10 anos sem Abbas Kiarostami: o legado do mestre iraniano

Abbas Kiarostami | Foto de Hamed Malekpour para a Agência de Notícias Tasnim

Por Cristiano Goldschmidt

Há uma duração — nem sempre exata, mas frequentemente próxima — em que a memória transita do luto agudo para a sedimentação histórica. Dez anos é esse tempo em que a ausência de um artista deixa de ser uma ferida aberta para se tornar uma lacuna estrutural na forma como compreendemos o mundo. Em 4 de julho de 2016, quando Abbas Kiarostami partiu em Paris, o cinema perdeu não apenas um de seus maiores diretores, mas o seu mais gentil filósofo da imagem. O mundo que ele deixou para trás, em 2016, ainda tateava as incertezas de uma era de pós-verdade e fragmentação digital, mas o mundo de 2026, onde nos encontramos agora, parece ter mergulhado definitivamente em uma saturação visual que torna o seu cinema mais do que um legado: torna-o um antídoto. O silêncio que Kiarostami deixou não foi um vácuo de produção — sua influência ecoa em cada cineasta que ousa demorar o olhar —, mas a ausência de uma perspectiva: aquela capacidade quase mística de encontrar o universal no particular, o eterno no efêmero e a verdade na mais descarada das encenações.

A filosofia do olhar: O automóvel como confessionário

Para Kiarostami, a câmera nunca foi um instrumento de captura passiva, mas uma ferramenta de interrogação constante que desafiava o espectador a completar a obra com sua própria subjetividade. Talvez em nenhum outro lugar essa filosofia tenha sido tão pungente quanto no interior dos automóveis que serviram de cenário para obras-primas como Gosto de Cereja (1997) e Dez (2002). O carro, sob sua direção, transmutou-se: de meio de transporte em estúdio móvel, de estúdio móvel em confessionário laico. A intimidade era forjada pela proximidade física e pela paisagem que passava — imutável, indiferente — do lado de fora da janela. Ao confinar seus personagens a esse espaço restrito, Kiarostami eliminava as distrações do mundo para focar na essência do diálogo e na microexpressão da alma humana.

Em Gosto de Cereja, a busca de um homem por alguém que o enterre após o suicídio não é um exercício de niilismo, mas uma celebração da vida mediada pelo olhar do outro, revelando que a redenção habita o sabor de uma fruta, o pôr do sol através de um para-brisa empoeirado. Nesse filme, a morte não é o tema; é apenas o pretexto para uma conversa sobre a razão de viver. Cada encontro dentro do carro é uma pequena epifania, um instante em que a vida se justifica por sua própria persistência.

A fronteira borrada: A verdade da mentira

A genialidade de Kiarostami residia na sua recusa em aceitar a dicotomia entre documentário e ficção, uma fronteira que ele não apenas cruzou, mas que dissolveu com a precisão de um alquimista. Em Close-Up (1990), ao reconstruir o caso real de um homem que se passou pelo cineasta Mohsen Makhmalbaf, ele criou uma obra que questiona a própria natureza da identidade e do desejo de ser reconhecido. Da mesma forma, a chamada Trilogia de Koker — composta por Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), E a Vida Continua (1992) e Através das Oliveiras (1994) — representa um dos exercícios metalinguísticos mais sofisticados da história da arte.

Ao retornar ao local de um terremoto devastador para procurar os atores de seu filme anterior, Kiarostami transformou o “fazer cinema” no tema central da narrativa, revelando que a arte não é um espelho da realidade, mas uma construção que, paradoxalmente, é a única forma de alcançarmos uma verdade emocional profunda. Ele nos ensinou que a encenação é, frequentemente, o caminho mais direto para a honestidade — uma lição que desmente séculos de desconfiança entre arte e verdade.

O legado digital e a imagem fixa

Nos seus últimos anos, Kiarostami abraçou a tecnologia digital não como uma facilidade técnica, mas como uma nova fronteira para a experimentação poética. Sua transição para a fotografia e para obras experimentais culminou em 24 Frames (2017), seu testamento visual póstumo, onde ele deu vida a imagens estáticas, fossem elas fotografias autorais ou pinturas clássicas. Nesse projeto, cada quadro é uma meditação sobre o tempo e o movimento, um convite para que o espectador recupere a capacidade de observar o detalhe mínimo: o balanço de uma folha, o voo de um pássaro ou a queda da neve.

Essa fase final de sua carreira revelou um artista que, embora mestre do diálogo, estava cada vez mais interessado no que as imagens dizem quando as palavras calam. O digital, para ele, era uma forma de libertar o cinema das amarras industriais e devolvê-lo à sua essência de observação pura, quase pictórica, onde a tecnologia servia apenas para ampliar a sensibilidade humana. Em 24 Frames, o tempo não passa — ele respira.

Kiarostami em 2026: A fragilidade da memória

Chegamos a julho de 2026 e a relevância de Abbas Kiarostami é celebrada por cineastas e estudiosos em todo o mundo, um reconhecimento que demonstra como sua estética continua a fecundar a imaginação de jovens realizadores de todas as nacionalidades. No entanto, essa celebração convive com a melancolia da perda material. A deterioração de espaços que abrigaram sua obra — como sua antiga residência em Teerã — serve como metáfora dolorosa para a fragilidade do legado físico diante do tempo e da negligência política. A deterioração de sua casa nos lembra que, embora as ideias sejam perenes, os espaços que as abrigaram são vulneráveis.

Preservar Kiarostami em 2026 exige mais do que revisitar seus filmes: exige uma resistência ativa contra o esquecimento e contra a simplificação de sua obra, que muitas vezes é reduzida a um exotismo geográfico, ignorando sua universalidade radical e seu compromisso inabalável com a dignidade do indivíduo. Sua importância não reside em ser um “cineasta iraniano”, mas em ser um cineasta que, através da experiência iraniana, tocou o coração universal.

A necessidade do olhar humano

Ao completarmos uma década sem a sua presença física, percebemos que o cinema de Abbas Kiarostami é mais necessário hoje do que em qualquer outro momento da história. Em uma era dominada por algoritmos que antecipam nossos desejos e por uma estética de choque que anestesia a sensibilidade, a simplicidade de Kiarostami surge como um ato de rebeldia. Seus filmes não nos dão respostas prontas; eles nos devolvem as perguntas fundamentais.

Ele nos ensinou a olhar para a estrada, para a árvore na colina e para o rosto do estranho com uma curiosidade desarmada e um respeito profundo. A complexidade da alma humana, para ele, não estava nos grandes dramas épicos, mas nos pequenos gestos de persistência e na beleza resiliente da vida que insiste em continuar, mesmo após os terremotos e as perdas. Dez anos depois, sua obra permanece como lembrete: o cinema não existe para explicar o mundo, apenas para nos deixar a sós com o mistério das coisas.