Admiro a força dos que lutam e a luta dos fortes

Por Cristiano Goldschmidt

Há uma frase de Hannah Arendt que atravessa os anos como uma lâmina: “a triste verdade é que a maior parte do mal é feita por pessoas que nunca decidiram ser boas ou más”. É uma sentença desconfortável, porque desloca o mal do território da monstruosidade para o território da indecisão moral — e, portanto, da covardia. E é exatamente nesse território — o da covardia organizada, institucionalizada, rentável — que a democracia brasileira se vê obrigada a travar, mais uma vez, sua batalha mais decisiva.

Nas vésperas das eleições de 2026, admiro a força dos que lutam e a luta dos fortes: os jornalistas que seguem apurando sob ameaça, os comunicadores populares que veem suas contas sumirem do ar sem explicação, os parlamentares estrangeiros que rompem o silêncio diplomático, os cidadãos anônimos que se recusam a aceitar que a mentira seja administrada como política de Estado.

A força, disse-o Simone Weil, não é uma qualidade dos vencedores: é uma relação. Ela existe apenas enquanto alguém a exerce sobre outro corpo, e se dissolve no instante em que a resistência cessa de ser possível. Por isso mesmo, a luta dos fortes não é a luta dos que têm poder — é a luta dos que recusam a se deixar transformar em coisa. Gramsci chamaria a isso de otimismo da vontade; Camus, de rebelião; Paulo Freire, de esperança como necessidade ontológica. Todos os nomes apontam para o mesmo fenômeno sociológico: em tempos de desmoralização planejada, persistir é um ato de criação política.

E os tempos, neste setembro de 2026, não poderiam ser menos generosos. O Brasil caminha para o primeiro turno com uma eleição presidencial que não é apenas uma disputa entre projetos de país, mas um referendo sobre se o país continuará a ter instituições.

Do lado oposto ao campo democrático, ergue-se a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), senador e filho do ex-presidente condenado, um homem que hoje é alvo de inquérito autorizado pelo Supremo Tribunal Federal para apurar lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção — e que, mesmo assim, ou precisamente por isso, tornou-se o nome da extrema direita para a Presidência.

A sociologia política aprendeu, com Weber e com Bourdieu, que o poder raramente se sustenta apenas na força bruta: ele precisa de legitimação, de ritual, de uma economia simbólica que converta privilégio em vocação e escândalo em perseguição. O episódio que o país inteiro assistiu nas últimas semanas é um manual vivo dessa conversão.

Em 23 de setembro, a Meta derrubou, sem justificativa prévia, o perfil do “Revelando Brasil”, a série investigativa apresentada por Fábio Porchat, horas depois que um episódio sobre as relações entre o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, a Igreja Batista da Lagoinha, o deputado Nikolas Ferreira e o próprio Flávio Bolsonaro ultrapassou milhões de visualizações.

A empresa alegou, depois, “erro interno”. Erro interno é a eufemização contemporânea do acaso — mas o acaso, para o velho materialismo, nunca existiu sem causa: tem endereço, horário e interesses. No mesmo período, a Meta restringiu a conta de anúncios da campanha do presidente Lula e perfis de comunicadores progressistas — como o Brasil Fora da Caverna — foram banidos às vésperas do pleito. Não se trata, evidentemente, de uma coincidência estatística: trata-se de um padrão. E padrões, na política, têm autores.

Que a maior plataforma de comunicação do planeta — dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, ou seja, da infraestrutura por onde circula o debate público brasileiro — silencie seletivamente vozes de um campo político às vésperas de uma eleição não surpreende quem acompanha, há anos, os registros, as denúncias e as manifestações sobre a censura velada que as big techs vêm praticando contra conteúdos e perfis progressistas. O que surpreende é a literalidade com que o fenômeno, antes disfarçado em algoritmos e ambiguidades, se materializa agora — aberto, reiterado e num momento tão decisivo.É a censura sem censor: ninguém assina, ninguém responde, ninguém se responsabiliza. A página volta ao ar “após pressão”, como se a pressão popular fosse um favor e não um direito. Mas a lição ficou registrada: a praça pública do século XXI é privada, e o dono da praça tem preferências.

E o padrão não poupa sequer os religiosos democratas que falam em nome das igrejas. Em 25 de setembro, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) informou estar com dificuldades de acesso à sua conta oficial no X, e acionou o suporte da plataforma sem obter, até o fechamento deste texto, qualquer explicação. O episódio ocorre dias depois de a Presidência da CNBB divulgar, em 7 de setembro, uma mensagem em que reafirma o compromisso com um Brasil “livre e soberano, democrático, justo e fraterno” e defende o respeito à Constituição, às instituições republicanas e à soberania nacional.

O fato de a conta de uma instituição centenária – que representa centenas de dioceses e fala ao país inteiro – ficar fora do ar num momento tão sensível revela o que o padrão inteiro já sugeria: a vigilância sobre o que circula nas redes não é cega nem indiscriminada, ela distingue com precisão a quem persegue, e persegue exatamente quem incomoda o poder; ou seja, o jornalista independente, o comunicador progressista, o humorista que investiga, o bispo que defende a democracia.

A essa assimetria interna soma-se uma pressão externa que já não se esconde atrás de diplomacias. Um documento assinado por trinta deputados norte-americanos e pelo senador Bernie Sanders, enviado ao secretário de Estado Marco Rubio e revelado pela imprensa, acusa a administração Trump de conduzir um “esforço coordenado” para pressionar instituições brasileiras e favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro.

A carta dos políticos norte-americanos relaciona tarifas contra produtos brasileiros, sanções, a classificação de facções criminosas como organizações terroristas, a revogação do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos e uma campanha sistemática contra o ministro Alexandre de Moraes. Os parlamentares pedem ao governo americano um compromisso público com o resultado das urnas. Pense-se no que isso significa: membros do próprio Congresso dos Estados Unidos precisam alertar o mundo de que o governo de seu país está tentando interferir numa eleição soberana de um país irmão. É a velha doutrina da área de influência vestida de liberdade — que hoje se apresenta como defesa da “livre expressão” para justificar tarifas, sanções e chantagem eleitoral — e é preciso admirar a coragem de quem, dentro da própria casa do império, disse não.

Agora, o que exatamente está em jogo? O episódio do Revelando, que a Meta tentou apagar e que milhões assistiram mesmo assim, oferece uma radiografia que expõe com muita clareza algumas relações e a forma como elas operavam. Ele conta a história de uma “irmandade”: um banqueiro que transformou promessas de rendimento impossíveis em uma das maiores fraudes financeiras da história do país; pastores que converteram o púlpito em vitrine de crédito consignado e em porta de entrada para o poder; um grupo de WhatsApp chamado “a turma”, que, segundo a Polícia Federal, monitorava e intimidava adversários do banqueiro; e um senador que chamava o banqueiro de “irmãozão” enquanto, segundo registros e delações homologadas pela Justiça, cobrava repasses de 24 milhões de dólares para financiar, por um fundo no Texas, a cinebiografia do pai.

Quando o Banco Master desabou, o Fundo Garantidor de Créditos pagou cerca de 40 bilhões de reais — o maior ressarcimento de sua história — e aproximadamente 1,8 bilhão de reais de aposentadorias públicas de dezoito estados e municípios ficaram sem cobertura: a conta foi entregue, como sempre, não à área VIP, mas ao fundo da igreja — ao aposentado do Amapá, ao servidor do Rio, ao fiel que acreditou. E uma CPI do Banco Master, com assinaturas de sobra no Congresso, jamais foi instalada porque o presidente da Casa se recusou a ler o requerimento.

Vale demorar-se, contudo, na anatomia moral dos personagens dessa irmandade, porque é nela que o vídeo de Porchat opera sua crítica mais contundente.

Daniel Vorcaro é a figura do apostador que joga com o dinheiro dos outros e se blinda na fé alheia: multiplicou por quarenta, em cinco anos, uma carteira que ninguém sabia explicar — de 1 bilhão para cerca de 40 bilhões de reais —, apostou as aposentadorias de servidores de dezoito estados e municípios em papéis que o Fundo Garantidor jamais cobriria e, quando a denúncia apertou, não vacilou diante do abismo moral. Segundo a investigação da Polícia Federal, Daniel escreveu, sobre uma funcionária que o ameaçava, que “tem que morrer a vagabunda”; e, em outra mensagem, planejou quebrar todos os dentes do jornalista Lauro Jardim num assalto forjado. Não se trata de ira impulsiva: trata-se de método — a violência como instrumento de gestão de risco, um recurso a mais na contabilidade do negócio.

Fabiano Zetel, o pastor empresário que dizia ter “duas vidas” e tinha três, é a síntese mais perfeita da mercantilização do sagrado: pregava de manhã, movimentava dinheiro à tarde, pagava — segundo a PF — um milhão de reais por mês para sustentar a máquina de intimidação do cunhado, Daniel Vorcaro, e viu o patrimônio declarado triplicar em três anos, acumulando cinquenta milhões só em joias e relógios. Milhões em relógios, para quem prega que o tempo pertence ao Senhor: a ironia não é de Porchat, é dos fatos.

E André Valadão, o herdeiro de um império de fé que começou vendendo salvação e terminou vendendo crédito — do cartão “Fé” anunciado do púlpito, liberado “até para quem tivesse o nome no SPC”, ao banco digital que sumiu do ar na semana da primeira prisão do banqueiro —, encarna a figura mais trágica do lote: o homem que trocou o altar pelo balcão e, quando o balcão desabou, pediu perdão aos fiéis por ter “confiado em pessoas”, como se a confiança tivesse sido dele e não das dezenas de milhares de ovelhas que ele próprio conduziu ao curral.

E há ainda Nikolas Ferreira, o deputado que voou pelo Brasil em jatinho bancado pelo banqueiro e depois jurou não saber de quem era o avião — uma falta de curiosidade tão monumental que beira a confissão. Cada um deles, à sua maneira, praticou a mesma operação: converter a confiança alheia em capital privado. É a forma mais baixa de parasitismo social — o forte que explora a fraqueza alheia e a chama de fé.

E Flávio Bolsonaro? Ele é o ponto em que a irmandade toca o Estado. O senador negou conhecer o banqueiro; depois admitiu o contato; depois disse que era “patrocínio privado” encerrado em maio de 2025; o COAF registrou transferência em setembro, e a delação homologada do operador financeiro documentou sete repasses até setembro. A sequência de versões é, em si, uma biografia moral: cada negação desmentida pelos documentos, cada desmentido seguido de uma versão menor.

Tal qual Pedro negou Jesus três vezes antes do galo cantar, Flávio negou o “irmãozão” tantas quantas foram necessárias — mas, ao contrário de Pedro, não houve arrependimento: houve inquérito. E é esse homem, que tratava diretamente com o banqueiro da maior fraude financeira da história do país enquanto o país pagava a conta, que se apresenta como candidato à Presidência da República. A pergunta que o vídeo de Porchat deixa no ar — “e aí, meu irmão, minha irmã, você confia?” — não é retórica: é a questão constitucional disfarçada de conversa de bar.

Só que aqui é preciso encarar o dado mais desconfortável de todos, aquele que separa a indignação da análise: o escândalo, por enquanto, não abalou o eleitorado que interessa.

As pesquisas divulgadas na última semana de setembro mostram uma disputa no fio da navalha — Datafolha dá a Lula 47% contra 45% de Flávio no segundo turno, empate técnico dentro da margem de erro; o PoderData chegou a apontar Flávio numericamente à frente pela primeira vez desde maio, com 46% a 45%; no primeiro turno, Lula aparece com 40% e Flávio com 36%. Ou seja: um candidato sob inquérito no Supremo por lavagem de dinheiro, com conversas de cobrança de milhões documentadas e homologadas, disputa a Presidência empatado — e parte significativa do eleitorado seguirá votando nele não apesar do histórico, mas indiferente a ele.

Como explicar essa cegueira? A psicologia social tem um nome para o mecanismo: é a dissonância cognitiva descrita por Leon Festinger — quando a identidade investe demais em uma crença, os fatos contrários não a derrubam, apenas fortalecem o escudo que a protege. O voto bolsonarista nunca foi um julgamento sobre fatos; é um pertencimento, uma identidade tribal na qual admitir a fraude do “irmãozão” equivaleria a admitir a própria fraude.

Bourdieu diria que o habitus opera antes da razão: o eleitor não escolhe Flávio contra as evidências — ele escolhe as evidências que não o constrangem a escolher. Há ainda a maquinaria da desinformação, que transformou a suspeita em virtude: se as instituições que apuram são, na narrativa, ‘perseguidoras’, então cada inquérito vira prova de martírio e cada documento, peça forjada. É o círculo perfeito da mentira autorreferente, no qual a verdade perde o único poder que tinha — o de constranger.

Mas a cegueira do eleitorado não é só patologia: é também sintoma. Ela cresce no solo de uma sociedade exausta, desiludida com a política tradicional, e que aprendeu a confundir transgressão com autenticidade. O eleitor que vota em Flávio Bolsonaro sabendo de tudo não está necessariamente enganado — muitas vezes está, isso sim, resignado à ideia de que todos roubam, e prefere o que rouba “do seu lado”. É a ética da torcida substituindo a ética da república, a lealdade ao grupo sobrepondo-se à lealdade ao bem comum.

E é exatamente por isso que o trabalho dos que lutam importa tanto: porque a cegueira não se combate com desprezo pelo cego, e sim com a insistência teimosa em colocar os fatos diante dos olhos — um episódio, um documento, uma delação de cada vez. A democracia não morre no dia em que um candidato investigado vence; morre antes, no silêncio acumulado de cada eleitor que decidiu não ver. Cabe aos que veem — jornalistas, humoristas, deputados estrangeiros, cidadãos comuns — manter a luz acesa até o último minuto das urnas.

Por que essa história importa para a eleição? Porque ela não é um escândalo isolado: é a anatomia de um modo de fazer política. A sociologia chama isso de captura do Estado por redes de interesse que operam na penumbra entre o mercado, o templo e o gabinete.

O que o vídeo de Porchat revelou — e que a tentativa de apagamento apenas confirmou — é que a candidatura de Flávio Bolsonaro não flutua acima dessas redes: ela é o ponto de convergência delas. Um homem que tratava diretamente com o banqueiro da maior fraude financeira do país, que negou a amizade e depois a admitiu em versões sucessivas, que hoje responde a inquérito no Supremo, pretende comandar a República. E a pergunta que Arendt nos obriga a fazer não é “ele vai ganhar?”, mas “o que significa, para uma democracia, que isso seja sequer possível?”.

Significa, em primeiro lugar, que a impunidade se candidata. Se quem está sob investigação por lavagem de dinheiro pode ascender ao cargo máximo do Estado, então o inquérito deixa de ser instrumento de justiça e vira mero incômodo eleitoral — e o dia seguinte à vitória será o dia da extinção das investigações, das delações, das cooperações.

Significa, em segundo lugar, que a máquina de desinformação que tentou deslegitimar as urnas em 2022 terá, dessa vez, o comando do próprio Estado — com o agravamento de que a infraestrutura digital já demonstrou, no caso da Meta e do X, que pode agir como braço silencioso dessa operação.

Significa, em terceiro lugar, que o Brasil passaria a ser governado em consonância com um projeto internacional — o trumpismo — que os próprios parlamentares americanos descrevem como interferência hostil: tarifas como instrumento de chantagem eleitoral, sanções como moeda de troca, a soberania nacional negociada em conversas de “irmãos”.

Mas é aqui que a admiração do título precisa ser dita com todas as letras. Admiro a força dos que lutam — o humorista que transformou comédia em jornalismo investigativo e viu sua página sumir e voltar pela pressão de milhões; os jornalistas que mantiveram viva a apuração do Banco Master quando o Congresso fingia que o requerimento não existia; os servidores públicos cujas aposentadorias foram apostadas em papéis podres e que ainda assim seguem trabalhando; os eleitores que não confundem fé com fraude, como o próprio episódio cuidou de distinguir: nada disso é sobre a crença de ninguém, é sobre o que alguns fizeram com a confiança depositada neles. E admiro a luta dos fortes — os trinta deputados e Bernie Sanders, que arriscaram o desconforto de acusar o próprio governo; os ministros do Supremo que assinam autorizações de inquérito sabendo do preço; a sociedade civil que entendeu, talvez tarde mas a tempo, que a praça pública digital precisa ser defendida como se defende uma praça de pedra.

Raymond Williams escreveu que “ser verdadeiramente radical é tornar a esperança possível, em vez de tornar o desalento convincente”. A democracia brasileira já sobreviveu a golpes, à censura, ao esquecimento imposto. Sobreviverá a este outubro se a força dos que lutam se converter em voto, vigilância e memória.

A luta dos fortes não é a dos que nunca caem — é a dos que se levantam sabendo exatamente contra o quê. E, desta vez, contra o quê se sabe com precisão documental: contra a irmandade do dinheiro e do púlpito, contra a censura que se disfarça de erro interno, contra a interferência que se disfarça de amizade. Admiro-os, os que lutam. Porque a democracia, essa frágil conquista da vida comum, não se herda: se defende. E se defende sempre — como ensinou o século XX e confirma o nosso — na coragem de alguns e na vigília de todos.