P.C. de LESTER
A negociação entre a RBS e os empresários Carlos Sanchez e Lirio Parisotto começaram no ano passado.
O assunto foi levado inicialmente à Anatel, por envolver a transferência de concessões públicas.
A Rede Globo, dona da programação de TV, já havia concordado com a transação.
Os compradores desembolsarão R$ 800 milhões, segundo o Estadão.
O negócio envolve seis emissoras de televisão (em Florianópolis, Blumenau, Joinville, Centro-oeste,Chapecó e Criciuma), quatro jornais (Diário Catarinense, Hora de Santa Catarina, A Notícia e Jornal de Santa Catarina) e as rádios CBN Diário, além das emissoras da Itapema e Atlântida em Santa Catarina.
Mas as verdadeiras dimensões dessa transação ainda não podem ser medidas. Até porque ainda faltam informações,
Além dos dois bilionários citados, outros investidores integram o grupo. Entre eles está, provavelmente, José Bonifácio Oliveira Sobrinho, o Boni, que foi por quatro décadas o todo poderoso da programação da Globo.
Boni deixou a Globo e hoje é controlador da TV Vanguarda, uma afiliada da rede, e amigo intimo de Parisotto, que lhe dá carona em seus jatinhos.
A Vanguarda, com uma grade semelhante à da RBS, tem 53% da audiência da tevê aberta numa região que abrange 46 municípios do vale do Paraiba, com sedes em São José dos Campos e Taubaté, e filiais em Bragantina e Guaratinguetá. Região rica, com ilhas de alta tecnologia.
Não conseguimos confirmar a informação, mas é provável que Boni seja o elo de ligação entre Sanchez e Parisotto, para comprar a RBS catarinense. Se for, está configurado um quadro instigante.
O currículo dos dois empresários mostra que eles agem rápido e não se acomodam.
Se forem bem sucedidos e quiserem crescer, o espaço natural será o Rio Grande do Sul, onde a RBS vive uma situação desconfortável por conta da crise que atinge todo o mercado da comunicação, mas também por questões de governança.
Há também o complicador da Operação Zelotes, que flagrou uma operação suspeita envolvendo uma dívida da RBS com o fisco.
A empresa pagou R$ 15 milhões para ter ganho de uma ação no CARF envolvendo R$ 150 milhões de uma dívida total de R$ 672 milhões.
O desfecho da Zelotes é imprevisível por enquanto, mas pode ser de grande impacto.
Some-se a isso as divergências crescentes nas renovações dos contratos entre a Globo e a RBS e estará criado o ambiente para que, a médio prazo, a venda da operação gaúcha para o mesmo grupo se torne uma boa saída.
Duas trajetórias paralelas, até o topo
Carlos Eduardo Sanches e Lívio Parisotto são dois self made men brasileiros: Sanchez é filho de um dono de farmácia de Santo André e Lírio Parisotto vem de uma família de colonos de Nova Bassano.
Tem em comum o arrojo nos negócios e a gana de ganhar dinheiro.
Em menos de três décadas, em trajetórias quase paralelas, entraram na seleta lista dos homens mais ricos do Brasil.
Sanchez começou no balcão da farmácia do pai, em Santo André, no ABC paulista. Estudou economia e, quando assumiu o negócio da família, aos 26 anos, já pensava em ser o primeiro.
Hoje comanda um grupo que tem 7 mil empregados e fatura R$ 6 bilhões por ano, tem o maior laboratório farmacêutico do país. .
Parisotto foi seminarista e estudou medicina em Caxias do Sul. Mas foi como comerciante que começou a ganhar dinheiro, em 1980.
Tornou-se sócio e depois dono de uma pequena videolocadora, onde também vendia videocassetes e fitas, que passou a fabricar logo depois.
Com esse negócio amealhou o primeiro milhão, que seu talento para investir em ações multiplicou rapidamente.
Em 2002, no momento em que Sanches está dando seu passo decisivo na produção de genéricos, Parisotto está fechando seu foco na petroquímica.
Hoje, o ex-colono que ainda fala com sotaque, controla quatro plantas que produzem resinas plásticas, três em Manaus e uma no Rio Grande do Sul, a Innova, que comprou da Petrobrás por R$ 600 milhões em 2014.
Sua fortuna é estimada em 2,4 bilhão de dólares (quase R$ 9 bilhões) a maior parte em ações.
Sanchez: “Eu Mando Sózinho”
O nome da empresa EMS vem de Emiliano Sanchez, o catarinense que em 1950 abriu, em Santo André, a Farmácia Santa Catarina.
Carlos Eduardo Sanchez começou ali, ajudando o pai no balcão.
Tinha 26 anos em 1988, quando Emiliano morreu e ele teve que assumir o negócio, que já ampliara para uma pequena fábrica de medicamentos.
A empresa estava mal das pernas e o herdeiro agiu sem piedade: vendeu todos os bens da família para quitar as dívidas do laboratório. Nem a histórica lojinha, onde a empresa começou, escapou. Mas a empresa foi recuperada e voltou a crescer.
No ano 2000, com o programa do governo federal para estimular a produção de remédios genéricos no país, os negócios da EMS definitivamente decolaram.
Foi o primeiro laboratório nacional a produzir genéricos. Dois anos após o governo autorizar a produção no País, a empresa já fabricava 95 medicamentos genéricos.
E não parou mais de crescer num ritmo que a faz dobrar de tamanho a cada três anos. A velocidade reflete o estilo agressivo de Carlos Sanchez, que muitas vezes choca seus concorrentes.
Sua política de preços e suas práticas na produção de medicamentos sem patentes é fortemente questionada, inclusive com muitas ações na Justiça.
A desenvoltura com que Carlos Sanchez se move nos círculos do poder é outro ponto de controvérsias.
Sua familiaridade no Ministério da Saúde levantou desconfianças na imprensa, em 2002, no início da introdução dos genéricos.
Surgiram denúncias de que o empresário usava seu relacionamento com Jorge Negri, irmão do então ministro da Saúde, Barjas Negri, para ter acesso a decisões reservadas.
Nos últimos quatro anos investiu R$ 6 milhões para construir três novas fábricas e amplicar seu centro industrial em Hortolândia (SP).
Em 2013, quando cresceu 26% inaugurou um laboratório para desenvolver inovações nos Estados Unidos. Em 2014, inaugurou a primeira fábrica de medicamentos na Zona Franca de Manaus, a Novamed, que vai produzir 1,5 bilhão de comprimidos por ano. Com as iniciais de Carlos e sua irmã Nanci, foi criada a holding NC controladora das empresas do grupo.
Hoje além da matriz em São Bernardo do Campo, a NC tem fábricas em Hortolândia, Jaguariuna, Brasilia e Manaus. Tem sete mil empregados e fatura R$ 6 bilhões por ano.
Uma piada que diz muito do estilo de Carlos Sanchez é contada por seus funcionários. Eles dizem que EMS quer dizer: “Eu Mando Sozinho”.

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