
Pela primeira vez, quase aos cem anos, o Viaduto Otávio Rocha terá uma “inauguração festiva”. Pelo menos é o que está previsto para marcar a restauração recém concluída. Quando foi construído, ele não teve inauguração formal.
O viaduto foi construído entre 1928 e 1932 para ligar o centro com os novos bairros que se expandiam em direção à Zona Sul.
Foi preciso rasgar o “morrinho da Rua da Igreja”, um corte no rochedo de 30 metros de altura para abrir a avenida – que se chamaria Borges de Medeiros, em homenagem ao governador que recém deixara o cargo, depois de cinco mandatos consecutivos.
Entregue ao tráfego aos poucos (em 1931 já podiam transitar os bondes), o “Viaduto da Borges” entrou em uso sem batismo e sem inauguração formal. Só em 1954, recebeu um nome oficial em homenagem ao “Intendente” que autorizou a obra e não a viu sequer iniciada: Otávio Rocha morreu em fevereiro de 2028, pouco antes do início das obras.
Primeiro Plano Diretor já previa o viaduto
A abertura de uma saída em direção ao Sul já estava no Plano de Melhoramentos, o primeiro de Porto Alegre, de 1914, que, em grande parte, ficou no papel, devido a suas propostas arrojadas. Uma delas era desafogar o centro, furando o morro, sem interromper a rua que passava em cima, a rua da Igreja, rua da elite e do poder – um viaduto.
Só dez anos depois, o prefeito Otávio Rocha, eleito com o respaldo do governo estadual, assumiu decidido a tirar do papel as melhorias propostas no Plano de 1914. A obra do viaduto era a principal.
Dois projetos foram feitos pela Comissão de Novas Obras, mas o escolhido foi um terceiro, do arquiteto Manoel Itaqui. Há um desenho que teria sido feito por Itaqui, “depois de uma conversa informal com o prefeito, seu amigo”.

Esse esboço a lápis foi a origem do projeto. A elaboração e o detalhamento da obra contaram com a participação do também engenheiro e arquiteto Duílio Bernardi, colega de Itaqui na então renomada Escola de Engenharia de Porto Alegre. Bernardi era autor de um dos projetos preteridos.
Itaqui, arquiteto muito influente, além do viaduto, projetou dois prédios hoje tombados no Centro Histórico: o Observatório Astronômico da Universidade Federal e a Confeitaria Rocco.
Uma Obra de Arte Especial
Retrato de uma época, além da função de trânsito, o viaduto Otávio Rocha é um monumento artístico. Na nomenclatura do patrimônio cultural urbano, é uma Obra de Arte Especial (OAE).
Possui elementos artísticos-decorativos do escultor alemão Alfredo Adloff – dois grandes nichos com estátuas e o famoso Passeio das Quatro Estações, nas escadarias, além dos detalhes das balaustradas e outros ornamentos que dão o estilo característico da obra.
Adloff moldou as estátuas numa mistura de cimento e areia para que tivessem a mesma textura granulada das paredes. Imigrante alemão, radicado em Porto Alegre, ele é também o autor das esculturas da fachada do Museu de Arte do RS e da Igreja das Dores.
Pioneira do concreto
armado executou a obra
Em licitação internacional, foi selecionada a construtora alemã Dyckenthoff & Widmann para executar a obra.
Fundada em 1865, a D&W era pioneira no uso do concreto armado no mundo.
Para romper o maciço granítico (o “morrinho” do Centro) a empresa teve que usar dinamite, com muitos transtornos para os moradores, o que atrasou em um ano o início efetivo da obra.

A empresa Dyckerhoff & Widmann ainda existe e hoje é conhecida globalmente como DYWIDAG.
É uma multinacional de tecnologia de construção e engenharia de infraestrutura, com sedes em diversos países e atuação em grandes projetos de pontes, túneis e reparos estruturais. No Brasil, ela tem participação em outras duas obras icônicas: a ponte pênsil de Florianópolis e a ponte Rio-Niterói.
Doze anos, do
projeto à conclusão
A reforma atual começou em novembro de 2022, com prazo para conclusão em 18 meses, conforme a placa colocada no canteiro de obras. Terminou em meados de abril de 2026 – 40 meses. Quase quatro anos, praticamente o mesmo tempo gasto na construção. O orçamento também estourou, dos R$ 13,7 milhões iniciais para mais de R$ 20 milhões.
A Concrejato Serviços Técnicos de Engenharia, de São Paulo, executou a reforma a partir de um projeto dos arquitetos Alan Furlan e Cristiane Gross, entregue à prefeitura em 2014.
A pressão por uma reforma, na verdade, começara antes, com um movimento dos permissionários das lojas do Viaduto. Em 2006 a ARCOV, associação dos comerciantes do viaduto, foi à Câmara levar uma proposta. Eles denunciavam o abandono e a falta de manutenção, que corroíam a estrutura do viaduto.

Restaurar não só a infraestrutura, mas as características originais, que fazem do viaduto um monumento, foi a orientação da reforma agora concluída.

