma nota feita às pressas, mal escrita. O resultado é que no dia seguinte o TCE pediu e ganhou uma retratação no ar, ficou péssimo pra Fundação”, conta.
Ao contrário do que dizia a primeira nota lida no ar, o TCE não indeferiu o pedido de instauração de inquérito. O órgão juntou o caso a um outro já aberto e, por isso, não houve nova investigação, mas continuação de uma já existente.
“É um absurdo a história de que agora não há nenhuma censura. Na época do PT, demos ampla cobertura da CPI do jogo do bicho. No governo Ieda o caso do Detran, agora isso”, desabafa outro servidor.

Prédio da Fundação no morro Santa Teresa/ Divulgação

Funcionários entram na Justiça por direitos e não dinheiro
Outro fator questionado da entrevista do presidente da Fundação Piratini, Orestes Jr, trata das ações trabalhistas. “De onde ele tirou que são quase 500 ações. Temos que explicar também que tipos de ações são essas. Muitas ações cobram, por exemplo, 15 minutos que a gente tinha direto de intervalo, e que chegou a ser retirado por gestões anteriores. Há concursados que entraram para a mesma função em concursos distintos e têm cargas horárias diferentes, aquelas que trabalham mais horas entraram na justiça. São questões de erros das gestões que os funcionários buscam seus direitos, ninguém quer fazer poupança”, justificam.
“Querem enfraquecer os servidores. Acabar com a Fundação é, sim. enfraquecer a TV e a Rádio. São patrimônios dos gaúchos. Rádio e TVs comerciais têm muitas, mas educativas e de caráter publico, nós fazemos, com orgulho. Só queremos que nos deixem continuar a fazer isso”, finaliza uma jornalista.

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