CMPC: Nova fábrica, velhos impactos?

EDUARDO RAGUSE*


Por volta das 13h40, do dia 05 de maio de 2026, ocorreu a despressurização de emergência da caldeira da fábrica de celulose da empresa CMPC, no município de Guaíba.

O evento causou grande susto e apreensão entre os moradores do entorno da indústria devido ao ruído fortíssimo, odor e grande quantidade de emissões atmosféricas (com chuvisqueiro nas casas dos moradores). Há relatos de pessoas com dor nos ouvidos, dor de cabeça e mal-estar, e de animais domésticos assustados. Apesar da empresa informar em comunicado aos morados de que a situação se normalizaria em aproximadamente 20 minutos, a duração foi de cerca de uma hora.

A despressurização é uma ação emergencial para evitar acidentes maiores como rompimentos, vazamentos ou explosão, e segundo informações extraoficiais, teria sido
realizada por ter sido encontrada uma “rachadura” em alguma das estruturas do equipamento. Em resposta aos diversos moradores que acionaram o número de
Emergência Ambiental da FEPAM, o órgão ambiental respondeu: “A CMPC informou que tiveram que realizar esse procedimento de forma emergencial visto suspeita de vazamento da caldeira.”

Não é a primeira vez que ocorrem episódios de emergência na empresa, principalmente após a quadruplicação de sua capacidade produtiva, ocorrida em 2015, autorizada através de um licenciamento ambiental que se mostrou, se não completamente
equivocado tecnicamente, com muitos limites que deveriam ser revistos, já que claramente o ambiente local demonstra não ter capacidade de suporte para os riscos e impactos causados, que foram objeto de muito enfrentamento de moradores locais, e até processo judicial por crime ambiental, situação que foi acomodada” através de um Termo de Ajustamento de Conduta firmado pela CMPC com o Ministério Público, e por uma
compra estratégica de casas de parte destes moradores, pela empresa.

Segue um pequeno histórico:
Em maio de 2015, cinco trabalhadores da empresa foram hospitalizados e a empresa fechada pela FEPAM após vazamento de dióxido de cloro.

Em maio de 2016, dez funcionários foram levados a atendimento médico após vazamento do mesmo gás.

Em fevereiro de 2017 houve um acidente grave nesta mesma caldeira, inaugurada há menos de dois anos, levando à paralização total da fábrica nova até novembro de 2017. O caso foi parar em uma disputa judicial entre a empresa e a seguradora Mapfre, que teve que pagar R$ 1,1 bi de indenização.

Em fevereiro de 2019 um trabalhador morreu após ser prensado por equipamento na fábrica.

Em setembro de 2022 houve incêndio na caldeira da fábrica antiga, que segue em operação.

Em fevereiro de 2025 houve, novamente, um grave vazamento de cloro, desta vez ultrapassando os limites do pátio da empresa, levando moradores ao pânico, com sensação de sufocamento, forte ardência e queimação nos olhos e nariz, náusea, salivação e dor de cabeça. Atingiu também trabalhadores e levou alguns ao desmaio. Parte da empresa foi evacuada e a operação paralisada.

Já ocorreu despressurização emergencial da caldeira inclusive durante a noite, em abril de 2025, onde apesar de ter sido noticiado ser uma operação de rotina a empresa, depois de pressionada, admitiu aos moradores que foi mais uma ação emergencial.

Em junho de 2025 ocorreu a morte de um trabalhador terceirizado na fábrica, sem detalhes públicos sobre o ocorrido.

Fora a constante geração de ruído (somente legalizada por uma outra “acomodação”, desta vez no Plano Diretor de Guaíba) e de odor de compostos reduzidos de enxofre, que ultrapassa os muros da empresa, atingindo diferentes pontos de Guaíba, a depender da direção dos ventos, desrespeitando de maneira continua a Licença de Operação.

Estes episódios recorrentes, e outros que possivelmente não venham a público, acendem um alerta quanto à qualidade e aos níveis de controle da operação e de
segurança do trabalho desta indústria de alto risco, que está instalada há poucos metros de centenas de residências da zona sul de Guaíba. Fica explicito também a falta de um Plano de Emergência, ou mesmo qualquer tipo de orientação aos moradores do entorno em casos de acidentes na empresa, os moradores literalmente não sabem para onde correr caso precisem se proteger de algum vazamento de gás tóxico, incêndio ou explosão na
fábrica.

É evidente, há anos, a necessidade de se garantir melhores condições de segurança aos trabalhadores da CMPC e de qualidade de vida para os moradores do entorno, fatos que, mesmo sendo de alta gravidade, não tem medidas eficazes tomadas pelas autoridades responsáveis à nível municipal ou estadual, além disto estes fatos não são sequer discutidos pela sociedade, construindo uma aparência de que as operações
industriais e os monocultivos de eucaliptos no Bioma Pampa não causam nenhum impacto, o que é reforçado pelas ações de mídia da CMPC, a patrocinadora do
Campeonato Gaúcho de Futebol, que até tem um time fictício chamado Defensores da Natureza!

Mas, para além do que ocorre onde a CMPC já opera, é preciso alertar que a empresa está em processo de licenciamento ambiental para a instalação de uma fábrica ainda maior que a de Guaíba, no município vizinho de Barra do Ribeiro. Utilizando o mesmo sistema de branqueamento, que não é Totalmente Livre de Cloro, o que seria a melhor tecnologia disponível. Aqui questionamos também, ainda é necessário seguir
branqueando papel?

Já foram identificadas, por um grupo multidisciplinar de técnicos e pesquisadores, uma série de omissões, lacunas e problemas no Estudo de Impacto Ambiental do chamado “Projeto Natureza”, que faria uso massivo de água do Guaíba e consequentemente despejaria uma nova carga de poluição também massiva em nosso querido e tão maltratado manancial (242 milhões de litros por dia, que somados aos 154 milhões de litros já despejados por dia pela fábrica de Guaíba equivalem à um volume superior ao que Porto Alegre gera de esgoto diariamente), seus poluentes incluem o despejo potencial de dioxinas e furanos – altamente tóxicos, e elementos como nitrogênio e fósforo que podem
agravar os episódios de floração de cianobactérias, que levam àquela conhecida coloração esverdeada e às alterações de gosto e odor da nossa água e que também podem gerar substâncias tóxicas. Mais de mil pescadores podem ser impactados, segundo estimativas desta comunidade tradicional (que não estão sequer sendo consultados), pois vários peixes sensíveis podem sofrer com os efluentes e com o revolvimento do fundo do Guaíba durante as obras. Seria ainda impactada a Praia das Areias Brancas, na Ponta do Salgado, na Barra do Ribeiro, local onde seria instalada a tubulação de efluentes até o Guaíba.

O local que a empresa quer se instalar é terra Mbya Guaraní, conhecida como Ponta da Formiga, e já é público o imenso assédio que este povo está sofrendo por parte da empresa, que está inclusive pressionando o Ministério Público Federal para que não siga com seu trabalho de defesa dos direitos deste povo originário à Consulta Livre, Prévia e Informada, pressionam também a FUNAI para que garanta sua anuência e a FEPAM para que garanta sua licença ambiental. O Governo do Estado já assinou Protocolo de Intenções garantindo isenções e diferimentos fiscais.

Outro aspecto que precisa de destaque é o impacto nas estradas gaúchas, segundo os dados da própria empresa, até 2032, haveria um incremento de mais de 25 caminhões bi-trem de 36 toneladas, por hora, circulando em nossas estradas com toras de eucalipto, considerando seu regime de operação de 24 horas por dia, 7 dias por semana, teríamos um incremento de mais de 600 bi-trem por dia, cerca de 19 mil caminhões de quase 20 metros de comprimento e 36 toneladas a mais circulando por mês. A intensa movimentação de caminhões de grande porte para o transporte de madeira dos plantios até as fábricas, resulta em maior trânsito e riscos nas estradas, causando acidentes frequentes (na maioria dos casos fatais), além de desgastes e danos nas rodovias e estradas vicinais, e emissões de Gases
de Efeito Estufa neste transporte.

Além disto, todo o impacto que o aumento dos monocultivos de eucaliptos irá ocasionar no Bioma Pampa (área de expansão dos plantios visada pela empresa), não está sendo considerado no processo de licenciamento ambiental. Maiores informações sobre
estes impactos e sobre quem é a CMPC podem ser lidas no recente estudo produzido pela Amigas da Terra Brasil: Expansão dos desertos verdes em um Pampa em extinção.

Os estudos da empresa também não fazem nenhuma Avaliação de Impactos à Saúde.

A sociedade gaúcha deve mais uma vez se mobilizar, assim como fez no caso da Mina Guaíba, que seria a maior mina de carvão à céu aberto do país, um projeto que no início parecia impossível de interromper, mas com organização, mobilização, informações técnicas independentes e de qualidade e muito debate público, se mostrou ser um projeto sem viabilidade ambiental e social. Será que o Projeto Natureza tem esta viabilidade? Será que é bom para um RS em meio ao colapso ambiental?

Dia 15/05, as 15:30, na Assembleia Legislativa do RS, em Porto Alegre, ocorrerá uma Audiência Pública para discutir os impactos socioambientais e o licenciamento ambiental desta nova fábrica de celulose! O assunto é de interesse de todas e todos os gaúchos, desta e das futuras gerações! Tá feito o convite pra peleia!

*Engenheiro Ambiental, integra a organização Amigas da Terra Brasil