Por Cristiano Goldschmidt
Leonel Brizola foi um homem que viveu a política com uma intensidade rara, como se cada disputa de seu tempo também dissesse respeito à sua própria vida. Em Brizola: Lobisomem contra o império, Karla Monteiro acompanha esse percurso desde a infância pobre no interior do Rio Grande do Sul até o retorno ao Brasil, depois de quinze anos de exílio.
Ao longo desse caminho, aparecem o estudante obstinado, o engenheiro, o administrador público, o líder trabalhista, o governador da Legalidade, o adversário dos interesses estrangeiros e o político que, mesmo cercado por derrotas e contradições, nunca deixou de acreditar na força das próprias convicções.
A autora compõe, assim, o retrato de uma personalidade inquieta, moldada pelo trabalho, pela educação, pelo nacionalismo e pela certeza de que a política precisava produzir mudanças concretas na vida dos brasileiros.

Nesse longo percurso, atravessado por guerras, golpes, eleições, conspirações, alianças, perdas familiares e rupturas ideológicas, o biografado surge como uma figura de grandeza simultaneamente cívica e trágica. Seu percurso não se deixa acomodar em nenhuma classificação simples.
Ele foi administrador e tribuno, democrata e conspirador, reformista e radical, homem de partido e liderança personalista. Foi, ainda, um dos raros políticos brasileiros capazes de converter a própria biografia em linguagem coletiva.
O subtítulo, “Lobisomem contra o império”, possui uma força simbólica que a narrativa explora com inteligência. O lobisomem é uma criatura da metamorfose, situada entre o humano e o monstruoso, entre a ordem do dia e os temores da noite. Brizola também pertenceu a uma zona de fronteira.
Movia-se entre as instituições e as ruas, entre o Parlamento e a insurreição, entre a defesa da legalidade e a impaciência diante de uma legalidade incapaz de produzir justiça social. Para seus adversários, era um agitador ameaçador, um político que desejava romper os limites do jogo democrático. Para seus admiradores, era exatamente aquele que compreendia como esses limites haviam sido construídos para proteger os privilégios de poucos.
Karla Monteiro não procura resolver essa ambiguidade. Sua qualidade maior está em preservá-la. Em vez de transformar Brizola em herói impecável ou em responsável isolado pelas convulsões brasileiras, a autora o restitui à sua espessura humana e política. A admiração que atravessa o livro não elimina a crítica. A autora reconhece a coragem do personagem, sua inteligência administrativa e sua capacidade de mobilização, mas também expõe sua vocação para o confronto, sua dificuldade de aceitar mediações e os equívocos estratégicos que contribuíram para o isolamento de suas propostas.
Essa complexidade começa a ser construída antes mesmo da entrada de Brizola na vida pública. A narrativa dedica atenção à origem familiar, à pobreza, às tensões políticas do Rio Grande do Sul e à presença decisiva de Onívia, sua mãe.
A infância não aparece como mero preâmbulo sentimental, mas como o território em que se formam as convicções que mais tarde orientariam o político. A precariedade material, o trabalho precoce, a experiência da migração e o acesso difícil à educação compõem uma pedagogia da resistência.
Brizola aprende cedo que a pobreza não é uma abstração econômica. Ela se manifesta na fome, no deslocamento, na humilhação, na ausência de documentos e na necessidade permanente de conquistar aquilo que para outros parece natural.
A biografia se torna particularmente vigorosa quando acompanha o jovem Leonel em sua passagem por pequenas cidades e, depois, por Porto Alegre. O adolescente que chega à capital precisa aprender a decifrar um mundo novo. Trabalha, procura alojamento, enfrenta obstáculos burocráticos, frequenta escolas e se aproxima de círculos religiosos e políticos que lhe oferecem abrigo, formação e disciplina.
A cidade, descrita como uma “pequena cidade grande”, torna-se espaço de aprendizagem social. O futuro líder não nasce pronto. Ele se constrói na convivência com diferentes classes, instituições e linguagens.
A educação ocupa, nesse processo, uma posição fundamental. Brizola não é apresentado como um produto espontâneo da vontade popular, mas como alguém cuja ascensão dependeu de professores, escolas, protetores e oportunidades conquistadas com esforço.
A passagem pelo Colégio Júlio de Castilhos e o contato com uma atmosfera de debate e formação cívica ajudam a explicar o político que surgiria mais tarde. Antes de dominar a tribuna, Brizola precisou dominar os códigos que organizavam a sociedade. Antes de falar em nome do povo, teve de aprender a mover-se entre os mundos que o separavam dele.
Essa formação intelectual e prática estabelece uma continuidade entre o engenheiro civil, o administrador público e o líder político. Brizola parece compreender a sociedade como uma estrutura que pode ser modificada por meio de obras, instituições e decisões de governo. Estradas, energia elétrica, transportes, saneamento, crédito e escolas não são para ele setores independentes. Fazem parte de um mesmo projeto de soberania. A construção material do Estado deve acompanhar a construção de uma cidadania efetiva.
A relação com Getúlio Vargas constitui o principal eixo de transmissão dessa linguagem política. Vargas oferece a Brizola o vocabulário do trabalhismo, a noção de que o Estado pode intervir nas relações sociais e a percepção de que as massas não devem ser tratadas como simples objeto de tutela. No entanto, Brizola não se limita a repetir o getulismo. Ele o radicaliza. Converte a prudência de Vargas em impaciência, o cálculo institucional em mobilização permanente e o nacionalismo de Estado em combate aberto contra os interesses estrangeiros.
A herança getulista, por isso, não é apresentada como um conjunto imóvel de doutrinas. Ela se transforma ao passar por Brizola. O discípulo admira o mestre, mas também o desafia. O vínculo entre ambos é afetivo, político e simbólico, embora nunca inteiramente pacificado. A biografia mostra que a fidelidade de Brizola ao legado de Vargas não se baseava numa reverência passiva. Tratava-se de uma tentativa de preservar, em circunstâncias novas, a promessa de integração social contida no trabalhismo.
Ao reconstituir o pós-guerra, a autora mostra um país em transformação, no qual a democratização convive com estruturas oligárquicas, desigualdades regionais e interesses econômicos resistentes a qualquer reforma profunda. A criação e a disputa interna do Partido Trabalhista Brasileiro, a influência de Alberto Pasqualini, a ascensão de João Goulart e as tensões entre correntes partidárias revelam que o trabalhismo estava longe de ser uma força homogênea. Havia nele um projeto de justiça social, mas também personalismos, ambições, alianças contraditórias e disputas sobre os limites da transformação possível.
Brizola amadurece politicamente nesse terreno instável. Sua eleição para o Parlamento e sua atuação na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul revelam um homem que não se contentava com a administração rotineira do poder. Ele compreendia o mandato como uma forma de combate. Sua intervenção política tinha sempre uma dimensão pedagógica: era preciso convencer, denunciar, nomear os adversários e mostrar à população que decisões aparentemente técnicas escondiam disputas sobre soberania e desigualdade.
Essa concepção alcançaria sua forma mais concreta em suas experiências administrativas. Como prefeito de Porto Alegre e governador do Rio Grande do Sul, Brizola procurou transformar a administração pública em instrumento de mobilização social. A construção de escolas, os projetos de urbanização, as iniciativas de transporte, o cinturão verde e as obras de infraestrutura revelam um governante interessado em produzir presença estatal onde predominavam abandono e dependência.
O programa das chamadas “brizolinhas” é uma das imagens mais expressivas desse projeto. A escola rural aparece como edifício, mas também como promessa. Ao levar educação para regiões esquecidas, Brizola procurava alterar a distribuição do futuro. A alfabetização, a instrução e a formação cívica não eram adereços civilizatórios. Funcionavam como alicerces de uma democracia que não poderia sobreviver apenas como ritual eleitoral.
Essa dimensão administrativa impede que o brizolismo seja reduzido a um conjunto de discursos inflamados. Havia obras, planejamento, repartições, recursos e decisões concretas. O político que falava em soberania também construía escolas; aquele que denunciava o imperialismo organizava programas de governo; o tribuno era, ao mesmo tempo, um administrador. A força de Brizola residia justamente nessa combinação entre a linguagem apaixonada e a capacidade de traduzir parte dela em realização pública.
Mas a mesma energia que alimentava suas conquistas também favorecia o personalismo. Brizola tendia a concentrar a política em torno de sua voz, de sua presença e de sua autoridade moral. O rádio se tornou um instrumento decisivo dessa estratégia. Ao falar diretamente com a população, ele enfrentava o monopólio dos grandes jornais e ampliava a circulação de uma linguagem nacionalista e popular. Contudo, essa comunicação direta também diminuía o espaço das mediações institucionais. A política podia converter-se numa relação quase pessoal entre o líder e seu público.
A Campanha da Legalidade, em 1961, é o ponto culminante desse processo. O episódio reúne a formação política, a experiência administrativa, a habilidade de comunicação e a disposição para o risco que haviam caracterizado Brizola. Diante da tentativa de impedir a posse constitucional de João Goulart, o governador do Rio Grande do Sul mobilizou a Brigada Militar, a população, setores das Forças Armadas e uma rede de emissoras de rádio. A defesa da Constituição deixou de ser uma fórmula jurídica e adquiriu corpo nas ruas, nas transmissões radiofônicas e na resistência diante do Palácio Piratini.
A autora narra esse momento com ritmo de romance político, sem abandonar o apoio documental. As vozes transmitidas pelo rádio, a ameaça de bombardeio, a tensão nos quartéis, as negociações e a mobilização popular conferem ao episódio uma atmosfera de suspensão histórica. A República parecia sobreviver por um fio, sustentada pela decisão de alguns homens e pela presença de uma multidão que recusava a ruptura.
A vitória, entretanto, foi incompleta. O parlamentarismo aceito como solução de compromisso preservou a sucessão constitucional, mas restringiu os poderes de Jango. Nesse ponto, a diferença entre Brizola e seu cunhado se torna evidente. Jango apostava na conciliação e no tempo político; Brizola enxergava na conciliação o risco de uma capitulação disfarçada. O conflito entre ambos não era apenas pessoal. Expressava duas concepções de ação pública: uma baseada na composição e outra orientada pela urgência das reformas.
A biografia é perspicaz ao não tratar nenhum dos dois como encarnação absoluta da razão. A tragédia brasileira resultou, em parte, da incapacidade de articular legitimidade popular, estabilidade institucional e transformação social. Brizola percebia a profundidade das desigualdades e a necessidade de reformas estruturais, mas subestimava a resistência das forças conservadoras e, em certos momentos, superestimava a capacidade de mobilização de seus aliados. Jango, por sua vez, compreendia a necessidade de preservar alianças, mas muitas vezes transformava a prudência em hesitação.
A encampação da telefonia gaúcha constitui outro capítulo essencial da trajetória. Ao enfrentar a Companhia Telefônica Nacional, ligada à norte-americana International Telephone & Telegraph (ITT), Brizola transformou uma questão empresarial em disputa de soberania. O problema não era apenas quem controlaria determinado serviço, mas quem teria autoridade para decidir sobre os instrumentos fundamentais da vida econômica brasileira. A energia, a telefonia e o petróleo tornavam-se símbolos de uma dependência que o nacionalismo brizolista desejava superar.
O gesto teve uma dimensão administrativa, econômica e teatral. Brizola compreendia a política como conflito de interesses, mas também como disputa de imagens. Uma empresa estrangeira encampada pelo governo estadual convertia-se em emblema da luta contra o império. O episódio ampliou sua popularidade, provocou reações internacionais e consolidou a imagem do governador como uma ameaça à ordem continental desejada pelos Estados Unidos.
A questão agrária também revela a amplitude e os riscos de seu programa. A ocupação da Fazenda Sarandi, a criação do Instituto Gaúcho de Reforma Agrária e o apoio ao Movimento dos Agricultores Sem Terra exprimiam a convicção de que a propriedade privada não poderia ser protegida contra qualquer exigência de justiça social. Ao mesmo tempo, essas iniciativas intensificaram a oposição dos setores conservadores e alimentaram a percepção de que Brizola pretendia ultrapassar os marcos da legalidade.
Nas crises que precederam 1964, o livro evita a narrativa retrospectiva que transforma o golpe em desfecho inevitável. O leitor acompanha o entrelaçamento de fatores políticos, econômicos e internacionais: a radicalização das esquerdas, o medo das elites, a ação de setores empresariais, a propaganda anticomunista, a influência norte-americana, a crise econômica, a fragilidade do governo e o avanço das conspirações militares. Brizola ocupa posição central nesse processo, mas não exclusiva.
Sua retórica contribuiu para ampliar o horizonte das reformas e politizar setores sociais até então afastados da vida pública. Também ajudou a assustar possíveis aliados e permitiu que seus adversários apresentassem qualquer projeto de transformação como ameaça revolucionária. A autora não absolve Brizola, mas tampouco aceita a simplificação segundo a qual ele teria sido o responsável pelo colapso democrático. O golpe foi uma operação ampla, civil e militar, apoiada por interesses internos e externos. Reconhecer os erros de Brizola não significa apagar a responsabilidade de quem destruiu a democracia.
O exílio altera radicalmente a escala do personagem. O homem que antes contava com o aparelho do Estado, com as ruas e com o rádio passa a viver entre vigilância, deslocamentos, alianças clandestinas e incertezas. A experiência uruguaia revela a diferença entre a política de massas e a política conspirativa. A tentativa de organizar resistência armada, os contatos com Cuba, o Movimento Nacional Revolucionário e as experiências guerrilheiras compõem uma fase de desorientação progressiva.
O livro não romantiza esse período. A autora mostra a coragem dos exilados, mas também as divisões internas, as precariedades materiais, as suspeitas e os fracassos. A resistência armada aparece como resposta ao fechamento completo do sistema político, mas também como estratégia incapaz de encontrar apoio social suficiente. O Brizola da Legalidade, capaz de mobilizar multidões, precisa agora operar num universo de pequenos grupos, informações incompletas e expectativas frequentemente frustradas.
A morte de Che Guevara aprofunda sua crise. O mito revolucionário, que durante algum tempo alimentara sua esperança, revela também sua dimensão sacrificial. Brizola percebe que a disposição moral para lutar não basta para produzir vitória política. É necessário compreender a sociedade, organizar forças, construir legitimidade e escolher os meios adequados. A biografia sugere que essa aprendizagem foi dolorosa, mas decisiva.
A dimensão privada do exílio acrescenta outra camada à narrativa. As dificuldades financeiras, as tensões familiares, as doenças, os lutos e os problemas enfrentados pelos filhos mostram que o líder não existia fora do homem. A política incide sobre os corpos e os afetos. O exilado não é apenas uma figura histórica perseguida pelo regime; é também um marido, um pai e um homem submetido à saudade, à impotência e ao desgaste cotidiano.
Quando retorna ao Brasil, em 1979, Brizola é recebido como quem regressa de uma longa noite. A passagem por São Borja, a visita aos túmulos de Getúlio Vargas e João Goulart e a multidão que o acompanha constituem uma cerimônia de continuidade. Ele volta sem renunciar à memória do passado, mas encontra um país profundamente modificado. A oposição se fragmentara, novas lideranças surgiam e o trabalhismo já não ocupava sozinho o campo da representação popular.
A disputa pela reconstrução do PTB e o surgimento de Luiz Inácio Lula da Silva evidenciam essa mudança. Brizola desejava um partido amplo, nacional e socialmente articulado, capaz de reunir trabalhadores, setores médios e grupos populares. Lula emergia de uma experiência sindical distinta, fundada na autonomia operária e na desconfiança em relação às antigas estruturas trabalhistas. O conflito entre os dois não deve ser lido apenas como choque de personalidades. Ele expressa a passagem de uma cultura política para outra.
A redemocratização, desse modo, não representa a restauração do mundo anterior ao golpe. Brizola retorna como herdeiro de uma tradição, mas precisa disputar espaço num cenário novo. Sua força histórica é também sua dificuldade de adaptação. Ele continua a falar com a urgência de 1961, enquanto a sociedade brasileira se reorganiza em torno de novas linguagens, novos partidos e novas formas de mobilização.
É nessa tensão entre fidelidade e anacronismo que o livro alcança sua maior densidade. Brizola foi um dos últimos grandes políticos brasileiros a acreditar que a palavra pública podia modificar a estrutura do real. Essa crença produziu escolas, obras, campanhas e movimentos de extraordinária potência. Também produziu confrontos que nem sempre conduziram à vitória. Sua grandeza está inseparável de seus limites.
Karla Monteiro escreve com senso de cena, atenção ao detalhe e consciência da responsabilidade documental. A extensa utilização de jornais, depoimentos, documentos de Estado, arquivos de inteligência, memórias e referências bibliográficas dá sustentação a uma narrativa que deseja ser, ao mesmo tempo, histórica e literária. A prosa possui movimento, alterna o íntimo e o público, aproxima o leitor dos ambientes e preserva a tensão entre fato e interpretação.
O mérito essencial da autora está em compreender que uma boa biografia não deve proteger seu personagem da contradição. Brizola aparece como herdeiro de Vargas, adversário de Lacerda, aliado e rival de Jango, defensor da soberania, administrador público, líder popular, conspirador, exilado, marido e pai. Nenhuma dessas identidades é suficiente para encerrá-lo. Elas se sobrepõem, se corrigem e, por vezes, se contradizem.
O lobisomem do título não é somente aquele que assusta o império. É também aquele que revela, sob a aparência diurna da ordem, a violência escondida nas instituições, a dependência camuflada de soberania e a desigualdade apresentada como normalidade. Brizola enxergou essas fraturas e tentou enfrentá-las com os instrumentos de que dispunha. Nem sempre escolheu os meios mais eficazes, mas nunca aceitou a ideia de que a injustiça deveria ser preservada em nome da tranquilidade.
Ao final, Brizola: Lobisomem contra o império permanece como uma obra sobre um homem, mas também sobre a política brasileira em seu momento mais febril. O livro devolve ao leitor uma figura que não cabe nem no folclore partidário nem na galeria simplista dos vencidos. Brizola é apresentado como promessa, excesso, legado e ferida. Sua trajetória continua a interpelar o presente porque expõe uma questão que a democracia brasileira ainda não resolveu: como conciliar soberania popular, justiça social e estabilidade institucional sem transformar a prudência em imobilismo nem a radicalidade em autodestruição?
A força da biografia nasce justamente dessa pergunta sem resposta definitiva. Karla Monteiro não encerra o debate sobre Brizola. Ela o reabre com inteligência, pesquisa e vigor narrativo. Seu livro mostra que certas personagens não desaparecem quando morrem. Permanecem rondando a história, como lobisomens políticos, sempre prontos a reaparecer quando a República volta a confundir silêncio com paz.
