Carla Ruas
Funcionários da TVE e da FM Cultura, da Fundação Cultural Piratini, não trabalharam nesta quarta-feira, em protesto. Os grevistas alegam três anos sem aumento salarial e corrosão das condições materiais e pessoais de trabalho. O presidente do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, José Carlos Torves, afirma que a paralisação teve uma grande adesão dos funcionários. “É muito difícil de fazer os jornalistas pararem, então isso já foi uma vitória. O objetivo de fazer pressão no governo foi conquistado”, afirma.
O presidente da Fundação Cultural Piratini, Rogério Caldana, discorda de algumas reclamações do movimento, mas concorda que a Fundação deveria receber mais recursos. “Como somos um órgão estatal, recebemos a verba que é dividida entre os segmentos do governo. Mas por se tratar de veículos de comunicação, deveria ser diferenciado. O dinheiro é insuficiente”, reconhece.
Caldana concorda que o sucateamento relatado pelos funcionários é verdadeiro. “Faltam peças para reposição, e por isso 50% dos equipamentos não estão funcionando”. Ele acredita que isto é o resultado da falta de planejamento de governos anteriores, que não destinaram verbas para a manutenção. “Até dezembro o governo atual irá liberar o dinheiro para a compra de equipamentos”, garante. O valor estimado é de 600 mil reais.
Com relação ao salário dos funcionários, ele discorda do que está sendo veiculado: “Só falta a reposição do ano de 2004 e 2005, mas a proposta do governo não foi aceita pelo sindicato”, explica. A direção da TVE pretende resolver o impasse nos próximos dias.
Para retomar as negociações, uma comissão de deputados estaduais está sendo formada, com o intuito de reunir os grevistas com o governador do Estado, Germano Rigotto. Entre os deputados citados para compor o grupo estão Vieira da Cunha (PDT), Edson Portilho (PT), e Raul Pont (PT), além do vereador Professor Garcia (PPS). Vieira da Cunha lembra que faz parte da função dos deputados ajudar em negociações como esta: “A Fundação Cultural Piratini é do Estado, e por isso, temos um papel importante para tentar resolver o problema”.
Segundo Portilho, tanto a TVE como a rádio FM Cultura fazem parte, juntamente com outros órgãos, da política de desrespeito com que o governo do Estado trata a coisa pública. “Nos assusta a forma injusta como esse governo trata os veículos de comunicação, privilegiando grandemente alguns enquanto há um absoluto desrespeito com outros, como é o caso do tratamento dado a TVE, que tem uma tarefa fundamental para o Rio Grande do Sul que é a de divulgar a cultura regional e investir em programação qualificada do ponto de vista de conteúdo”, lembra ele, citando os diversos programas educativos transmitidos pela emissora e a qualidade dos mesmos. Para Portilho, é dentro da programação da TVE, mais do que em qualquer outra, que o Estado pode se ver. Além disso, a emissora representa a memória da história do povo gaúcho, segundo ele, um patrimônio incalculável.
O vereador Garcia também está empenhado para achar uma solução. Ele afirma que hoje foi realizado um primeiro contato com o chefe adjunto da Casa Civil, Pedro Bisch Neto, para marcar um encontro com o governador, o mais breve possível. “Com esta comissão queremos abrir um canal de comunicação entre a categoria e o Estado, que atualmente não existe”, completa.
A falta dos trabalhadores nesta quarta-feira resultou em falhas na programação das emissoras. Na TVE, as equipes de reportagem não saíram para fazer matérias. Por isso, os telejornais que vão ao ar diariamente ao 12h e às 21h40, não foram produzidos. Durante o dia, o canal exibiu apenas programas já gravados, e oriundos da conexão com a TV Cultura, de São Paulo.
Na rádio FM Cultura, os noticiários não foram ao ar e a coordenação da rádio ficou prejudicada por funcionários que não foram trabalhar. “Não tivemos a parte do jornalismo, então decidimos seguir apenas com a programação musical”, afirma o diretor da radio, Rodolfo Rospide. Ele expõe que a emissora enfrenta problemas pela falta de manutenção de aparelhos, mas que a situação não é tão grave quanto à da televisão.
A greve seguiu até a meia-noite de quarta-feira (23) e para Torves, o objetivo foi conquistado. “É muito difícil de fazer os jornalistas pararem, por isso a pressão realizada foi uma vitória”. A parada iniciou às 6h da manhã, quando os grevistas, junto com os sindicatos dos jornalistas e dos radialistas, fecharam as portas da TVE. A mobilização dos funcionários foi realizada através de um carro de som.
O sucateamento do material público é denunciado pelos funcionários. Segundo o Sindicato, câmeras, ilhas de edição e fitas para gravação estão estragadas. Além disso, os carros estão sem manutenção, fazendo com que diminua a produção de programas com imagens externas. Além disso, o sinal da emissora já não chega no interior do Estado como antes, devido a problemas técnicos.
Caldana afirma que a solução é adaptar a programação às condições oferecidas às emissoras de tevê a rádio. “Atingimos 30% de cobertura no Rio Grande do Sul. Eventualmente teremos que reduzir este percentual de acordo com a nossa realidade”. Ele conta que o ideal seria repor todo o parque tecnológico das emissoras, o que acarretaria em um investimento de aproximadamente R$ 4 milhões. E conclui: “A TVE tinha que estar usufruindo tecnologia, como as outras emissoras de televisão que existem.”

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