Um conflito que vem de longe

Matheus Chaparini
Esse conflito não é de hoje, vem de longe. Fica evidente, desde o século XIX a relação difícil entre os vizinhos que querem dormir e os que fazem carnaval, ou ficam pelas tabernas bebendo e tocando violão. A intervenção do Estado, tentando fazer com que a festa acabe cedo, também não é novidade. A explicação é do historiador Marcus Vinicius de Freitas Rosa.
Marcus é doutor em História pela Universidade de Campinas, estuda a história do racismo em Porto Alegre e também a trajetória do carnaval porto alegrense. Para ele, a história do bairro é pouco conhecida mesmo por seus moradores. Além disso, há maneiras contraditórias de se caracterizar este espaço, mas uma coisa lhe parece certa: “esse papo de que há 30 anos não havia boemia na Cidade Baixa não convence.”
Alagadiça e ocupada por pobres

Antes da canalização do Arroio Dilúvio, Riachinho passava nos fundos das casas da Rua da Margem, atual João Alfredo / Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo / Jacob Prudencio Herrmann (Atribuido)

O bairro Cidade Baixa foi delimitado em 1959, pela lei 2022, que criou diversos bairros da capital. No século XIX, o termo Cidade Baixa tinha uma concepção mais ampla, abarcava vários territórios considerados fora da cidade, da Duque para baixo, incluindo a região da Ilhota – reconhecida por seus filhos ilustres, como Lupicínio Rodrigues e Tesourinha, Areal da Baronesa, o território conhecido como Emboscadas até o Arraial do Menino Deus. A Lima e Silva se chamava Rua da Olaria, a José do Patrocínio era a Concórdia e a João Alfredo, Rua da Margem, pois suas casas davam de fundos para o Riachinho.
Tratava-se de uma região entrecortada por riachos e pequenos córregos, o que a tornava alagadiça e insalubre. Isso antes da canalização do Arroio Dilúvio, nas décadas de 1930 e 40, e da construção da avenida Ipiranga, época de grande expansão da cidade. Naquele tempo, antes dos aterros, o Guaíba tinha suas águas chegando até o Pão dos Pobres, na rua da República, então rua do Imperador.
Desde esta época, conviviam naquela região grupos sociais muito distintos, como senhores de escravos e negros cativos e, após a abolição, negros libertos e imigrantes europeus. Na maioria, gente pobre.
“Ali não era uma região residencial de classe média como é hoje”, afirma o historiador Pablo Silva. Pablo estuda a criação de vilas populares em Porto Alegre, a partir da década de 1940. Seu objeto de estudo é a Restinga, que considera “fruto da remoção de um quilombo urbano.” A criação deste que hoje é um dos maiores bairros de Porto Alegre remonta à expulsão das famílias que ocupavam a Ilhota.
Uma cena Veneziana, na Rua da Margem, as pequenas embarcações / Acervo do Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo / Lunara *

O historiador atribui a essência da Cidade Baixa como bairro boêmio à ocupação do espaço público pelas comunidades negras, principalmente a Ilhota, e a elementos culturais negros como a capoeira, o candomblé e o samba, que constituíam espaços de socialização. “Os negros sempre tiveram um cacoete maior de ocupação de espaço públicos para suas atividades culturais, diferente de uma ideia mais recatada da burguesia, de salões fechados.”
Além disso, Pablo cita que a região era local de afluência boêmia também em função de ser zona de meretrício. Ainda hoje, há pelo menos cinco prostíbulos no bairro, uma das regiões com maior concentração deste tipo de estabelecimento em Porto Alegre.
Entre as décadas de 1940 e 1970, momento de expansão da cidade, ocorreu a remoção forçada dos casebres da Ilhota. Para Pablo Silva, há um elemento racial por trás deste projeto. “Parece que havia um incômodo em a cultura negra estar tão próxima ao Centro e ao Menino Deus. Era uma disparidade social grande.”
Para Pablo, o movimento que acontece hoje na Cidade Baixa é, conscientemente ou não, uma retomada do espaço público pela população de baixa renda.
“O Pessoal da periferia não tem acesso a bens culturais como a classe média e os ricos e está sempre sendo cerceado. O carnaval foi para o Porto Seco, os bares do Centro estão sempre sendo fechados”, afirma Pablo.
O direito de fazer festa na rua
Marcus Vinicius cita a presença de diversos clubes negros desde o final do século XIX, como o Floresta Aurora, o Satélite e o Prontidão, além dos blocos de carnaval. “Estes clubes lutaram pela abolição, quando conquistaram, passaram a lutar por outros direitos. Inclusive o direito de fazer festa”, afirma o historiador.
Além de estudar a história da região, Marcus Vinicius de Freitas Rosa foi morador da Cidade Baixa durante dez anos e frequentador da boemia do bairro. Para ele, o conflito atual decorre da presença de pessoas que não frequentavam o espaço até alguns anos atrás.
Ele traça um paralelo com a grande presença de universitários no bairro e a diversificação do público universitário desde a implementação das cotas nas universidade. “São espaços que até ontem eram frequentados por universitários brancos, agora também são por universitários com origem na periferia, que trazem seus amigos. Se vê que são diferentes, bebem outras bebidas, escutam outras músicas. É uma indignação seletiva.”
 

* Na edição de maio do impresso Já Porto Alegre esta foto foi publicada sem os devidos créditos, que já foram corrigidos nesta publicação.

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