Carlos Bastos: anotações para um perfil

Elmar Bones

Carlos Bastos levou com ele um bom da naco da memória de uma ou duas gerações de jornalistas, especialmente daqueles que militam ou militaram na imprensa do Rio Grande do Sul no último meio século.

Sim, restam relatos, entrevistas, depoimentos… Nada será comparável à verve e ao repertório com que nos brindava em cada uma das intermináveis conversas, que morreram com ele neste julho de 2026.

Conheci-o em 1972 na Folha da Manhã. Tinha 38 anos, já era um veterano a quem todos recorriam em momentos de dúvida ou desentendimento.

Indicado pelo João Souza, outro baluarte, foi chamado, exatamente, para resolver um conflito na editoria de política entre alguns repórteres jovens e afoitos e calejados conservadores apegados ao “espírito da casa”.

O jornal apostava na abertura democrática, queria romper com o oficialismo que imperava na imprensa sob a ditadura. Duvidar das versões oficiais, ir atrás dos fatos, ouvir a oposiçao.

Era um fio de navalha. Tinha que empolgar os jovens repórteres,  sem afrontar o “espírito da casa”… e o regime militar, ainda em pleno vigor (um censor “visitava” a redaçao) .

Bastos me impressionou desde o primeiro momento pelo “modus operandi”. Uma interminável conversa com uma repórter em crise ou uma entrevista com o presidente da Assembléia… parecia que o trabalho não lhe exigia esforço algum. O sorrisinho sedutor, a fala mansa, ele tirava o melhor de cada situação.

Não era brilhante redator, mas era conciso, objetivo, como aprendera na Última Hora, a grande escola dessa geração de jornalistas.

Brizolista, foi desde a primeira hora filiado ao PDT e até nisso aparecia o seu temperamento ponderado: na coluna política, que escreveu durante anos no Jornal do Comércio, é um desafio achar um tópico que indique o partidarismo do redator.

Suas melhores qualidades, acredito, se revelavam no repórter e no analista político, que não teve grandes oportunidades.

Como tinha também um talento incomum para a gestão e a direção de pessoas, em boa parte de sua carreira, foi chamado para cargos de chefia, até hoje lembrado e aclamado pelas equipes que liderou.