A nova celulose à beira do Guaíba e o risco de repetir a Borregaard

ELMAR BONES

No dia 16 de março de 1972 foi inaugurada a Indústria de Celulose Borregaard, em Guaíba, com a presença das mais altas autoridades e manchetes ufanistas em todos os jornais.

Inauguração da fábrica em Guaíba, no ano de 1972. Foto Reprodução Arquivo/CeluloseRioGrandense

Seria uma das maiores fábricas em território gaúcho, a consolidação do Rio Grande do Sul industrial, milhares de empregos, milhões em impostos, além de avanços tecnológicos, etc.

Reprodução da jornal Zero Hora.

“Um dos marcos do novo Rio Grande do Sul, que se prepara para ser a segunda potência industrial do Brasil”*, conforme o editorial do jornal Zero Hora no dia da inauguração.

Só depois, quando o cheiro de ovo podre se espalhou sobre a cidade, inclusive sobre os donos dos jornais, é que se foi dar ouvido aos alertas de José Lutzenberger e seus companheiros da recém-criada Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan).

Aí, a imprensa foi descobrir o parecer do químico Milo Rafin, da Universidade Federal, que muito antes alertava para as emissões sulfurosas e para os efluentes tóxicos que seriam lançados nas águas do Guaíba.

Na sequência, descobriu-se que o grupo norueguês, dono do empreendimento, recebera isenção de impostos e financiamento de bancos estatais**, mas não providenciara um estudo de impacto ambiental abrangente para construir a fábrica.

Em dezembro de 1973, ante o clamor popular, a Borregaard foi fechada. Uma vitória da comunidade porto-alegrense. Só foram retomados os trabalhos com novos filtros, que a fábrica foi obrigada a instalar, e os cuidados com as emissões lançadas no ar e os efluentes despejados no Guaíba. Os sistemas de tratamento de resíduos sólidos, projetados pelo próprio Lutzenberger, fazem parte dessa conquista.

Hoje a empresa se jacta de manter os mais rigorosos controles (não há dados técnicos divulgados sobre isso), mas esses níveis de precaução não foram alcançados espontaneamente. Foram conquistados pela pressão da comunidade, alarmada ante os danos evidentes.

Agora em março de 2026, 54 anos depois da inauguração da Borregaard, estamos diante de uma situação semelhante, guardadas as devidas proporções.

A fábrica da Borregaard, inaugurada em março de 1972, tinha capacidade para 190 mil toneladas/ano. A planta atual, em Guaíba, depois de passar por cinco donos, sempre em expansão, chega aos 2 milhões de toneladas de celulose por ano.

A ela vai se somar a nova fábrica que se projeta construir a poucos quilômetros, na Barra do Ribeiro, com capacidade de produzir 2,5 milhões de toneladas/ano. É saudada nas manchetes como “o maior investimento da história do Rio Grande do Sul” – de 25 bilhões de reais, milhares de empregos, milhões em impostos, a redenção econômica do Estado. 

A empresa que toca o projeto atual, CMPC, uma multinacional chilena, até ganhou um prêmio como a marca mais identificada com a defesa do meio ambiente. 

Enquanto isso, as vozes que se levantam, de pesquisadores, ambientalistas e do próprio Ministério Público, questionando a falta de transparência quanto aos impactos sociais e ambientais do projeto, são silenciadas.

Assim como foi Milo Rafin, cujo parecer foi ignorado pelas redações de todos os jornais, aos quais ele enviou cópia.

O novo megaprojeto, até agora, foi submetido ao debate em uma única audiência pública, em Barra do Ribeiro, com maioria recrutada pela empresa.

A recomendação do MP de que se suspenda o processo de licenciamento ambiental em andamento, para que os impactos do projeto sejam amplamente debatidos, foi prontamente atacada pelos empresários. A nota da Fiergs, manifestando “surpresa e preocupação” foi antecipada pelo colunismo oficial. 

O cheiro de ovo podre, que se espalhou sobre Guaíba e até Porto Alegre, denunciou a Borregaard em 1972.

Em 2026, há filtros eficientes para que a população não seja alertada pelo olfato.

Os efeitos das descargas tóxicas nas águas do Guaíba serão imperceptíveis durante muito tempo.

Quando as consequências aparecerem, talvez seja tarde demais.

*Naquela época o RS ainda disputava com Minas Gerais a colocação de 3º Estado mais industrializado do país, atrás de SP e Rio, apenas. Hoje no ranking dos estados mais industrializados do IBGE aparece em 8º lugar.

*O BNDES era sócio, com 43% do capital. A empresa norueguesa, controladora, tinha apenas 32% do capital. Até o governo do Estado era acionista minoritário.

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