Entre suspiros, sorvetes secos e marias-moles

Por Cristiano Goldschmidt

Por muitos anos, o minimercado e bar de meu pai foi um ponto de referência em Portão do Ocoí, no interior do oeste paranaense. Antes, porém, de compreender a importância daquele estabelecimento para a comunidade e para o sustento de nossa família, eu o enxergava como o centro do meu pequeno universo infantil. Era ali que a vida parecia acontecer. Agricultores chegavam cobertos pela poeira vermelha das estradas rurais, vizinhos entravam para uma conversa rápida que quase sempre se prolongava, e crianças, como eu, circulavam entre as prateleiras observando um mundo que se mostrava inesgotável em descobertas.

Na década de 1980, estabelecimentos como aquele ainda exerciam uma função que ia muito além do comércio. Nas pequenas comunidades do interior, eram pontos de encontro, centros informais de convivência e espaços onde circulavam não apenas mercadorias, mas também notícias, preocupações, expectativas e histórias. Ali se comentava o preço da soja, a previsão de chuva, o nascimento de uma criança, a morte de alguém, a venda de uma propriedade ou os preparativos para uma festa comunitária. Muitas vezes, alguém entrava para comprar um pacote de café e saía quase uma hora depois, após colocar a conversa em dia com os demais frequentadores.

Vendia-se praticamente tudo o que uma família precisava para atravessar a semana. Havia alimentos, ferramentas, sementes, pilhas, querosene, produtos de limpeza, bebidas, cigarros, peças para pequenos reparos e uma infinidade de artigos que hoje dificilmente encontraríamos reunidos em um único local. Em um canto, sacos de ração aguardavam os produtores. Em outro, garrafas retornáveis alinhavam-se em engradados. Atrás do balcão, havia gavetas que pareciam guardar soluções para qualquer problema que pudesse surgir em uma propriedade rural.

Meu pai possuía certo talento para os negócios. Ao longo da vida, esteve envolvido em diversas atividades, algumas delas simultaneamente. Foi proprietário de chácara, dono de posto de combustível, teve empresa de ônibus e chegou a possuir caminhão e colheitadeira, que alugava aos agricultores durante os períodos de safra. Seu trabalho acompanhava os ritmos da economia rural e as necessidades da comunidade. Ainda assim, quando volto à infância, nenhuma dessas iniciativas ocupa um espaço tão marcante quanto o minimercado e bar. Talvez porque fosse ali que eu pudesse observá-lo conversando com os clientes, anotando compras em cadernetas, resolvendo problemas e construindo, sem alarde, uma rede de relações que se confundia com a própria vida da comunidade.

Mas seria injusto dizer que eu frequentava aquele ambiente movido apenas por curiosidade pelo universo adulto. A verdade é que meus interesses infantis tinham objetivos próprios. Eram muito mais simples e bem mais açucarados.

Entre todos os produtos disponíveis, nada exercia sobre mim maior fascínio do que os suspiros, os sorvetes secos e as marias-moles.

Os adultos talvez não compreendessem a dimensão que essas guloseimas podiam assumir na imaginação de uma criança. Para nós, não eram apenas doces. Eram tesouros. Habitavam as prateleiras como pequenas promessas de felicidade instantânea. Bastava avistá-los para que toda a capacidade de autocontrole desaparecesse.

Algum tempo depois, surgiram também os picolés e os sorvetes gelados. Para uma criança do interior dos anos 1980, aquilo parecia quase uma novidade tecnológica. Guardados nos freezers que zumbiam sem descanso, eles rapidamente passaram a disputar nossa atenção e nossos desejos com os tradicionais suspiros, sorvetes secos e marias-moles. Havia dias em que a escolha se transformava em verdadeiro dilema: optar pela leveza açucarada dos suspiros ou pela refrescante tentação de um picolé. Ainda assim, os doces mais antigos conservaram um lugar especial em nossa preferência, talvez porque estivessem ligados às primeiras descobertas e às travessuras que já faziam parte da rotina.

Vez ou outra, meu pai nos presenteava com alguns doces. O problema, sob a ótica infantil, era a existência de limites. Havia uma quantidade regrada e razoável para cada semana. Hoje reconheço que as negativas faziam parte da educação e do cuidado. Na época, porém, pareciam uma restrição absolutamente incompatível com a abundância que nos cercava.

Como aceitar que dezenas de suspiros estivessem ao alcance dos olhos e que apenas alguns fossem autorizados?

Foi dessa inconformidade filosófica que nasceram nossas pequenas operações clandestinas.

Eu, minha amiga Lindacir e, muitas vezes, Velci, irmão de uma funcionária que trabalhava conosco, formávamos uma espécie de sociedade informal dedicada à ampliação não autorizada das cotas semanais de açúcar. Nada grandioso. Nada que causasse prejuízo significativo. Tratava-se apenas daquela combinação de criatividade e inocência que caracteriza tantas travessuras da infância.

A estratégia variava conforme as circunstâncias. Às vezes, bastava aproveitar um momento de maior movimento no estabelecimento. Em outras ocasiões, uma conversa mais prolongada entre os adultos criava a oportunidade necessária. Havia olhares de cumplicidade, sinais discretos e uma coordenação que, em nossas cabeças, rivalizava com as mais sofisticadas operações de espionagem.

O prêmio quase sempre era modesto: um picolé ou um suspiro a mais, uma maria-mole retirada discretamente do pacote ou um pedaço de sorvete seco conquistado fora da contabilidade oficial.

A verdadeira recompensa, contudo, não estava no doce em si.

Estava na aventura.

Estava na sensação de participar de um segredo compartilhado.

Estava no riso contido que surgia logo depois, quando nos afastávamos certos de que havíamos executado mais uma missão com absoluto sucesso.

Hoje percebo que o sabor daqueles doces não desapareceu da memória. Consigo lembrar com exatidão a textura dos suspiros e a consistência das marias-moles. Mas também permaneceu algo muito mais valioso.

Permaneceu a atmosfera.

Permaneceu a luminosidade suave das tardes entrando pelas portas do estabelecimento.

Permaneceu o som das conversas misturado ao tilintar das garrafas sendo organizadas.

Permaneceram os cumprimentos trocados entre vizinhos e a movimentação constante de pessoas que encontravam naquele espaço muito mais do que um simples comércio.

Lembro-me dos agricultores que chegavam para falar sobre o andamento da colheita. Lembro-me das preocupações com a estiagem quando as chuvas demoravam a aparecer. Lembro-me da expectativa que antecedia as safras e da satisfação que se espalhava quando o resultado do trabalho era positivo. Sem perceber, cresci ouvindo aquelas conversas. Foi ali que comecei a compreender, ainda que intuitivamente, os vínculos profundos que unem pequenas comunidades.

O minimercado e bar de meu pai funcionava como uma espécie de coração do lugar. Pessoas diferentes passavam por ali todos os dias, trazendo consigo histórias, preocupações, esperanças e projetos. Algumas permaneciam poucos minutos. Outras se acomodavam para longas conversas. Todas, de alguma forma, contribuíam para criar aquele sentimento de pertencimento que hoje reconheço como uma das maiores riquezas da vida no interior.

Muitas décadas se passaram desde então. O tempo transformou paisagens, alterou costumes e redesenhou a rotina das pequenas comunidades. Algumas pessoas partiram. Outras envelheceram. As crianças daquela época tornaram-se adultas, carregando suas próprias responsabilidades e memórias.

Ainda assim, certos objetos conservam um poder extraordinário. Basta encontrar um pacote de suspiros em uma prateleira qualquer, avistar uma maria-mole em uma vitrine ou sentir o gosto de um sorvete seco para que uma porta invisível se abra.

E então volto a Portão do Ocoí.

Volto às estradas de chão batido.

Volto às tardes intermináveis da infância.

Volto às risadas compartilhadas com Lindacir e Velci.

Volto ao balcão atrás do qual meu pai trabalhava.

Volto às pequenas conspirações açucaradas que acreditávamos perfeitas.

E compreendo que os verdadeiros tesouros daqueles anos jamais estiveram nas mercadorias expostas. Não estavam nos doces que conseguíamos conquistar além da cota permitida. Não estavam sequer na sensação efêmera de vitória que acompanhava cada travessura.

O que realmente permaneceu foram os afetos.

Foram as amizades.

Foi a convivência.

Foi a sensação de fazer parte de uma comunidade onde as pessoas se conheciam pelo nome, compartilhavam dificuldades e celebravam juntas as alegrias da vida cotidiana.

Os suspiros, os sorvetes secos e as marias-moles desapareciam em poucos instantes, como desaparecem todos os doces da infância.

As lembranças, porém, permaneceram.

E continuam extraordinariamente doces.