Guerras pelo petróleo: Venezuela reduz vulnerabilidade dos EUA (Parte II)

O controle do petróleo da Venezuela pelos Estados Unidos (EUA) pode ser interpretado como parte de uma estratégia de segurança energética preventiva, destinada a reduzir a vulnerabilidade do sistema estadunidense diante de uma eventual ruptura dos fluxos de petróleo do Oriente Médio.

O conflito em larga escala dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, que começou em 28 de fevereiro, envolvendo o Estreito de Ormuz, reforçou posteriormente o acerto da medida na visão imperialista, que não levou em conta a soberania da Venezuela. Os EUA passaram a dispor de uma grande fonte de petróleo pesado localizada fora do Oriente Médio e diretamente conectada ao mercado norte-americano.

A ação, batizada de Operação Resolução Absoluta, na madrugada de 3 de janeiro de 2026, sequestrou o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, a primeira-dama Cilia Flores, deixando a vice-presidente Delcy Rodríguez como nova líder, com o subsequente controle sobre as receitas do petróleo.

O controle sobre o petróleo venezuelano — seja por sanções, intervenção direta ou pelo atual confisco das receitas de exportação — não é um caso isolado, mas sim uma peça fundamental de um tabuleiro global. Desde a Doutrina Carter (1980), que declarou o Golfo Pérsico como interesse vital dos EUA, Washington opera sob a premissa de que controlar os fluxos globais de energia é tão importante quanto controlar o petróleo em si. O objetivo não é apenas ter petróleo para si, mas negar esse recurso a adversários estratégicos, principalmente a China.

Contas controladas

Em janeiro de 2026, o Departamento de Energia dos EUA anunciou “que todos os recursos provenientes da venda de petróleo bruto e derivados venezuelanos serão primeiramente depositados em contas controladas pelos EUA em bancos reconhecidos internacionalmente, para garantir a legitimidade e a integridade da distribuição final dos recursos. Esses fundos serão distribuídos em benefício do povo estadunidense e do povo venezuelano, a critério do governo dos EUA.”

Desde fevereiro, a estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) só está vendendo petróleo para empresas que possuem licenças individuais, com as novas normativas do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) dos EUA. Segundo a agência Reuters, as exportações chegaram a cerca de 800 mil barris/dia já em janeiro, contra 498 mil em dezembro, principalmente pelo término do embargo petroleiro que facilitou os embarques.

Em junho de 2026, as exportações de petróleo estavam em cerca de 1,2 milhão de barris/dia. Parte significativa dos fluxos, que anteriormente tinham a China como destino, passou a ser direcionada para refinarias estadunidenses.

 O governo Donald Trump arrecadou mais de US$ 13 bilhões em receitas com a venda de petróleo venezuelano até julho, segundo cálculos do jornal Financial Times. O petróleo representa perto de 80% a 90% das receitas totais de exportação da Venezuela e esperava-se que o alívio das sanções trouxesse um grande impulso para a economia, que já estava em crise mesmo antes dos devastadores terremotos de junho passado.

No entanto, passados mais de seis meses desde que os EUA tomaram o controle do dinheiro, economistas dizem que as evidências de recuperação na Venezuela são relativamente pequenas – um possível sinal de que os EUA não enviaram as receitas necessárias de volta para Caracas. Parlamentares estadunidenses de ambos os partidos começam a pressionar o governo para explicar para onde foi o dinheiro e o que o governo vem fazendo para evitar a corrupção em sua alocação.

Refinarias dilapidadas

Os EUA obtiveram um grande ganho geopolítico e de controle sobre o fluxo do petróleo, mas ainda não conseguiram transformar rapidamente a Venezuela numa grande plataforma petrolífera rentável sob comando de empresas ocidentais.

Apesar do Centro de Refino de Paraguaná (CRP), administrado pela PDVSA, estar entre os ativos mais importantes para os venezuelanos, também está entre os mais dilapidados. A recuperação integral da capacidade de refino exigiria pelo menos US$ 20 bilhões, segundo estimativas de especialistas do setor citadas pela agência Reuters. Já o plano mais amplo de reconstrução da indústria petrolífera, incluindo a recuperação da produção, envolve investimentos que o presidente dos EUA, Donald Trump, estima em cerca de US$ 100 bilhões.

As petrolíferas estadunidenses têm poucos incentivos para recuperar as refinarias locais, pois sua produção do petróleo pesado e de alto teor de enxofre exige perfuração especializada, diluentes para permitir o transporte por oleodutos, unidades de upgrading para melhorar a qualidade antes da exportação e elevados investimentos em infraestrutura. Portanto, o plano existe e é lógico, mas sua execução esbarra na realidade de que quebrar um país é mais fácil do que reconstruir sua indústria. 

Além disso, o petróleo venezuelano pode ser ruim para muitas refinarias, mas é adequado para determinadas refinarias estadunidenses, especialmente no Golfo do México. Por isso que exportar petróleo bruto para os EUA faz sentido econômico, ao contrário de construir por um alto custo uma nova capacidade de produção.

Mudança drástica

O cenário pode indicar uma completa reorganização do setor petrolífero venezuelano, com a substituição gradual das empresas da China e Rússia por um novo consórcio liderado por companhias estadunidenses e europeias, sob supervisão direta de Washington.

As petrolíferas chinesas e russas eram as maiores detentoras de petróleo da Venezuela. A líder era a Sinopec Group, da China, com direito de exploração de 2,8 bilhões de barris, seguida da Roszarubezhneft, da Rússia — 2,3 bilhões de barris e a terceira é a CNPC, da China. 1,6 bilhão de barris. Essa situação mudou drasticamente, após a intervenção norte-americana. As petroleiras chinesas e russas foram excluídas do novo marco legal e estão enfrentando um cenário de paralisia, impedidas de exportar sua produção e com suas operações sendo reduzidas.

O governo Trump, ao renovar neste ano as licenças concedidas a empresas estrangeiras interessadas em expandir ou retomar operações na Venezuela, proibiu a participação de empresas da Rússia, China, Irã e Cuba em qualquer transação ou novo investimento.

As exportações de petróleo da Venezuela para a China, que em 2025 chegaram a cerca de 470 mil barris por dia, sofreram uma queda muito acentuada após o bloqueio imposto pelos EUA. Muitos petroleiros interromperam ou alteraram suas rotas, embora alguns carregamentos tenham conseguido seguir para a Ásia. O mecanismo de pagamento da dívida com a China por meio de petróleo também foi fortemente afetado.

Segundo a agência Reuters, as estimativas mais recentes situam o passivo venezuelano com a China entre US$ 10 bilhões e US$ 15 bilhões, embora o valor exato seja desconhecido porque a Venezuela deixou de publicar estatísticas detalhadas de sua dívida há vários anos. O futuro desses créditos e ativos é incerto.

A Roszarubezhneft é uma empresa estatal de petróleo russa criada em 2020 para gerenciar ativos internacionais, destacando-se por assumir as operações e participações da Rosneft na Venezuela, após sanções dos EUA. Ela continua em operação, mas seu papel tornou-se muito mais estratégico e político do que comercial.

Atualmente, a Roszarubezhneft administra as participações russas em empresas mistas com a PDVSA, especialmente nos campos de Boquerón e Perijá, no oeste do país. Em 2025, a Assembleia Nacional venezuelana aprovou a prorrogação dessas concessões até 2041, prevendo investimentos e continuidade da produção.

A empresa enfatiza que todos os seus ativos foram adquiridos legalmente e pertencem ao Estado russo. Esse discurso busca reforçar a posição de Moscou de que seus investimentos não podem ser questionados por mudanças políticas ou por pressões externas.

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