Entre o arquivo e a memória: Leonel Brizola no fio da história

Por Cristiano Goldschmidt

Leonel Brizola é um personagem político que parece ter sido concebido pela História para exceder qualquer tentativa de síntese. Sua trajetória contém a pobreza rural, a formação autodidata, o trabalhismo, a engenharia, a paixão pela escola pública, o nacionalismo econômico, a resistência constitucional, o exílio, a tentação da luta armada, a reinvenção social-democrata, o conflito com a imprensa e a persistência de uma imaginação política que nunca se acomodou inteiramente às formas disponíveis de poder. Em torno dele, a memória brasileira produziu imagens divergentes: o herdeiro de Vargas, o governador das encampações, o comandante da Legalidade, o radical dos Grupos de Onze, o exilado perseguido, o adversário de João Goulart, o fundador do PDT, o candidato presidencial que quase chegou ao segundo turno em 1989, o inimigo declarado da Rede Globo e o velho líder cuja presença continuou a perturbar o consenso político mesmo depois de sua morte.

É justamente essa pluralidade que torna No Fio da História: A Vida de Leonel Brizola (d’fato Editora Jornalística), de Cleber Dioni Tentardini, uma obra de especial interesse. O livro não pretende eliminar as contradições de Brizola. Tampouco o reduz a uma chave única, seja a do herói nacionalista, seja a do caudilho temperamental, seja a do político radicalizado pela Guerra Fria. Sua contribuição mais expressiva está em reunir, numa mesma narrativa, o homem, o militante, o administrador, o marido, o pai, o irmão, o exilado, o leitor de conjunturas e o sujeito atravessado pelos conflitos de seu tempo. A biografia se constrói, assim, como uma tentativa de recompor a densidade humana de uma figura que, ao longo de décadas, foi frequentemente sequestrada por caricaturas políticas.

A comparação com Brizola: Lobisomem contra o Império (Companhia da Letras), de Karla Monteiro, é inevitável e produtiva. As duas obras se aproximam pelo interesse em retirar Brizola da superfície das homenagens partidárias e das simplificações retrospectivas. Ambas o apresentam como personagem de alta voltagem histórica, cuja biografia se mistura às crises decisivas da República brasileira. No entanto, seus métodos, suas escalas de observação e suas ênfases são diferentes.

É importante situar o leitor diante de uma característica editorial decisiva: Lobisomem contra o Império é apresentado como Volume 1. Portanto, trata-se de uma obra concebida como parte de um projeto biográfico mais amplo, e não de um relato que necessariamente pretenda encerrar toda a trajetória de Brizola em um único tomo. O material disponível não permite afirmar quando será publicado um eventual Volume 2, nem quais períodos ele abrangeria. Essa informação recomenda cautela ao falar de temas que não ocupam o centro do primeiro volume. Não se deve tratá-los como ausências definitivas, mas como dimensões que permanecem fora do recorte principal da primeira entrega ou que poderão ser retomadas posteriormente.

Dentro desse recorte, Monteiro compõe um retrato de forte impulso narrativo, especialmente concentrado na formação política de Brizola, no nacionalismo econômico, na Campanha da Legalidade, nas tensões do período que antecede o golpe de 1964 e nos anos de exílio, quando a radicalização política se torna inseparável da experiência pessoal. Cleber Dioni Tentardini, por sua vez, trabalha numa chave mais panorâmica, jornalística e documental, acompanhando o personagem desde as raízes familiares até a morte, a herança política e as disputas de memória que se prolongaram depois de 2004.

A diferença fundamental entre os livros reside na maneira como cada autor organiza o tempo histórico. Em Monteiro, o tempo parece avançar em direção a uma zona de combustão. A narrativa conduz o leitor à Legalidade, às encampações, à crise de 1961, à radicalização de 1962 e 1963, ao golpe de 1964 e ao exílio. A própria arquitetura do livro, com capítulos como “A Hora do Lobisomem”, “Legalidade”, “Legalidade violada”, “Sociedade carbonária”, “Véspera” e “Ao desfecho”, revela uma dramaturgia concentrada na formação do Brizola político e na progressiva transformação de sua linguagem de poder.

Já Tentardini acompanha a trajetória em amplitude maior. Seu Brizola emerge de um mundo social específico, o interior do Rio Grande do Sul, e passa por diferentes estações históricas sem que a importância de uma apague a outra. A comparação, entretanto, precisa respeitar o fato de que se está colocando lado a lado uma biografia de alcance integral e o primeiro volume de uma biografia projetada em continuidade. A extensão mais ampla de Tentardini não significa, por si só, que Monteiro tenha encerrado sua interpretação antes de abordar todos os períodos da vida do personagem.

Essa escolha permite que No Fio da História devolva à infância e à juventude de Brizola um valor explicativo que ultrapassa o anedótico. O menino criado sob as dificuldades da família de dona Onívia, o jovem submetido à instabilidade econômica, o estudante que precisou trabalhar, o rapaz que atravessou Porto Alegre em busca de educação e de uma profissão, o aluno da Escola Técnica de Agricultura e o futuro engenheiro constituem, no livro de Tentardini, mais do que uma sequência de episódios formativos. São as experiências de um sujeito que aprendeu cedo que a ascensão social não era uma abstração individual, mas uma questão de acesso, oportunidade, escola, trabalho e reconhecimento.

Nesse ponto, o livro se diferencia de modo relevante da obra de Karla Monteiro. A infância de Brizola também aparece em Lobisomem contra o Império, sobretudo em sua dimensão familiar e regional. Monteiro reconstrói a origem do nome, a pobreza, a formação inicial e o ambiente social do noroeste gaúcho com notável atenção narrativa. Entretanto, Tentardini amplia a espessura documental dessa formação. A passagem pela escola técnica, os trabalhos desempenhados, as dificuldades burocráticas, a experiência em Porto Alegre, a construção do estudante e do profissional, a escolha pela engenharia e as relações com instituições educacionais aparecem como elementos decisivos de uma pedagogia política. O Brizola de Tentardini não apenas se torna um líder porque possui temperamento, coragem ou vocação. Ele é produzido por uma longa luta contra a precariedade e pela convicção de que a instrução pode alterar o destino de uma comunidade.

Essa perspectiva também ilumina uma dimensão muitas vezes secundarizada nas biografias políticas: a engenharia como linguagem de governo. Para Brizola, obras públicas, pontes, estradas, redes de energia, escolas, água, transporte e planejamento não pertenciam a um campo administrativo separado da política. Eram a própria política quando entendida como capacidade de organizar materialmente a vida coletiva. Tentardini explora com especial interesse o Brizola administrador, o prefeito de Porto Alegre, o secretário de Obras Públicas e o governador que articula desenvolvimento, infraestrutura e educação. A biografia encontra aí um de seus méritos centrais: mostrar que o nacionalismo brizolista não se limitava à retórica anti-imperialista. Ele pretendia produzir soberania por meio de instituições, obras, serviços e capacidade estatal.

A encampação da companhia elétrica e a disputa em torno da empresa telefônica, episódios que ocupam lugar decisivo em Lobisomem contra o Império, também aparecem em Tentardini, mas ganham uma moldura complementar. Monteiro enfatiza a dimensão internacional desses conflitos, o embate com os interesses norte-americanos, a reação diplomática dos Estados Unidos, a imagem de Brizola como figura mais perigosa que Fidel Castro e a passagem do nacionalismo gaúcho para uma crise de alcance hemisférico. Seu Brizola é observado como ameaça geopolítica, especialmente pelos arquivos, telegramas e registros que revelam a vigilância norte-americana sobre o governador e depois deputado.

Tentardini, sem abandonar esse eixo, desloca o foco para as consequências administrativas e sociais das decisões. A energia, a educação, os títulos públicos, os mecanismos de financiamento, a criação de estruturas estatais, a industrialização e a expansão das escolas aparecem como partes de um mesmo projeto. O efeito dessa abordagem é expressivo: o leitor deixa de enxergar a encampação apenas como gesto de enfrentamento internacional e passa a compreendê-la como parte de uma concepção de governo. O conflito com o capital estrangeiro, nesse enquadramento, não é uma atitude isolada de bravata. Está vinculado a uma pergunta sobre quem controla os serviços essenciais, quem decide os investimentos e quem se beneficia da infraestrutura de um país.

Outro aspecto em que No Fio da História se distingue é a atenção concedida às políticas educacionais. Em Karla Monteiro, a educação aparece associada à formação de Brizola e à sua prática política, especialmente nas escolas construídas durante a administração de Porto Alegre e no programa educacional do governo gaúcho. Tentardini, contudo, faz desse tema uma espécie de coluna vertebral da biografia pública. As “brizoletas”, a expansão do ensino primário, a criação de milhares de estabelecimentos, o esforço para combater o analfabetismo, a formação técnica e, mais tarde, os CIEPs no Rio de Janeiro são apresentados como continuidade de uma ideia de Estado.

Essa ênfase também permite perceber aquilo que, no primeiro volume de Monteiro, permanece menos desenvolvido ou fora do centro estrutural da narrativa. Lobisomem contra o Império é particularmente forte ao narrar o Brizola dos momentos de ruptura, o homem da insubmissão, da crise e da ação limítrofe. Seu Volume 1 acompanha com intensidade a formação do líder e sua passagem pelos grandes conflitos que antecedem o golpe e marcam o exílio. Não seria correto concluir, porém, que os temas administrativos e educacionais estão definitivamente ausentes do projeto da autora. O mais preciso é dizer que, no tomo publicado, eles não possuem o mesmo peso organizador que assumem na biografia de Tentardini e que sua eventual continuidade poderá ampliar esse quadro.

A diferença entre os livros fica mais evidente quando se observa o percurso posterior ao exílio. Tentardini acompanha de maneira extensa a volta ao Brasil, a disputa pelo antigo PTB, a criação do PDT, a eleição para o governo do Rio de Janeiro, a relação conflituosa com Fernando Collor, a campanha presidencial de 1989, o apoio a Lula no segundo turno, o segundo governo fluminense, as Diretas Já, os CIEPs, o combate à Rede Globo e o declínio eleitoral sem desaparecimento político. Monteiro, no Volume 1, conduz o leitor até a reconstrução política ligada ao retorno, à anistia, à disputa partidária e à reinvenção do trabalhismo, mas o próprio caráter seriado da obra impede que se tome esse ponto como o limite definitivo de sua interpretação.

O princípio vale também para temas como a maturidade política, os governos fluminenses, a campanha presidencial de 1989, a morte e a memória póstuma. Em No Fio da História, eles já aparecem integrados a uma narrativa de conjunto. Em Lobisomem contra o Império, a narrativa se concentra mais intensamente no caminho que leva Brizola da formação ao exílio e na reconstrução inicial de sua presença política. O leitor deve distinguir, portanto, entre recorte publicado e ausência absoluta.

A Campanha da Legalidade constitui outro ponto de contato entre os dois livros, mas também revela diferenças de perspectiva. Monteiro constrói uma narrativa intensa da crise de 1961, dando relevo à cadeia de emissoras, às negociações militares, à mobilização civil, às ordens de bombardeio, às hesitações de João Goulart e ao compromisso parlamentarista. O episódio aparece como momento de cristalização do mito político de Brizola. O governador transforma a defesa constitucional em espetáculo de rádio, disciplina, improvisação, risco e mobilização popular.

Tentardini também dedica espaço amplo a esse acontecimento, incorporando documentos, depoimentos, reproduções de manchetes, imagens e testemunhos. Sua particularidade está em apresentar a Legalidade como acontecimento vivido por uma coletividade, não apenas como gesto de um líder. A cidade sitiada, os quartéis, os civis, os militares que hesitam, os operadores de rádio, os oficiais subalternos, as redes de comunicação e os personagens secundários ganham presença. O que em Monteiro tem a força de uma narrativa de crise, em Tentardini assume a forma de uma memória coral. Essa é uma de suas melhores qualidades.

A memória coral é importante porque desfaz a ilusão de que a história se realiza apenas pela vontade dos grandes homens. Brizola é o centro da biografia, mas não é seu único agente. Tentardini recupera jornalistas, colaboradores, familiares, testemunhas, antigos companheiros, adversários e pesquisadores. As fotografias e legendas não funcionam como decoração editorial. Elas integram a construção do argumento, introduzindo corpos, lugares, documentos e marcas materiais do passado. O arquivo aparece como matéria viva, capaz de corrigir a abstração dos relatos políticos.

Essa vocação documental se torna especialmente evidente nos capítulos dedicados ao golpe de 1964 e ao exílio. A obra recupera testemunhos sobre as últimas horas de João Goulart em Porto Alegre, o cerco militar, a morte do coronel Alfeu de Alcântara Monteiro, a fuga de Brizola e a travessia para o Uruguai. Ao lado da narrativa, surgem documentos da CIA, registros diplomáticos, referências a relatórios de órgãos de repressão, entrevistas e pesquisas acadêmicas. O livro não trata o exílio como simples intervalo entre duas fases de uma carreira. Ele o apresenta como um segundo nascimento político, marcado pela perda, pela radicalização, pelas tentativas de guerrilha, pelo fracasso e, posteriormente, pela reelaboração estratégica.

Karla Monteiro dedica grande atenção a essa fase. Seu livro é particularmente vigoroso ao mostrar Brizola no Uruguai, sua aproximação com organizações revolucionárias, a influência da Revolução Cubana, as tentativas de organizar focos armados, o impacto da morte de Che Guevara e o afastamento progressivo da luta armada. A autora examina também a Frente Ampla, a relação com João Goulart, o cotidiano familiar e a reinvenção ideológica que levaria o exilado de volta à política institucional.

Tentardini acrescenta a esse percurso uma camada mais extensa de testemunhos e consequências. O exílio não aparece apenas como fase de atividade conspirativa, mas como experiência doméstica, familiar e existencial. O leitor vê o político sob vigilância, o marido e pai atravessado por perdas, o homem obrigado a negociar sua sobrevivência material, o líder que precisa rever seus próprios métodos. A biografia evidencia que o fracasso da luta armada não produziu apenas uma derrota estratégica. Produziu uma crise de identidade, uma revisão de expectativas e uma mudança na maneira de imaginar a ação política.

Essa é uma das abordagens que, no Volume 1 de Monteiro, permanecem menos desenvolvidas ou subordinadas a outros eixos narrativos, sem que isso deva ser interpretado como lacuna definitiva. Em Lobisomem contra o Império, o exílio é visto sobretudo como laboratório de radicalização e como espaço de disputa entre projetos para o futuro do Brasil. Em No Fio da História, ele também é o lugar da intimidade ferida, do desgaste familiar, da espera, da sobrevivência e da transformação gradual do militante. A história pública não desaparece, mas passa a conviver com a precariedade privada.

O livro de Tentardini é igualmente importante por acompanhar Brizola depois da anistia. Essa fase muitas vezes recebe tratamento secundário em narrativas que encontram no golpe e no exílio o ponto culminante da biografia. Tentardini, entretanto, acompanha a volta ao Brasil, a disputa pelo antigo PTB, a criação do PDT, o “socialismo moreno”, a eleição para o governo do Rio de Janeiro, a campanha presidencial de 1989, o segundo governo fluminense, o conflito com a Rede Globo, a morte e a memória póstuma.

O caráter de Volume 1 torna mais prudente a comparação. Monteiro não deve ser cobrada, nesta leitura, como se sua obra já tivesse apresentado a biografia integral de Brizola. Seu primeiro tomo possui uma unidade própria e termina num ponto que pode funcionar como passagem para desenvolvimentos posteriores. Ainda assim, quando se compara o livro atualmente publicado com o de Tentardini, percebe-se que No Fio da História oferece ao leitor uma cobertura mais extensa da maturidade política, das políticas públicas, das campanhas eleitorais tardias e do legado posterior à morte. Essa é uma diferença objetiva entre as obras disponíveis, não um juízo sobre aquilo que uma futura continuação poderá ou não realizar.

Nesse arco mais amplo, Tentardini demonstra que a biografia de Brizola não se encerra quando o personagem retorna do exílio. A redemocratização não é apresentada como epílogo apaziguado, mas como novo campo de batalha. O velho líder precisa lidar com um sistema partidário diferente, com a ascensão do sindicalismo de novo tipo, com a emergência do Partido dos Trabalhadores, com a televisão como instrumento de poder e com um eleitorado submetido a linguagens políticas inéditas. Brizola envelhece, mas não se torna irrelevante. Sua dificuldade de adaptação é também a medida de sua permanência.

Karla Monteiro acompanha o retorno, a disputa pelo PTB e a transformação de Brizola em líder da social-democracia trabalhista, mas o primeiro volume concentra sua energia na passagem do exílio à reorganização política. Tentardini abre mais espaço para a experiência administrativa do Rio de Janeiro, para os programas sociais, para a construção da Passarela do Samba, para os CIEPs, para as políticas de urbanização e para o conflito diário com a imprensa. Assim, ilumina uma fase que costuma ser reduzida ao antagonismo com a Rede Globo ou à derrota presidencial de 1989.

O mérito está em mostrar que esse antagonismo não era um apêndice folclórico da carreira. A disputa com a televisão e com o jornalismo empresarial fazia parte do conflito entre dois projetos de país e duas formas de produção da realidade pública. Brizola entendia que a imprensa não apenas narrava a política, mas organizava percepções, hierarquizava problemas e definia reputações. Tentardini acompanha esse embate sem transformar o personagem em vítima absoluta. Ele registra a potência de sua denúncia, mas também a natureza explosiva de seu estilo, seu modo de responder aos adversários e os limites de sua comunicação política.

Essa disposição de preservar a ambivalência é uma das virtudes mais sólidas do livro, que não transforma Brizola em santo para reconhecer sua grandeza. Tentardini permite que convivam a coragem constitucional e a inclinação ao confronto, o planejamento público e o personalismo, a defesa da democracia e a sedução por soluções de exceção, a capacidade de mobilizar multidões e a dificuldade de construir alianças duradouras, o compromisso com a educação e a retórica que, em certos momentos, alimentou o medo dos adversários. A personagem cresce quando não é protegida de suas próprias tensões.

Nesse sentido, a obra se afasta de uma biografia puramente celebratória. Seu tom é favorável a Brizola, sem dúvida, e há uma evidente admiração pelo político e pelo legado trabalhista. Porém, a admiração não substitui o esforço de pesquisa. A presença de números eleitorais, documentos, trechos de entrevistas, registros de imprensa, reproduções de arquivos, depoimentos e referências bibliográficas confere à narrativa uma camada de verificabilidade que impede a memória afetiva de dominar inteiramente o relato.

Há, ainda, uma importante valorização das mulheres próximas a Brizola. Neusa Goulart Brizola não surge apenas como esposa do líder ou como figura decorativa de cerimônias familiares. Ela aparece como companheira de lutas, primeira-dama, articuladora de clubes de mães, participante do movimento trabalhista e presença decisiva durante a Legalidade. A atenção de Tentardini à família, às filhas, aos filhos, à mãe Onívia e às experiências domésticas amplia a compreensão de uma trajetória política construída também sobre redes de afeto, cuidado e sacrifício. Essa dimensão, embora não esteja ausente na obra de Monteiro, alcança em No Fio da História uma extensão mais sistemática.

O mesmo se pode dizer da incorporação de episódios que não pertencem diretamente ao núcleo mais conhecido da mitologia brizolista. A biografia aborda a herança, o arquivo pessoal, a relação com os filhos e netos, a morte, o funeral, o reconhecimento póstumo como herói da pátria e a controvérsia envolvendo Giselda Topper, apresentada no livro em conexão com exame genético e com uma longa disputa judicial. Esses elementos poderiam ser considerados laterais diante da grande política, mas Tentardini os incorpora para mostrar que a memória de um personagem público continua a produzir efeitos na esfera privada.

O título No Fio da História adquire, então, uma força especial. O fio não é apenas a continuidade cronológica dos acontecimentos. É uma linha de tensão entre o homem que veio de uma família pobre e o líder cercado de símbolos; entre o estudante que depende de oportunidades e o governante que constrói escolas; entre o governador da Legalidade e o exilado que flerta com a insurreição; entre o político perseguido pela ditadura e o candidato que precisa enfrentar a televisão; entre o adversário de 1964 e o personagem convertido em patrimônio contraditório da democracia brasileira.

A expressão também sugere uma compreensão não linear da história. Brizola não avança de modo progressivo em direção a uma identidade definitiva. Ele se refaz, recua, radicaliza, perde, retorna, negocia, rompe, reconcilia-se e envelhece sem cessar de se interpretar. Tentardini respeita essa instabilidade. Por isso, seu livro é mais interessante quando não tenta resolver Brizola, mas quando acompanha as forças que o atravessam.

A originalidade da obra não está em afirmar que Brizola foi um personagem complexo. Essa afirmação já faz parte do senso comum das boas biografias. O que distingue Tentardini é transformar a complexidade em método narrativo. A infância explica a obsessão pela escola. A formação técnica ajuda a compreender o administrador. O trabalhismo esclarece o nacionalismo. A Legalidade revela a relação entre rádio, povo e Constituição. O exílio expõe o radicalismo e seus impasses. A volta ao Brasil evidencia a reinvenção partidária. O governo do Rio de Janeiro apresenta o conflito entre política social, mídia e segurança pública. A morte e a memória mostram que o personagem continua disputado pelos vivos.

Ao lado de Karla Monteiro, Tentardini oferece, portanto, uma biografia de outro recorte e de outra respiração. Brizola: Lobisomem contra o Império, em seu Volume 1, é uma obra de grande força ao reconstituir a trajetória do político diante do império, da crise democrática, do imperialismo norte-americano, do golpe e do exílio. Seu Brizola é o homem que se torna perigoso porque se recusa a aceitar a posição subalterna reservada ao Brasil e porque leva o conflito nacional para o centro da política internacional. No Fio da História, sem abandonar esse Brizola, apresenta também o homem das escolas, das obras, dos projetos, da rotina administrativa, da família, das alianças, das derrotas eleitorais e das continuidades institucionais.

É nessa ampliação que reside sua contribuição mais valiosa. O livro de Tentardini desloca o olhar do momento excepcional para a longa duração. Recorda que a política não se resume aos discursos inflamados, às conspirações, às crises militares e às grandes derrotas. Ela também se realiza em uma escola erguida numa periferia, numa ponte planejada, numa rede de energia, numa política de alfabetização, numa negociação partidária, numa escolha administrativa, num arquivo preservado, numa testemunha que finalmente é ouvida. Se Monteiro restitui a Brizola a dimensão do confronto histórico, Tentardini restitui ao confronto a materialidade das vidas que ele pretendia transformar.

Há uma grandeza particular em acompanhar Brizola por esse fio sem transformá-lo em monumento imóvel. A obra de Cleber Dioni Tentardini é positiva porque reconhece no personagem uma força democrática rara, mas também porque compreende que tal força não pode ser separada de suas contradições. O autor não escreve para encerrar a disputa sobre Brizola. Escreve para torná-la mais inteligente, mais documentada e mais humana.

Ao final, o leitor não encontra uma resposta definitiva para a pergunta sobre quem foi Leonel Brizola. Encontra algo mais valioso: uma figura histórica devolvida à sua espessura. O menino pobre, o estudante obstinado, o engenheiro, o trabalhista, o prefeito, o governador, o conspirador, o exilado, o socialista moreno, o adversário da televisão, o candidato, o pai, o marido, o irmão, o homem envelhecido e o morto ainda disputado aparecem como momentos de uma mesma vida, sem que nenhum deles consiga absorver inteiramente os demais.

Essa é a diferença decisiva de No Fio da História em relação a Lobisomem contra o Império. Monteiro nos mostra, no primeiro volume de seu projeto, como Brizola se tornou uma ameaça histórica para os poderes que pretendiam manter o Brasil sob tutela. Cleber Dioni Tentardini mostra, em uma narrativa de escopo integral, como essa ameaça se converteu em obra, política pública, conflito partidário, memória familiar e legado democrático. Um livro ilumina a combustão do personagem. O outro acompanha o que resta de luz depois que o incêndio atravessa a história.