ELMAR BONES/ O que precisa mudar

Repete-se à exaustão a famosa frase de Tancredi, o personagem de Lampedusa:

“Para que tudo fique como está, alguma coisa tem que mudar”.

No Brasil de 2021, parece que tudo muda e nada sai do lugar.

Cai o ministro da Defesa.

Caem três comandantes militares,

O congresso protesta, os prefeitos se rebelam. os governadores fazem frente, a população bate panelas.

Mas na presidência continua  Jair Bolsonaro,  negando o distanciamento social e o uso de máscara…negando a pandemia, que matou quase 4 mil pessoas nesta quarta-feira, 31 de março de 2021,

O que precisa acontecer para que alguma coisa mude no Brasil ?

ELMAR BONES/ A pergunta que Eduardo Leite ainda não pode responder

Alguns estudiosos do assunto apontam a reforma tributária do governo Castelo Branco, em 1967,  como a gênese do  “processo de causação circular”,  que hoje asfixia não só o setor público mas já faz metástases por toda a economia do Rio Grande do Sul.

Outros  vão até mais longe na busca das raízes históricas da crise e chegam a 1930, quando se inicia um grande ciclo centralista autoritário, sob o comando de Vargas. Reserve-se esses ingredientes remotos.

Tome-se a reforma tributária de 1967.

Base de um plano de crescimento que o regime militar engendrou para dizer a que veio, a reforma drenou recursos dos “entes federados” para a União.

Para compensar o governo Federal deu cobertura aos estados na emissão de títulos, as Obrigações Reajustáveis do Tesouro Estadual , para captar dinheiro no mercado financeiro. Foi uma farra.

Aí se originou a dívida que daria partida ao “processo de causação circular da desgraça do Rio Grande”, como dizia o secretário Hipólito Campos .

Some-se o efeito financeiro da sequência de governadores nomeados e do projeto nacional desenvolvimentista a que todos aderiram.

Acumulavam-se os apaniguados de cada um, já que todos eram do mesmo partido. Havia estatal até para fabricar cebola em pó.

Dez anos depois, quando o milagre brasileiro começou a fazer água e o tesouro gaúcho estava abarrotado de papéis sem liquidez, o secretário Babot Miranda fez o seu alerta.

Passaram-se 44 anos. Onze governadores sucumbiram ao desafio de equilibrar o orçamento. Houve resultados pontuais, mas a tendência não foi contida, ao contrário.

Eduardo Leite conseguirá?

Esta é uma pergunta que o governador, talvez, precise de mais quatro anos para responder.

 

ELEIÇÕES 2022: O fator Mourão

A avalanche instanteneísta tirou da pauta os movimentos que o vice-presidente, general Hamilton Mourão, fez no tabuleiro do poder nacional nos últimos dias.

O significado e o alcance deles, no entanto, não se esgotou.

As declarações de Mourão na sexta-feira, 13, em várias entrevistas indicam que o general tem um objetivo político e uma estratégia para alcançá-lo, embora diga sempre que não é candidato a nada.

Especula-se nos meios políticos que ele almeja o Senado.

No Rio Grande do Sul, há um movimento para lançá-lo  governador.

Os movimentos do general, um PQD em treinamento intensivo no  terreno da política, indicam algo maior.

As reações de Bolsonaro aos movimentos do vice dão sinal de que o presidente teme uma conspiração que leve a um impeachment e coloque Mourão no seu lugar.

O impeachment é plausível, se a popularidade do presidente continuar em queda, e deve estar considerado na estratégia de Mourão, mas como evento pouco provável e não desejável.

Mourão  deve estar preparado para ele, mas não se empenhar para que ocorra.

O empenho principal tem que ser no sentido de ser a alternativa como candidato governista em 2020.

“Um mau soldado, é sempre um mau soldado”, diz o jargão militar.

Os generais que chegaram ao poder com Bolsonaro, um notório mau soldado,  tem pela frente o desafio de descartá-lo sem perder o terreno conquistado.

Mourão trabalha para ser essa alternativa  em qualquer circunstância.

 

Bolsonaro desfila em carro aberto, Lula lança manifesto: 2022 começou

A data simbólica do 7 de setembro, o Dia da Independência, motivou duas manifestações políticas distintas na forma e no conteúdo mas idênticas no propósito.

Uma do presidente Jair Bolsonaro em ato público em Brasília, outra do ex-presidente Lula, pelas redes sociais.

Ambas remetem para as eleições de 2022, em cujo horizonte ganha contornos uma polarização entre os dois.

Jair Bolsonaro, que em julho era quase um ex-presidente, neste 7 de setembro preencheu o vazio do desfile militar, que não houve, com o seu próprio desfile, em carro aberto, cercado de crianças, saudando o público como se estivesse tomando posse.

O presidente Jair Bolsonaro participa de cerimônia comemorativa do 7 de setembro, no Palácio da Alvorada.

Talvez a mensagem seja essa: um presidente revigorado depois de um grande desgaste, que agora está no controle. Mensagem de um declarado candidato à reeleição, que as pesquisas apontam como favorito. Mas faz sentido.

Depois de Mandetta, depois de Moro, das mudanças na Polícia Federal,  do recuo do STF,  da derrocada de Witzel, do acordo com o centrão, depois de esfriar o Guedes – ele pode sim dizer que está no controle.

Até o manifesto desprezo pela saúde pública – que parece não incomodar seus seguidores – pode reverter na hora de se isentar dos efeitos econômicos da covid-19 e culpar os que “pararam a economia para enfrentar a pandemia”

Em todo caso, para um governo sem projeto, que até agora deixou correr o “experimento liberal” do ministro Guedes, o que vem pela frente pode ser fatal.

O ajuste que Guedes pretende não se coaduna com a agenda social que que a pandemia impõe, nem com a agenda eleitoral de um presidente candidato à reeleição.

Guedes diz que fora de sua cartilha o caminho é o impeachment.

Mas, a cartilha de Guedes, de arrocho no gasto público e desmonte do Estado, no meio de tamanha crise, pode ser o caminho mais curto para a derrota nas urnas em 2022.

Tudo indica que Bolsonaro vai deixar Guedes na estrada e turbinar a agenda eleitoral, mesmo à custa de ter que recauchutar programas dos governos petistas para mostrar iniciativa e assediar redutos da concorrência, como começou a fazer em relação ao Nordeste, onde Lula e o PT têm sua sustentação.

Houve um momento em que Bolsonaro balançou, logo depois da divulgação da patética reunião ministerial de 22 de abril, mas seus mais influentes adversários hesitaram.

Perguntaram se valeria a pena o enorme e desgaste esforço de uma campanha de impeachment em plena pandemia, para “botar o Mourão no lugar”. Era melhor deixar Bolsonaro e seu governo errático sangrar até o fim e derrotá-lo nas urnas.

A desenvoltura com que Bolsonaro agora se lança em campanha mostra que essa posição pode ter sido um grave erro.

(Segue: “A candidatura de Lula” )

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ELMAR BONES/ O mito e a farsa

Imagine se Jair Bolsonaro fosse o mito que alguns fanáticos acreditam que ele é.  Imagine se ele tivesse feito um pronunciamento mais ou menos assim na sexta-feira:

Não vou perder tempo aqui com as acusações levianas que o senhor Moro fez contra mim. O momento que vivemos no Brasil é muito grave para que se fique perdendo tempo com intrigas palacianas.

O Sr. Moro pertence ao passado, não é mais nada no meu governo, seu pedido de demissão foi aceito e eu até lamento porque confiei que ele seria um aliado fiel na luta que estamos travando para tirar o Brasil desse atoleiro em que nos encontramos.

Esse atoleiro no qual fomos jogados, em parte por conta da irresponsabilidade de alguns governantes, que lançaram  o país na desordem e na crise econômica e, principalmente, pela fatalidade dessa pandemia que assola o mundo inteiro e deixa toda a humanidade consternada e perplexa.

Não é hora de gastar energia com personalismos e com ambições mesquinhas. É hora de enfrentar com energia e destemor o gravíssimo desafio que temos pela frente: vencer a pandemia e salvar a economia e os empregos de que dependem todos os brasileiros dos mais humildes aos mais abastados, todos ameaçados por um inimigo invisível diante do qual a mais avançada ciência se mostra impotente.

Precisamos de atitudes prontas e destemidas e eu quero anunciar aqui uma decisão grave e extrema, sobre a qual muito meditei até chegar à conclusão de que é a única saída que temos nesta crise sem precedentes: a moratória unilateral da dívida pública brasileira.

Este ano o pais vai desembolsar cerca de um trilhão de reais para pagar juros e amortizações da sua dívida com o sistema financeiro internacional.

 Vamos suspender o pagamento dessa  dívida por três anos e vamos usar esse dinheiro no fortalecimento das nossas estruturas de saúde,  para tratar dos nossos doentes.

Vamos, principalmente,  salvar a nossa economia e impedir que milhões de brasileiros, mesmo tendo escapado da pandemia, sucumbam  à miséria e à fome.  Vamos atender aos mais necessitados e vamos financiar nossas indústrias, nosso comércio, nossas lavouras  para que elas continuem produzindo e gerando riqueza e empregos. 

Depois, quando tudo isso passar, vamos sentar com nossos credores e acertar a maneira de pagar o que devemos.

O Brasil é um dos países mais ricos do mundo e não vai ser um ou dois anos de crise que vai comprometer o seu futuro”.

Claro que um discurso desses é impossível para  Jair Messias Bolsonaro, que é  apenas um populista de direita, que amesquinha o Brasil, alinhando-se a Donald Trump em troca do amparo de um poder decadente.

Com o discurso que fez na sexta-feira – um discurso patético e sem nexo com o qual pretendeu rebater as acusações que Sérgio Moro fez contra ele ao demitir-se do Ministério da Justiça – Bolsonaro apenas selou a sua sorte de farsante.

A virada do carvão

ELMAR BONES
Não tiveram repercussão os calorosos aplausos que o governador Ivo Sartori arrancou de um seleto público que lotou o auditório Mercosul da Fiergs, esta semana. No entanto, havia ali uma manchete.
Eram 120 convidados – prefeitos, empresários, representantes de investidores e fornecedores de tecnologia da Alemanha, Estados Unidos, Japão e China – reunidos num seminário sobre as perspectivas da economia do carvão, no Rio Grande do Sul.
“Estamos aqui criando um ponto de partida para um futuro diferente”, discursou Sartori. Quando disse que a lei, que havia assinado pouco antes, é prova de que faz um “governo de parcerias”, o público aplaudiu de pé.
A lei que Sartori sancionou naquela quarta-feira, na abertura do seminário na Fiergs, cria o Pró Carvão um amplo programa de estímulos para formar dois polos carboquímicos no Rio Grande do Sul.
É uma lei que andou rápido. Saiu do Palácio Piratini com data de 15 de setembro, tramitou trinta e nove dias. Na sessão de 24 de outubro, estava aprovada, inclusive com votos da oposição.
Sartori fez questão de esperar mais de um mês para sancioná-la perante aquele público seleto, na Fiergs.
O Rio Grande do Sul tem mais de 90% das jazidas de carvão mineral do Brasil, que está entre os 15 países com as maiores reservas no mundo.
Estima-se que no subsolo da região carbonífera no sudoeste gaúcho há uma energia enterrada equivalente a três vezes e meia o potencial de petróleo no pré-sal.
Mas o carvão é um insumo marginal mesmo na economia gaúcha, praticamente banido dos projetos de desenvolvimento, acossado por um estigma ambiental secular. No Estado pioneiro do ambientalismo no país, o carvão tem sido o vilão número um.
O desafio que Sartori abraçou é o de inverter essa equação e colocar o carvão como base de um grande ciclo de desenvolvimento sustentável, através da carboquímica.
Sartori disse que o governo faz estudos desde 2015, quando lançou o Plano Estadual de Energia. É força de expressão.
A carboquímica entrou nas prioridades do governo estadual este ano, depois que a Copelmi apresentou o projeto de uma planta para extrair gás do carvão e viabilizar um conjunto de indústrias químicas, num complexo capaz de alavancar mais de quatro bilhões de dólares em investimentos.
Foi a partir daí que se materializou a viagem que o governo promoveu ao Japão e à China, onde Sartori conheceu plantas e indústrias semelhantes ao que se pretende fazer aqui.
A viagem consolidou a percepção do governador de que estava diante de uma grande oportunidade. Um polo carboquímico significa a quebra de um tabu secular que envolve a exploração da grande riqueza mineral dos gaúchos, o carvão.
A Copelmi tem 120 anos de experiência na mineração de carvão no Rio Grande do Sul. Tem concessão para explorar reservas de 200 milhões de toneladas do melhor carvão encontrado no sub-solo gaúcho, na região do baixo jacuí, a 60 quilômetros de Porto Alegre. Além de indice menor de cinzas, o carvão do Jacuí pode ser minerado a céu aberto.
Desde 2012, a empresa trabalha num projeto para o aproveitamento sustentável dessas jazidas, que as novas tecnologias tornaram viável nas últimas décadas.
Em vez de queimar o carvão para gerar energia, enfrentando restrições ambientais cada vez maiores, extrair o gás que pode tanto ser queimado, quanto transformado em matérias-primas de larga utilização, inclusive na petroquímica.
Já com alguns parceiros internacionais acertados, a Copelmi agora tenta atrair investidores e fornecedores de tecnologia.
Na lei sancionada por Sartori estão previstos dois complexos carboquímicos.
O que está previsto no projeto da Copelmi já tem cronograma e trabalha com a perspectiva de dar início às obras em dois anos.
O outro, junto a Candiota, chamado Complexo da Campanha, é uma aposta no futuro, uma miragem por enquanto.
Apoiada amplamente pelo empresariado, a política de estímulo à  carboquímica tem voto inclusive de políticos de oposição, representantes da região carbonífera, deprimida pela decadência do carvão e sem alternativa até agora.
Não por acaso, os prefeitos dos municípios onde estão as reservas eram os mais entusiasmados a bater palmas para Sartori no seminário da Fiergs.

O fator Lula

Elmar Bones
O único ponto fora da curva do golpe neste momento é a candidatura Lula à presidência em 2018.
Não por acaso a mídia corporativa e seus comentaristas amestrados fazem o que podem para desqualificar ou mesmo ignorar as caravanas do ex-presidente pelo país.
Um dos truques nestes dias é comparar a condição de Lula, “na eminência de ser condenado pelo juiz Sérgio Moro”, com a de  Michel Temer, acossado pelas denúncias do Procurador Janot.
Para sustentar esse raciocínio abstruso, omite-se o essencial.
Temer, sorrateiro, sustenta-se com manobras palacianas, gastando bilhões do erário público para comprar o apoio de deputados venais.
Lula, de peito aberto, foi para as ruas buscar guarida no povão. Mesmo que o condenem ou prendam, não conseguirão impedir que seja o fator que pode barrar a consolidação do golpe nas urnas.
São personagens e circunstâncias incomparáveis, mas não é descabido lembrar Getúlio Vargas, em 1950, no primeiro ciclo do trabalhismo. .
Derrubado por um golpe, Vargas saiu do exílio voluntário em São Borja para percorrer o país e retornar ao poder pelo voto popular.
Seu programa nacionalista, tinha também no centro da meta a causa do petróleo e a Petrobras.
Como se sabe, os inimigos, mesmo derrotados, não deram trégua, até levá-lo à tragédia de 24 de agosto de 1954. O lema era: Vargas não pode ser candidato, se for candidato não pode ser eleito, se for eleito, não pode governar…
O que quero dizer: as forças que promoveram o golpe parlamentar que derrubou Dilma (e que se sustenta a golpes de audácia) aspiram legitimá-lo pela via eleitoral. Lula, com seu cesarismo, é no momento o único obstáculo real.

Tudo dominado

Segunda à noite, obsequiado pela diligência do ministro Eliseu Padilha, Temer recebeu o mapa detalhado dos votos que vão arquivar a segunda denúncia da PGR contra ele nesta quarta-feira.
Não é improvável que tenha até mais votos do que os obtidos no arquivamento da primeira denúncia do ex-procurador geral Rodrigo Janot.
A nova procuradora, Raquel Dodge, já não disse que o chefe da organização criminosa é o Geddel Vieira?
Segundo o preclaro Merval Pereira, de O Globo, fonte de inspiração para os comentaristas amestrados Brasil afora, essa votação encerra a “Era Janot” e Temer pode até ter pretensões a ser o grande eleitor nas eleições gerais do ano que vem.
Daqui pra frente, segundo essa perspectiva da mídia, Temer vai nadar de braçada.
Tem os votos descarados do fisiologismo na Câmara. Tem o apoio astuto da mídia, que em algum momento, logo depois da gravação de Joesley Batista ameaçou abandoná-lo, mas logo viu que o risco de embananar o golpe não compensaria.
E tem o apoio do empresariado, que faz aquele discurso moralista contra a corrupção, mas não tem dúvida que seu homem neste momento é Temer.
Não será por acaso que a CNI (Confederação Nacional da Indústria) divulgou na segunda feira uma pesquisa sobre o índice de confiança do empresariado.
“Confiança do empresariado atinge 56 pontos, acima da média histórica”, é o título do release distribuído e fartamente reproduzido nas colunas e análises econômicas desta terça-feira, véspera da votação.
Da agenda que sustentou o golpe, a rigor, está faltando apenas a Reforma da Previdência, que hoje mesmo o ministro Meirelles disse que entrará em votação em novembro.
Agora é embalar a classe média com manchetes sobre os “sinais de recuperação econômica” e aí estará o próprio Meirelles como candidato do continuismo, com a bandeira de que em pouco mais de um ano “com medidas de austeridade e sem populismo” o governo Temer “colocou país nos trilhos”.
 
 

O golpe dentro do golpe

O parlamento brasileiro deu dois tapas na cara da cidadania.
No Senado, terça, foi anulado o afastamento do senador Aécio Neves, determinado pela Justiça depois da escandalosa gravação em que ele pede dinheiro ao empresário Joesley Batista.
E, na Câmara no dia seguinte, a Comissão de Constituição e Justiça decidiu arquivar a segunda denúncia contra o presidente Temer, originada pelas delações no âmbito da Operação Lava Jato. Ficou  aberto o caminho para sua vitória no plenário, na próxima semana.
São dois tapas que selam aquilo que o senador Romero Jucá definiu como “estancar a sangria” ou seja esvaziar as investigações que nos últimos dois anos expuseram ao país as vísceras podres do seu sistema político.
Nenhuma novidade,  considerando-se que há no Congresso uma “bancada ruralista” capaz de alinhar seus votos em troca de um decreto que praticamente legaliza o trabalho escravo no país que, é bom lembrar, foi a última nação do mundo civilizado a abolir a escravidão, graças exatamente ao poder dos “terratenientes”.
Nenhuma novidade também no comportamento da midia corporativa e seus comentaristas amestrados, em certos momentos tão indignados com a “corrupção que campeia solta”  e que, agora,  fazem “olho branco” para os dois tapas violentos estampados pelos corruptos na cara da cidadania.
O Globo, Folha, Estadão e todo o séquito de repetidores pelo país afora… Nenhuma indignação, nenhum chamamento  que possa  representar qualquer alento ao cidadão espezinhado. Só o registro objetivo dos fatos, num tom oficioso para dar a entender que é assim mesmo. “Quem tem aliados tem tudo”, como escreveu a colunista.
Aqueles comentários indignados, aqueles editoriais, aqueles reptos de que a Lava Jato era intocável, que o combate à corrupção é uma exigência da sociedade… foram para a lata do lixo. A Lava Jato agoniza em praça pública.
Como disse, em editorial, o Globo, de onde emana a diretriz principal que inspira o jornalismo oficioso, os parlamentares perderam oportunidade de atender aos anseios da população por justiça, mas o importante é que a Constituição foi respeitada, “manteve-se intocável o fundamento constitucional de harmonia entre os poderes”.
Esse foi o golpe dentro do golpe. Agora é tocar pra frente que ainda tem a reforma da Previdência para aprovar antes da eleição de 2018.
 
 

Crime de Imprensa

O imediatismo que domina as grandes redações já lançou no cesto das notícias velhas o suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luis Carlos Cancellier de Olivo.
A principal razão é que até mesmo os vetustos jornalões, que não cansam de proclamar seu compromisso com a verdade dos fatos, sujaram o nome neste episódio.
Uma coisa é uma delegada abusar da sua autoridade ou uma juíza inexperiente exorbitar, incorrer em erro. Outra é uma imprensa inteira engolir sem mastigar informações erradas e consagrar versões baseadas em delações duvidosas. O cartaz que uma estudante tentou colocar sobre o caixão, no velório, cobrando “Cadê os 80 milhões”, diz tudo.
A mídia tem sido bem sucedida em suas manobras para encobrir erros históricos. Vamos ver agora.
Se as reservas de cidadania e consciência democrática que o país ainda tem não forem suficientes para exigir o amplo esclarecimento desse caso, é porque estamos muito pior do que se imagina.