Obrigado, Zuenir

Por Cristiano Goldschmidt

Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira, 22 de setembro, aos 95 anos, depois de dedicar mais de seis décadas a compreender e narrar o Brasil. Jornalista, escritor, cronista e acadêmico, ele fez da observação do país uma forma de participação na vida pública, acompanhando suas mudanças, suas fraturas e seus persistentes enigmas. Sua morte deixa uma falta que ultrapassa o círculo da família, dos amigos e dos leitores: perdemos uma inteligência capaz de transformar o acontecimento em memória e a notícia em reflexão.

Zuenir Ventura na Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília | Foto: Elza Fiúza, Agência Brasil, 2012

Zuenir não era apenas alguém que contava o país. Ele era alguém que o interrogava.

Durante mais de seis décadas, atravessou redações, revistas, jornais, livros, documentários, debates e gerações. Começou no jornalismo como arquivista, em 1956, quando a profissão ainda exigia uma relação quase artesanal com os papéis, os recortes, as fontes, os nomes e a memória. Depois, tornou-se editor, repórter, chefe de redação, diretor de sucursal, colunista. Passou pelo Correio da Manhã, por Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ,  Jornal do Brasil e pelo O Globo. Ocupou posições de comando, mas nunca pareceu escrever de cima. Sua autoridade vinha de outro lugar, do convívio atento com a realidade.

Talvez por isso sua obra tenha conseguido unir duas virtudes que, no jornalismo, frequentemente se separam: a precisão e a compaixão. Zuenir sabia que um fato não é apenas um acontecimento, porque todo acontecimento carrega uma atmosfera, uma ferida, uma contradição, um rosto. Sabia também que a literatura não serve para embelezar a verdade, mas para torná-la mais visível.

Em 1988, publicou 1968: O ano que não terminou, um dos livros fundamentais para compreender o Brasil contemporâneo. O título, desde logo, continha uma hipótese e uma advertência. Havia anos que não passavam. Havia acontecimentos que continuavam vivendo dentro do país, como uma espécie de corrente subterrânea, reaparecendo na política, na cultura, nos costumes, nos medos e nas esperanças. Zuenir não escreveu apenas sobre um calendário. Escreveu sobre a permanência de uma experiência histórica.

O livro tornou-se clássico porque não tratava a história como um depósito de datas, mas como uma força que continua atuando sobre os vivos. Ao reconstituir a atmosfera dos anos 1960, ele recuperou a juventude, a rebeldia, a violência, os sonhos de transformação e a sombra autoritária que se projetaria sobre o país. Seu trabalho mostrou que a reportagem pode alcançar a densidade de um romance sem abandonar a responsabilidade documental. O jornalista não precisava fingir que era romancista. Bastava escrever com atenção suficiente para que a própria realidade revelasse sua dimensão literária.

Zuenir possuía esse talento raro: fazia o país caber numa página sem reduzi-lo. Em sua prosa, o Brasil aparecia inteiro, com seus abismos e suas delicadezas, sua brutalidade e sua música, suas elites e seus excluídos, sua memória interrompida e sua insistência em recomeçar.

Foi assim também em Cidade partida, livro de 1994 sobre a violência no Rio de Janeiro. O título tornou-se uma expressão que atravessou o vocabulário público, talvez porque nomeasse uma fratura que todos conheciam, mas que poucos haviam conseguido formular com tanta clareza. A cidade não era apenas dividida entre morro e asfalto, entre a ordem e o abandono, entre os que podiam circular e os que eram confinados pela pobreza. Havia uma ruptura mais profunda, uma incapacidade de reconhecer no outro a mesma humanidade.

Zuenir não observava a violência como quem contempla uma paisagem distante. Aproximava-se dela com o desconforto de quem sabe que nenhuma cidade é verdadeiramente inteira quando uma parte de seus habitantes é condenada à invisibilidade. Sua reportagem não oferecia uma solução pronta para o problema brasileiro, porque o jornalismo sério desconfia das soluções que chegam antes da compreensão. O que oferecia era um campo de visão mais amplo, uma oportunidade para que o leitor enxergasse a cidade não como cenário, mas como destino compartilhado.

Antes disso, em 1989, uma série de reportagens sobre Chico Mendes e a Amazônia para o Jornal do Brasil haviam revelado outro aspecto de seu trabalho: o compromisso com personagens e causas que a imprensa poderia facilmente abandonar depois que o interesse imediato diminuísse. Zuenir compreendia que a importância de uma história não se mede pelo ruído que ela produz no dia de sua publicação. Algumas histórias precisam de tempo para mostrar a extensão de sua gravidade.

Chico Mendes fora assassinado em dezembro de 1988, mas a questão que seu assassinato colocava permanecia viva. O conflito entre a floresta, o poder econômico, a violência rural e os direitos humanos não cabia na moldura estreita de um episódio policial. Zuenir ampliou a moldura. Fez do caso uma pergunta sobre o país, sobre o desenvolvimento, sobre a vida dos que raramente aparecem na primeira página, embora sustentem a riqueza e a memória de uma nação.

Por esse trabalho, recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo e o Prêmio Vladimir Herzog. Em 2008, foi reconhecido pela ONU como um dos jornalistas que mais haviam contribuído para a defesa dos direitos humanos no Brasil nas três décadas anteriores. Esses prêmios, porém, são apenas a parte mais visível de seu legado. O que permanece não é a medalha, nem a cerimônia, nem a fotografia oficial. Permanece a noção de que escrever sobre o Brasil é assumir uma responsabilidade diante dos que não têm espaço para escrever sobre si mesmos.

Zuenir foi um jornalista de redação, mas nunca ficou preso à redação. Sua escrita transitou entre o jornal e o livro, entre a crônica e a reportagem, entre a análise política e a observação do cotidiano. Publicou Inveja – mal secreto (1998), O Rio de J. Carlos (1998), Crônicas de um fim de século (1999), Chico Mendes: crime e castigo (2003), Minhas histórias dos outros (2005), Sagrada Família (2012). Escreveu sobre cultura, comportamento, memória, amizade, política, cidade, literatura e sobre essa matéria tão difícil de definir que chamamos de Brasil.

A palavra trânsito talvez seja uma das mais adequadas para falar de sua obra. Zuenir viveu num país em trânsito, que saiu de uma ditadura sem se livrar inteiramente dela, que trocou a censura explícita por outras formas de silêncio, que conheceu a abertura política sem resolver suas desigualdades, que viu a modernização conviver com a permanência da miséria. Ele acompanhou esse movimento sem se deixar capturar pelo entusiasmo fácil nem pelo cinismo confortável.

Seu olhar tinha uma qualidade moral. Não moralista, porque Zuenir não parecia interessado em distribuir absolvições ou condenações. Moral no sentido mais exigente da palavra, porque reconhecia que toda narrativa envolve uma escolha de atenção. Olhar para alguém é, em alguma medida, admitir que essa pessoa importa. Contar uma história é impedir que ela desapareça inteiramente.

Talvez seja essa a maior lição que deixa aos jornalistas e escritores brasileiros. A realidade não se oferece pronta. É preciso procurá-la. É preciso desconfiar da primeira versão, retornar à cena, ouvir o que ficou de fora, entender o silêncio tanto quanto a declaração. É preciso escrever sem transformar a dor alheia em espetáculo e sem esconder a complexidade atrás de frases bonitas.

Zuenir escrevia bonito, mas sua beleza nunca era ornamental. Havia em sua prosa uma clareza que não empobrecia o pensamento. Ao contrário, tornava o pensamento mais penetrante. Ele não precisava recorrer à obscuridade para parecer profundo. Sua inteligência preferia a luz, embora soubesse que toda luz projeta sombras.

Em 2014, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número 32, que pertencera a Ariano Suassuna. A entrada na ABL reconhecia uma verdade que o jornalismo brasileiro nem sempre admite com generosidade: a reportagem também pode produzir literatura. Um livro escrito a partir de fatos, documentos, testemunhos e investigação pode alcançar uma permanência semelhante à da ficção, porque a linguagem não depende do gênero para ser viva. Depende da necessidade interior de dizer.

Zuenir levou para a Academia a experiência das ruas, das redações e das histórias que não cabem numa biblioteca sem antes atravessar o mundo. Levou também a consciência de que a literatura brasileira não se constrói somente nos lugares consagrados, mas nas páginas dos jornais, nas vozes das testemunhas, nas vidas anônimas, nos conflitos que a história oficial gostaria de resumir.

Sua morte ocorre num tempo em que o jornalismo enfrenta uma crise de confiança, de financiamento, de linguagem e de autoridade. As redações foram reduzidas, a velocidade substituiu a apuração, a opinião muitas vezes se disfarça de notícia, e a informação circula num ambiente em que a mentira dispõe de recursos tecnológicos e velocidade inédita. Nesse cenário, a perda de Zuenir parece ainda maior porque ele pertencia a uma tradição que não confundia pressa com agilidade, nem contundência com gritaria.

Ele sabia que o jornalista não é o dono da verdade. É seu servidor provisório. Trabalha para aproximar o leitor dos fatos, sabendo que toda aproximação é incompleta. A humildade fazia parte de sua inteligência. Mesmo quando escrevia sobre temas vastos, conservava a curiosidade diante do detalhe, como se o mundo ainda pudesse surpreendê-lo.

É essa disponibilidade que fará falta. A capacidade de olhar para uma época e perceber nela aquilo que seus contemporâneos ainda não conseguiam nomear. O dom de transformar o acontecimento em memória antes que a memória se perdesse. A coragem de permanecer atento quando o país se acostumava ao absurdo.

Obrigado, Zuenir, por ter nos ensinado que o Brasil não é uma explicação, mas uma pergunta interminável. Obrigado por ter escrito sobre os mortos sem esquecer os vivos, sobre os poderosos sem se ajoelhar diante deles, sobre os pobres sem transformá-los em alegoria, sobre a cidade sem esconder seus muros, sobre a política sem abandonar a humanidade.

Obrigado por ter compreendido que o jornalismo pode ser uma forma de cidadania e que a literatura pode ser uma forma de escuta. Por ter demonstrado que uma reportagem não termina quando o texto é publicado, porque continua trabalhando dentro do leitor, alterando sua percepção, deslocando suas certezas, devolvendo-lhe uma realidade um pouco mais difícil e, por isso mesmo, um pouco mais verdadeira.

Agora, a cadeira da Academia, as páginas dos livros, as colunas, os arquivos e as redações guardam o eco de sua passagem. Mas uma obra como a sua não fica parada. Ela continua circulando entre os que desejam entender o país, entre os que ainda acreditam na força da palavra e entre os que sabem que a memória é uma das poucas formas de justiça que uma sociedade pode oferecer aos seus mortos.

Zuenir Ventura partiu, mas o Brasil que ele escreveu continua aqui, inquieto, dividido, contraditório, à procura de uma linguagem capaz de compreendê-lo. Talvez essa seja a melhor homenagem: continuar lendo, investigando, perguntando. Continuar recusando a indiferença. Continuar acreditando que, quando alguém encontra as palavras certas, um país inteiro pode se reconhecer nelas.

A última palavra não é adeus. É obrigado.