Urbanista critica planejamento para remoções de moradias

A urbanista Raquel Rolnik está em Porto Alegre para verificar os preparativos da cidade para a Copa do Mundo de 2014. Ela afirmou que ainda estamos longe de atingirmos um patamar adequado nas ações propostas, principalmente nas questões de remoção de famílias para realização de obras.
Conselheira da ONU, Rolnik prepara um relatório sobre as condições de estrutura e sobre as configurações do espaço urbano e políticas de moradia da cidade. Tal relato será apresentado ao governo federal, junto com observações a serem realizadas em todas as cidades sedes.
Pela análise, Porto Alegre parece estar num caminho mais correto do que cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.
Ela destacou a remoção da vila Tronco, que teve participação decisiva da população na escolha do novo local. Já na vila Dique, lamentou a falta de conhecimento dos moradores sobre o projeto de realocação. “Você vê que tem as casas, mas a escola sequer foi construída, o posto de saúde ainda está sendo construído, na verdade não está implementado”.
Para a urbanista o relatório mostrará como o Brasil agiu de forma errada no projeto da Copa. Houve uma inversão de prioridades. Primeiro foi proposto um megaevento, e depois se passou a discutir as obras e o impacto delas na população. Com o prazo definido não há espaço pra discussão com as comunidades, e as decisões são colocadas a força.
Encontro com autoridades e palestra na câmara municipal
Durante esta quinta-feira, A relatora da ONU encontrou-se com o governador Tarso Genro, o prefeito José Fortunati, além de visitar as vilas Dique e Tronco. Já de noite, participou de palestra na Câmara Municipal de Porto Alegre.
Na apresentação Rolnik disse que a moradia é um direito da humanidade e deve ser preservado por todos os governos, independente de eventos esportivos.
Para Raquel, somente através de um modelo de gestão democrática com o objetivo de incorporar a totalidade dos habitantes e moradores em uma condição de cidadania é que as cidades poderão avançar. De acordo com ela, na história dos megaeventos esportivos, o legado urbanístico e socioeconômico configura a exceção, não a regra. “As populações desassistidas se transformam em vítimas de um processo atropelado de remoção e as contas das cidades mergulham no vermelho”.
O maior interesse da FIFA (organizadora do evento) é estabelecer uma mega estratégia corporativa que concilie o interesse de patrocinadores com abertura das cidades e criação de espaços para atrair investimentos imobiliários internacionais. “A cidade está sendo vendida como uma mercadoria, atraindo e constituindo investimentos corporativos. Muitas garantias e direitos dos cidadãos são suspensos para que a efetivação desses interesses seja alcançada”, argumentou.
Existem ganhos pós-copa do mundo, mas o processo público de debate e de intervenção territorial sobre a cidade deve existir independente do evento esportivo. “A copa é apenas uma oportunidade a mais dentro de um caminho para implantar um plano de moradia digna e de urbanização”, finalizou.

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