A voz baixa, quase sem ênfases, não impediu que o médico José Camargo encantasse a platéia que compareceu ao Menu, o almoço quinzenal da Associação Comercial de Porto Alegre.
Desbravador da era dos transplantes (fez o primeiro transplante de pulmão do Brasil em 1989), Camargo tornou-se um “especialista em gente” e hoje diz que o afeto é tão ou mais importante que a técnica na relação do médico com seu paciente.
Mas a atitude generosa de afeto com o outro só é possível quando apessoa não “está azeda”.
“A pessoa azeda é aquela frustrada por ser obrigada a fazer algo que não gosta. A falta de prazer gera ressentimento. Ela cumpre sua tarefa burocráticamente. O infeliz é o maior cumpridor da burocracia”.
Segundo ele, quase sempre por trás de uma pessoa azeda há uma má escolha profissional. E esse é um problema sério, uma vez que “fazemos essas escolhas quando não sabemos nada”.
No seu caso, ele diz que foi loteria. De uma familia de estancieiros de Vacaria, não havia um médico entre os parentes, mas ele por volta dos dez anos decidiu que seria o “dr. Cássio”, o médico da familia.
Durante hora e meia o dr. Camargo desfilou histórias de personagens que passaram pelo seu cotidiano e, principalmente, seu consultório e que lhe ensinaram tanto quanto os professores que o formaram cirurgião.
Ele não tem dúvida: o profissional de ciências humanas tem que gostar de gente. “Se não gosta, saia da área de humanas, pois não tem como aprender a gostar de gente.”
É muito comum, conforme ele, o médico chegar ao lado da cama e não saber o nome do paciente e este não lembra o nome do profissional. Lembrou a lição que um menino deu num médico. O menino ia fazer uma ecografia abdominal. O médico entrou na sala e começou a manusear o equipamento na sua barriga sem falar nada, quando o menino disse: Oi, meu nome é Artur”.
“A gratidão se dilui no tempo, mas a desconsideração é lembrada por toda a vida. Ignorar o sofrimento é uma grande humilhação.”
No final da palestra, Camargo contou um episódio que ele assistiu em vídeo:
Um repórter jovem perguntou ao músico canadense já falecido Leonard Cohen como ele tinha composto seu maior sucesso Hallelujah.
Ele respondeu:”Só lembro que eu estava muito feliz”. Camargo entende que só neste estágio podemos fazer coisas boas. “Temos obrigação de descobrir a alegria de fazer do nosso jeito. Só assim iremos construir nossas catedrais.”
"Temos que descobrir a alegria de fazer do nosso jeito”
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