A República Rio-grandense, que nunca foi abolicionista

Cleber Dioni Tentardini

Foi em 11 de setembro de 1836 que o general farrapo Antônio de Souza Neto declarou o Rio Grande do Sul uma república independente do Brasil. Há 190 anos.

A República Rio-grandense funcionou com ministérios,
secretarias, serviços de polícia, correios. Teve bandeira, hino, dinheiro e leis próprias.

O Rio Grande do Sul era um ermo. Havia cerca de 170 mil
habitantes em toda a província, bem despovoada. O maior núcleo era Rio Pardo, que tinha uns três mil moradores. De lá, saíram Bagé, Alegrete, Rosário… 

A cidade de Porto Alegre tinha cerca de dois mil
habitantes. A Santa Casa ficava fora dos portões da cidade. O cemitério era atrás da Catedral. Era um núcleo pequeno. A maioria das pessoas se conhecia. Em todo o território do município da capital, que ia de
Viamão a Triunfo, havia 14 mil moradores.

A economia estava nas chácaras, que produziam mais do que as grandes fazendas de criação e alimentavam os habitantes. As chácaras vendiam leite, frutas, verduras, ovos, porcos, galinhas. Era a fonte de água também.

As fazendas de criação mandavam gado para as charqueadas do Uruguai porque não pagavam imposto. Se enviassem para Pelotas, por exemplo, tinha que pagar. Outra questão é que os fazendeiros não gastavam o dinheiro aqui, compravam móveis em Montevidéu, as mulheres compravam vestidos na França.

A primeira experiência republicana no Brasil durou oito anos e cinco meses. Os Farrapos só rabiscaram e imprimiram um projeto de Constituição para o novo país, que não chegou a ser votado. Durou até o dia 28 de fevereiro de 1845, quando os revoltosos aceitaram os termos de rendição.

Rendição, sim. Não houve tratado de paz porque o Império nunca a reconheceu como nação. Houve um acordo, com pedidos de anistia que deveriam ser assinados pelos líderes Farrapos. Caxias recebeu ordens do ministro da Guerra para conceder as anistias, que já veio impressa.

Tinha um empecilho: os escravos. Os negros. Havia índios também entre os peões e soldados, mas não eram escravizados, por lei. Se fossem, eles preferiam tirar a própria vida.

O Império nunca considerou libertar os negros porque haveria rebeliões nas demais províncias. E quase ninguém era abolicionista entre os Farrapos. Um ou outro oficial sustentou a liberdade dos negros que lutaram em suas fileiras, como os generais Bento
Gonçalves e Neto, que se retiraram das refregas antes do massacre em Porongos. E mesmo eles tinham vários escravos. Significavam mão de obra e poder.

Em conluio com Caxias, o general David Canabarro, então comandante-em-chefe dos Farrapos, mandou retirar à noite as pedras de pederneiras dos fuzis da infantaria, formada por negros. Mais de cem foram mortos. Não foram lanceiros os mortos ali. Os lanceiros negros foram traídos também, mas quando foram entregues aos imperiais depois da guerra, na fazenda dos Cunhas, onde os Farrapos entregaram todo o armamento para os oficiais de Caxias.

O historiador Moacyr Flores autor de mais de vinte livros, sete sobre os Farrapos, afirma que houve um acordo para pôr fim à guerra em 1843, pouco antes do combate do Ponche Verde, onde os Farrapos deveriam ser derrotados e, então, seria concedida a anistia
aos oficiais. Mas a combinação não deu certo, porque os Farrapos estavam em bom número e melhor posicionados, então sustentaram a luta. À noite, ambas as forças se retiraram da batalha.

Segundo Flores, a famosa carta de Caxias para Francisco de Abreu, o Moringue, informando sobre o acerto com Canabarro é verdadeira. “A correspondência era manuscrita. O Caxias pode ter feito um rascunho, chamado borrador, e seu secretário, que era um sobrinho, passou a limpo. Fizeram uma cópia para deixar no arquivo do Caxias, escrito no alto da folha a palavra cópia, e enviaram a original para o Moringue. Eu esmiucei isso aí. Essa cópia foi escrita em livro, não foram folhas avulsas. E há uma sequência, uma ordem no livro, não tem como embutir no meio das outras. O Caldeira, que
era comandante dos lanceiros negros, sustentou que houve a traição do Canabarro. O Domingos José de Almeida confirma que esteve com o Moringue e este lhe mostrou a carta original do Caxias.”

Moringue atacou apenas um dos três acampamentos, deixando o dos brancos e dos índios fugirem, pois conforme ordens de Caxias, eles poderiam ser úteis mais tarde. Canabarro fugiu, deixando para trás sua carretilha com todo o arquivo, mas que foi devolvido a ele.

A entrevista completa com Moacyr Flores está aqui:

https://www.jornalja.com.br/especiais/moacyr-flores-nao-foi-o-rio-grande-que-se-levantou-contra-o-imperio/