
CLEBER DIONI TENTARDINI
O Jardim Botânico de Porto Alegre (JBPOA) tem 67 anos e é considerado um dos cinco melhores e maiores do Brasil. Possui 32 coleções científicas que somam mais de 4.300 plantas, incluindo espécies raras, ameaçadas de extinção e endêmicas, que são encontradas apenas no RS. No local há animais silvestres, entre mamíferos, répteis, anfíbios e peixes, e mais de 100 espécies de aves.
Em 2003, o JBPOA foi declarado Patrimônio Cultural do Estado (Lei nº 11.917). O que não dá para aceitar é que até hoje esse museu vivo da flora rio-grandense não faça parte do Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre.
Um projeto do então vereador Marcelo Sgarbossa, do PT na época, propôs em 2017 o tombamento do imóvel, o que impediria quaisquer alterações que descaracterizassem o Jardim Botânico. A proposta foi analisada por duas comissões, mas não chegou a ser votada no plenário da Câmara Municipal.
Aquele espaço de conservação já perdeu mais da metade dos 81,5 hectares de sua área original, desde que foi criado em 1958. Restaram 36 ha. Alguns falam em 39ha porque incluem a área ao lado, onde a Fepam mantinha laboratórios. Hoje, uma parte daquele espaço é usada como depósito de veículos oficiais. Em outra parte do terreno, nos fundos, há coleções arbóreas.
Acompanhei todo o processo de extinção da Fundação Zoobotânica do RS, a partir de agosto de 2015, decidida pelo tenebroso governo José Sartori e apoiada pelos vendilhões do templo, praticamente os mesmos de sempre. Publiquei mais de 60 reportagens sobre o JBPOA, o Museu de Ciências Naturais e o Parque Zoológico. As três instituições estavam amparadas pela FZB. Rendeu o livro Patrimônio Ameaçado (Editora JÁ).

Até 2014, estava na presidência da fundação a geógrafa Arlete Pasqualetto, que permaneceu durante toda a gestão Tarso Genro. Inclusive, naquele ano foi produzida a última “Lista Vermelha”, de espécies ameaçadas de extinção, uma obrigação legal que o Estado vem descumprindo. Em 2015, com o novo governo, do MDB, assumiu a FZB o geólogo José Wenzel, analista ambiental da Fepam na época, e como era um defensor daquele espaço de conservação, durou seis meses apenas.
Com o fim da FZB, cessaram as verbas de instituições nacionais e internacionais para grandes projetos e pesquisas científicas, trabalhos que levaram a fundação a ser reconhecida mundialmente. Recursos valiosos que eram usados inclusive para manutenção dos acervos e do seu patrimônio material. Com orçamento reduzido, até uma reforma no telhado do prédio do Museu demorou dez novelas. Ficou pronto, enfim. Pelo menos não chove mais dentro das salas.
O governo Leite gastou os tubos para elaborar editais para concessão à iniciativa privada do JB, do Museu e Zoo. No leilão do Zoo, ninguém deu nem um punhado de alfafa como lance. Depois, vieram os projetos mirabolantes para o JB e o Museu, com seu riquíssimo acervo. Estiveram por lá a convite do governo estadual, por exemplo, administradores do Bondinho do Pão de Açucar, da Opus – a gigante do entretenimento pertencente à família Zaffari, entre outros anônimos. Nenhuma informação a respeito e, como se sabe, a falta de transparência dá margem a boatos e levantou-se a hipótese de o Zaffari querer construir um grande centro cultural ou um shopping Bourbon no local. O diz que me disse ganhou volume e obrigou o grupo supermercadista a emitir nota à imprensa, agora sim, informando que isso tudo era fantasioso. Na verdade, o empreendimento existe, o tal Belvedere, e está sendo construído a duzentos metros do JB, ladeira acima na Tarso Dutra, continuação da Salvador França.
A atual diretoria do JB faz malabarismos com os parcos recursos. Sem autonomia, com o orçamento acorrentado ao cofre da administração direta do governo, através da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA), o futuro da área continua incerto. Afinal de contas, a quem interessa essa vulnerabilidade do JB?
É preciso entender que o Jardim Botânico não é um mero espaço de lazer, um simples depósito de plantas ou um parque para a iniciativa privada instalar uma roda gigante e terceirizar a venda de hambúrguer em contêiner.
O JB é um guardião de espécies raras e ameaçadas de extinção de plantas e árvores nativas do Rio Grande do Sul, com banco de sementes e viveiro valiosíssimos e um espaço sem igual na cidade para ações de educação ambiental. Assim como o Museu de Ciências Naturais, que possui o maior acervo de material-testemunho da biodiversidade tanto terrestre como aquática do Estado. Isso é motivo não só para comemorar, mas também para defender.
