EUA convoca Europa a recolonizar o Sul Global

HENRIQUE CASANOVA

O Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, fez discurso sábado passado no qual convoca a Europa para o reestabelecimento do que ele chama de civilização ocidental.

Numa fala naturalmente carregada de propaganda ideológica imperialista, ele diz que a decadência do mundo ocidental é acelerada “por revoluções comunistas ateias e levantes anticoloniais”.

Ou seja, Marco Rubio trata as lutas de resistência dos povos colonizados como algo negativo, problemático e que deve ser sufocado.

Lembremos que Marco Rubio tem obsessão pela destruição da experiencia socialista em Cuba. Essa foi sempre sua principal pauta, mesmo sendo ele filho de imigrantes cubanos. Ao falar de si mesmo, porém, no sábado último do discurso, fez questão de apresentar-se como Americano descendente de Europeus.

Rubio fala diretamente aos líderes europeus dizendo que os EUA não querem “aliados fracos, (…) acorrentados pela culpa e pela vergonha”. Ele diz ainda que os aliados dos EUA devem se orgulhar da sua cultura e do seu patrimônio, da sua grande e nobre civilização e devem ser capazes de defendê-la.

O discurso visa justificar as intervenções dos EUA e seus aliados em outros países. Rubio chega ao extremo de dizer que a noção de uma sociedade global onde “todos são cidadãos do mundo” foi uma “ideia tola”.

O que as corporações de mídia estão reportando apenas como um discurso de reconciliação entre EUA e Europa pós crise da Groelândia, é na verdade um convite dos EUA para que Europa continue pleno apoio nos fronts de conflito do Imperialismo norte-americano e que esteja disposta a escaladas nos conflitos.

Na America Latina, os EUA tentam reestabelecer influencia inconteste através da troca de regime em países como Venezuela e Cuba.

No Oriente Médio, com vitória recente na Síria e o processo colonial sionista já se expandido de Gaza para a Cisjordânia e o Líbano, os EUA precisam apenas derrubar o Irã para ter ampla hegemonia na região.

Na Eurásia, a tentativa de desestabilizar a Rússia via Guerra da Ucrânia fracassou mas é com a China que os EUA se preocupam mais, já que os chineses são o “case” de sucesso do Sul Global: único país que foi de muito pobre a grande potência.

A China tem um modelo de Socialismo de Mercado que prospera na paz, focando sua indústria em infraestrutura e inovação ao mesmo tempo em que se beneficia de ser ainda o parque industrial do mundo capitalista. Liderando em setores como carros elétricos e energias renováveis em geral, a China esbanja competitividade já que não precisa reservar a maior fatia dos lucros para sua burguesia, como ocorreria no Capitalismo.

Estamos então perante anuncio dos EUA de que eles vão tentar reestabelecer o mundo unipolar Ocidental com o uso de força: “Estamos preparados para fazer isso sozinhos”, afirma Rubio, “mas preferimos fazer em parceria com os amigos da Europa”.

Rubio diz que será uma tarefa de “restauração”. Restauração do que? Cara Pálida!

*Henrique Casanova é porto-alegrense, jornalista e geógrafo.