Geraldo Hasse
Nos últimos anos de sua vida, Aldyr Garcia Schlee (1934-2018) ainda era procurado por repórteres que lhe pediam para falar sobre a camiseta canarinho por ele desenhada em 1953. Queriam saber como aquele garoto do Sul do Brasil ganhara o concurso disputado por 200 outros candidatos etc e tal…
Bueno…
Passados tantos e tantos anos, el viejo tinha perfeita consciência de que seu feito havia se tornado matéria-prima da história do futebol brasileiro. Resignado diante de mais uma prova do eterno retorno das coisas, ele respirava fundo e se punha a recontar o que só era novidade para as gerações nascidas muito depois da lenda construída pelos craques de 1958, 1962, 1970 etc.
Certamente, ele preferiria falar de sua obra literária, constituída por 15 livros de contos, novelas, ensaios e traduções escritos a partir dos anos 70… No entanto, imbuído da paciência desenvolvida ao longo de sua carreira como jornalista, professor e escritor, respondia de bate-pronto às perguntas mais óbvias e tentava tocar a bola para áreas mais favoráveis à abordagem das contradições dos jogos em geral, do esporte à política, do local ao global.
Não adiantava muito e logo voltavam as indagações inocentes: ainda sentia orgulho por ter criado o símbolo do futebol brasileiro?
Bueno…si, como no?
Embora enojado do mercantilismo do futebol, achava que não tinha o direito de refugar a narrativa da história original; sentia-se na obrigação de esclarecer detalhes, não se negava a posar para fotos com a camiseta gloriosa mas, se possível, dava um toque sobre fatos da realidade nacional como, por exemplo, a corrupção presente em todos os campos, especialmente no futebol.
Rechiflao en mi tristeza…
Quando a camiseta canarinho completou 60 anos, em 2014, seu criador não teve cara nem coragem para dizer não a um convite do novo patrocinador da Seleção Brasileira, o Banco Itaú, para figurar num documentário em vídeo. Como negar se ele mesmo era parte daquilo tudo?
Em todos esses momentos de assédio jornalístico e publicitário, Schlee se dividiu entre o orgulho do criador de 1953 e a inexorável sensação de derrota, amargura mesmo, por saber e sentir que a genuína alegria desse esporte maravilhoso foi submetida à idolatria do dinheiro.
Sem receber cachê, deixou-se filmar em três locais: em sua casa no Capão do Leão, seu refúgio como professor aposentado; na praça central de Pelotas, a cidade em que passou a maior parte da vida; e, por fim, no estádio do Maracanã, palco da estreia da camiseta canarinho no Brasil. Nessa final de gravação, o velho estava radiante, lembra o filho Aldyr Rosenthal Schlee, que acompanhou o pai na viagem ao palco da derrota de 1950 para o Uruguai.
Nenhum dos dois Aldyr imaginou que todo aquele esforço de reportagem resultaria num comercial. “Eu me lembro de terem colocado uma bola nas mãos do pai. Ele, rindo, mostrava a bola, com a parte que tinha um recorte quadrado, voltada para a câmera. Na montagem final, o que apareceu foi o pai mostrando a tal bola com o logo do Itaú — inserido digitalmente”, disse Aldyr filho. De qualquer modo, se o final foi decepcionante, o processo de filmagem foi prazeroso para todos.
Foi a última viagem de Schlee ao Rio, às vésperas do início da segunda Copa do Mundo realizada no Brasil – se a primeira em 1950 acabou na tragédia da derrota para o Uruguai por 1 a 2, em 2014 seria muito pior: Brasil 1 x 7 Alemanha, vergonha nacional.
Bem ou mal, driblando repórteres apressados ou despreparados para captar os dramas embutidos em sua longa trajetória profissional, Schlee arranjou modos de expor sua decepção não apenas em alguns depoimentos ligeiros à imprensa, mas em prefácios de livros sobre o futebol. Ele amava o jogo de bola e a camiseta canarinho foi um mero acidente em sua vida. Um acidente que o marcou para sempre. E do qual nunca deixou de falar. Porque vinham lhe pedir: fale da camiseta canarinho, Schlee… Alguém precisa dizer às novas gerações que Aldyr Garcia Schlee ganhou prêmios literários e continua sendo um dos melhores escritores do Brasil. Seu maior livro? O Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense, 1 mil páginas em dois volumes. Livrão disponivel na internet.
Na foto de 2014, trocando livros, Aldyr Schlee e Klecio Santos
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