O circo e o quociente: quando a celebridade vira moeda eleitoral

Cristiano Goldschmidt

É profundamente sintomático — e ao mesmo tempo perturbador — o espetáculo que se desenha nas eleições de 2026. Não se trata apenas da presença de rostos conhecidos nos palanques, fenômeno que acompanha a história republicana brasileira desde os tempos em que o rádio transformava cantores em deputados. O que estamos a testemunhar agora é outra coisa: a consagração definitiva do vazio como plataforma política, a elevação do efêmero à categoria de projeto de poder, e a transformação do processo democrático em um grande mercado de trocas simbólicas onde ninguém parece disposto a pagar o preço da seriedade.

A lista de candidatos é, por si só, um retrato desconcertante de nosso tempo. Inês Brasil, a cantora que construiu sua fama na ambiguidade entre o trágico e o cômico, disputa uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro pelo PSB.

Adrilles Jorge disputa uma vaga para a Câmara do Deputados pelo União Brasil de SP, Inês Brasil concorre pelo PSB do RJ em busca de uma vaga na AL.

Manoel Gomes, o autor da onipresente “Caneta Azul”, concorre a deputado federal por São Paulo pelo Avante. Val Marchiori, a socialite que fez da ostentação sua marca registrada, também busca o mesmo destino.

Val Marchiori, candidata pelo Republicanos de SP, e Manoel Gomes, candidato pelo Avante de SP. Ambos buscam uma vaga na Câmara Federal.

E a eles se somam ex-participantes de reality shows — Matteus Amaral, vice-campeão do BBB, pelo PP gaúcho; Vivian Amorim, pelo União Brasil amazonense; Adrilles Jorge, novamente na disputa paulista — além de apresentadores, atrizes, cantores e ex-jogadores de futebol como Edmundo e Luís Fabiano. Há ainda a Menina da Bota, influenciadora mineira do Vale do Jequitinhonha, que oficializou sua candidatura a deputada federal pelo União Brasil, contando com mais de um milhão e meio de seguidores como seu principal — e talvez único — ativo político.

Luis Fabiano é candidato a Deputado Federal pelo MDB de SP. Menina da Bota é candidata a Deputada Federal pelo União Brasil de MG.

O que impressiona não é a diversidade desses nomes, mas a uniformidade de sua lógica interna. Todos compartilham um mesmo denominador: a notoriedade não foi conquistada no exercício de qualquer função pública, na formulação de ideias, na militância ou na construção de um pensamento sobre o país. Foi conquistada, na grande maioria dos casos, no entretenimento — no palco, na tela, na internet, no corpo, na polêmica, no escândalo ou simplesmente na exposição insistente de uma vida privada transformada em espetáculo público. E é precisamente essa notoriedade, desprovida de qualquer lastro de competência, que se apresenta agora como credencial suficiente para o exercício do mandato legislativo.

Há aqui uma inversão moral que merece ser examinada com o devido rigor. Em uma democracia saudável, o voto deveria ser a culminância de um processo de convencimento racional, no qual o eleitor avalia propostas, trajetórias, coerência e capacidade de representação. O que vemos, contudo, é a redução desse processo a um ato de reconhecimento afetivo: vota-se em quem se conhece, não em quem se conhece por suas ideias. A celebridade se torna, assim, uma espécie de atalho cognitivo — o eleitor, diante da impossibilidade prática de examinar centenas de candidatos, opta por aquele cujo rosto já lhe é familiar, como quem escolhe um produto pela marca que reconhece na prateleira. A política, nesse esquema, deixa de ser deliberação para se tornar consumo.

Mas seria injusto — e intelectualmente desonesto — atribuir toda a responsabilidade desse fenômeno aos próprios candidatos. Há um segundo ator nesse drama, tão oportunista quanto eles, embora infinitamente mais poderoso e, por isso, mais culpado: os partidos políticos. É preciso compreender a mecânica perversa que transforma a celebridade em mercadoria eleitoral valiosa. No sistema proporcional brasileiro, o quociente eleitoral — o número mínimo de votos que um partido ou coligação precisa alcançar para eleger um representante — funciona como uma espécie de moeda coletiva. Os votos de todos os candidatos de uma legenda são somados, e essa soma determina quantas cadeiras a sigla conquista. Os candidatos mais votados, mesmo que não atinjam individualmente o quociente, “puxam” consigo os demais da lista, desde que estes alcancem um percentual mínimo dos votos.

É nesse terreno fértil que a celebridade se torna um ativo precioso. Um partido que lança uma figura de grande apelo popular — ainda que desprovida de qualquer preparo — pode colher dezenas de milhares, às vezes centenas de milhares de votos, que serão somados ao quociente da legenda e ajudarão a eleger outros candidatos, talvez mais sérios, talvez não. A celebridade funciona, assim, como uma espécie de “puxador de votos”: seu capital simbólico é convertido em capital político, e o partido se beneficia duplamente — tanto pela cadeira que eventualmente conquista quanto pelo fortalecimento de sua bancada como um todo. É um cálculo frio, cínico, perfeitamente racional do ponto de vista eleitoral, e profundamente corruptor do ponto de vista democrático.

Os partidos não são vítimas desse fenômeno; são seus arquitetos. São eles que convidam, filiam, lançam e financiam essas candidaturas, não por acreditarem na capacidade legislativa dessas figuras, mas por enxergarem nelas um instrumento eficaz de maximização de resultados. A celebridade é usada como isca — e o eleitor, seduzido pela familiaridade, morde o anzol sem perceber que está sendo conduzido a um jogo cujas regras ele não domina. O partido, por sua vez, lava as mãos: se a celebridade se eleger, terá um voto a mais na bancada; se não se eleger, terá contribuído com seus votos para eleger outros. Em qualquer cenário, o partido vence. A única perda possível é a da democracia — e essa, aparentemente, ninguém contabiliza.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a qualidade dos representantes eleitos, mas a própria natureza do vínculo entre o eleitor e o eleito. Quando elegemos alguém não por suas ideias, mas por sua fama, estamos transferindo para o exercício do poder público uma lógica que nada tem a ver com a política: a lógica do espetáculo, da celebridade, do reconhecimento imediato e superficial. E aqui reside o perigo mais profundo. O mandato legislativo não é um prêmio de consolação, um troféu pela notoriedade alcançada ou uma extensão da carreira artística. É uma função de extrema responsabilidade, que exige — ou deveria exigir — conhecimento técnico, capacidade de análise, compromisso ético, sensibilidade para as demandas sociais e, acima de tudo, uma compreensão madura do que significa representar interesses coletivos em um regime democrático.

Elegemos pessoas sem preparo político e intelectual para cargos que decidem sobre orçamento público, saúde, educação, segurança, direitos fundamentais. Elegemos pessoas cuja principal qualificação é ter aparecido na televisão, ter viralizado na internet, ter participado de um reality show ou ter construído uma carreira no entretenimento. E o fazemos não por ignorância, mas por uma combinação perversa de desencanto com a política tradicional, fascínio pelo espetáculo e a ilusão de que a celebridade, por ser “gente como a gente”, seria mais autêntica, mais próxima, mais confiável do que o político profissional. É uma ilusão perigosa, porque confunde autenticidade com competência, familiaridade com capacidade, e visibilidade com virtude.

Não se trata, é preciso deixar claro, de um elitismo que despreza a origem popular de quem ingressa na política. A história brasileira é rica em exemplos de lideranças que emergiram das camadas mais humildes e se tornaram grandes estadistas. A questão não é a origem, mas a ausência de um projeto, de um pensamento, de uma trajetória de compromisso com o interesse público. A celebridade que ingressa na política sem qualquer lastro de ideias não representa uma renovação da política; representa sua degradação. É a política esvaziada de conteúdo, reduzida a um palco onde se troca fama por poder, sem que ninguém se pergunte pelo preço dessa transação.

Há ainda uma dimensão mais sutil, e talvez mais inquietante, nesse fenômeno. A presença maciça de celebridades nas eleições é sintoma de um mal-estar mais amplo: a crise de representação que atravessa as democracias contemporâneas. Quando os cidadãos perdem a confiança nas instituições e nos partidos tradicionais, quando sentem que a política não os representa, buscam refúgio em figuras que lhes parecem mais autênticas, mais próximas de sua experiência cotidiana. A celebridade, nesse contexto, aparece como uma promessa de representação genuína — uma promessa que, na prática, quase nunca se cumpre, mas que satisfaz uma necessidade afetiva imediata. O eleitor não vota na celebridade por acreditar em suas propostas; vota nela porque ela lhe parece real, tangível, diferente daqueles políticos distantes e corporativos que ele aprendeu a desprezar.

O problema é que essa busca por autenticidade produz exatamente o oposto do que se espera. Em vez de uma política mais próxima do povo, temos uma política mais próxima do espetáculo. Em vez de representantes mais comprometidos com o interesse público, temos representantes mais comprometidos com sua própria imagem. Em vez de uma democracia mais forte, temos uma democracia mais frágil, mais vulnerável à manipulação, mais exposta ao oportunismo daqueles que enxergam no poder apenas mais uma forma de visibilidade.

O que fazer diante desse quadro? A resposta não é simples, e qualquer solução apressada seria tão irresponsável quanto o fenômeno que se pretende corrigir. Não se trata de proibir celebridades de concorrer — isso seria uma restrição antidemocrática ao direito de participação política. Trata-se, antes, de uma mudança cultural, de uma educação política que ensine o eleitor a distinguir entre fama e competência, entre visibilidade e virtude, entre espetáculo e substância. Trata-se de fortalecer os mecanismos de transparência e prestação de contas, para que o eleitor possa avaliar não apenas quem são os candidatos, mas o que fizeram, o que propõem e o que são capazes de fazer. Trata-se, enfim, de resgatar a seriedade da política como atividade pública — uma seriedade que se perdeu em algum ponto do caminho, entre o palco e o plenário, entre o reality show e a tribuna.

A democracia é um regime exigente. Exige cidadãos informados, instituições fortes, partidos responsáveis e representantes comprometidos. Quando qualquer desses pilares se fragiliza, todo o edifício corre risco. E o que vemos em 2026 — essa profusão de celebridades transformadas em candidatas, esse oportunismo recíproco entre famosos e partidos, essa conversão do voto em mero ato de reconhecimento afetivo — é um sinal de que algo está profundamente desajustado. Não é o fim da democracia, certamente. Mas é um alarme, um aviso de que a política brasileira precisa urgentemente reencontrar seu sentido, sua seriedade, sua vocação para o bem comum.

Enquanto isso, o circo segue. E nós, espectadores, somos convidados a escolher entre o palhaço que nos faz rir e o estadista que nos faz pensar. A escolha, como sempre, é nossa. Mas é preciso lembrar: o voto não é um aplauso. É um compromisso. E compromissos não se fazem com quem apenas nos entretém, mas com quem é capaz de nos representar com seriedade, ética e competência. Que saibamos fazer essa distinção antes que seja tarde demais — antes que o espetáculo se torne a única forma de política que conhecemos, e a democracia, reduzida a um grande palco de ilusões, perca de vez o seu sentido.