Por Cristiano Goldschmidt
Alguns acontecimentos desafiam qualquer tentativa de explicação. O instante em que a terra rompe o pacto de silêncio que mantém com a humanidade talvez seja um deles. Um terremoto não pede licença, não escolhe o momento oportuno nem distingue fronteiras, ideologias, crenças ou classes sociais. Apenas acontece. E quando acontece, recorda-nos uma verdade que insistimos em esquecer: por mais grandiosa que seja a obra construída pelas mãos humanas, continuamos habitando um planeta dotado de forças próprias diante das quais nossa tecnologia, nosso poder econômico e nossas pretensões de controle ainda revelam seus limites.
Foi exatamente essa lembrança que voltou a ecoar diante do terremoto que atingiu a Venezuela. Em poucos segundos, famílias inteiras viram desaparecer a segurança do cotidiano. Casas deixaram de ser abrigo. Ruas transformaram-se em corredores de incerteza. O medo invadiu uma rotina que para muitos já era de dificuldades e milhões de pessoas passaram a viver a angustiante expectativa de reencontrar parentes, contabilizar perdas e reconstruir aquilo que parecia sólido até o instante anterior.

Diante da dimensão de tragédias naturais, os números impressionam e as imagens chocam. Mas nenhuma estatística consegue traduzir a dor silenciosa de quem perde um filho, uma mãe, um companheiro ou simplesmente o lugar que chamava de lar. A verdadeira extensão de um desastre nunca cabe nos boletins oficiais. Ela permanece inscrita na memória daqueles que sobreviveram.
Ao longo da história, aprendemos a conviver com fenômenos que escapam completamente à nossa vontade. Terremotos, erupções vulcânicas, furacões, secas prolongadas, enchentes e tsunamis fazem parte da dinâmica de um planeta em permanente transformação. São expressões da própria vida geológica da Terra, cuja existência antecede em bilhões de anos a presença humana.
Essa constatação deveria produzir humildade. Entretanto, produzimos, muitas vezes, exatamente o contrário.
Se existem tragédias inevitáveis, há também aquelas que são cuidadosamente arquitetadas pelo próprio homem. Enquanto a natureza, ocasionalmente, rompe seu equilíbrio e impõe sofrimento, o ser humano parece empenhado em fabricar desastres cotidianos que poderiam simplesmente não existir.
Talvez seja essa a contradição mais dolorosa do nosso tempo.
Como se não bastassem os desafios impostos pelas forças naturais, insistimos em ampliar o sofrimento coletivo por decisão própria. Enquanto equipes de resgate procuram sobreviventes entre os escombros deixados por terremotos, outras pessoas, em diferentes regiões do planeta, precisam fugir não dos movimentos da crosta terrestre, mas das ofensivas conduzidas por tanques, mísseis e aviões de guerra.
A guerra entre Rússia e Ucrânia já produziu uma sucessão de cidades destruídas, famílias fragmentadas e gerações marcadas pelo trauma. No Oriente Médio, sucessivos ciclos de violência continuam transformando crianças em refugiadas antes mesmo que tenham conhecido plenamente a infância. Em ambos os casos, não foi a natureza que decidiu espalhar destruição. Foram escolhas humanas.
Essa diferença é moralmente decisiva.
Diante de um terremoto, resta-nos socorrer, reconstruir e confortar. Diante de uma guerra, antes de reconstruir, é preciso perguntar por que aceitamos que ela exista. Afinal, terremotos pertencem à geologia. Guerras pertencem à política, ao poder, ao fanatismo, aos interesses econômicos e à incapacidade de reconhecermos no outro alguém igualmente digno de viver em paz.
Vivemos uma época curiosa. Nunca produzimos tanto conhecimento científico. Nunca dominamos tecnologias tão sofisticadas. Somos capazes de enviar sondas a milhões de quilômetros da Terra, desenvolver inteligência artificial, decifrar parte do código genético da vida e estabelecer comunicação instantânea entre continentes. Apesar disso, permanecemos incapazes de resolver aquilo que talvez seja o problema mais elementar da civilização: aprender a conviver sem transformar diferenças em motivo para destruição.
Também enfrentamos outra tragédia silenciosa, concebida lentamente ao longo de décadas. A degradação ambiental deliberadamente provocada altera ecossistemas, intensifica eventos climáticos extremos, compromete a disponibilidade de água, acelera a perda da biodiversidade e amplia a vulnerabilidade de populações inteiras. Embora um terremoto não seja consequência das mudanças climáticas, ele se soma a um cenário global em que desastres naturais encontram sociedades frequentemente fragilizadas por escolhas econômicas e políticas equivocadas.
Não é a Terra que se tornou mais cruel. Em muitos aspectos, somos nós que a tornamos mais difícil de habitar.
Talvez por isso cada tragédia devesse produzir mais do que comoção passageira. Deveria produzir consciência.
O sofrimento dos venezuelanos não pertence apenas à Venezuela. Assim como a dor dos ucranianos não pertence exclusivamente à Ucrânia, e o drama vivido por milhares de famílias no Oriente Médio não diz respeito apenas àquela região. Num mundo profundamente interligado, toda dor humana ultrapassa fronteiras. Cada desastre revela nossa vulnerabilidade compartilhada. Cada vítima nos recorda que a nacionalidade é um acidente geográfico; a condição humana, porém, é universal.
Há momentos em que a solidariedade deixa de ser virtude para tornar-se necessidade civilizatória. Não se trata apenas de enviar ajuda humanitária, alimentos ou recursos materiais — embora tudo isso seja indispensável. Trata-se de preservar a capacidade de sentir a dor alheia como algo que também nos diz respeito. Uma sociedade começa a fracassar quando se acostuma ao sofrimento dos outros.
Talvez nunca consigamos impedir que a terra volte a tremer. Certamente continuaremos convivendo com fenômenos naturais que escapam ao nosso controle. Mas há uma escolha que permanece inteiramente sob nossa responsabilidade: decidir se continuaremos produzindo guerras, alimentando discursos de ódio, devastando o meio ambiente e multiplicando sofrimentos evitáveis.
A natureza já impõe desafios suficientes. Não deveríamos competir com ela na produção de tragédias.
Que o terremoto na Venezuela não seja lembrado apenas como mais um episódio registrado nas páginas do noticiário internacional. Que ele permaneça como um convite à compaixão e, sobretudo, como um lembrete de que, diante da imensidão das forças da natureza, todos pertencemos à mesma condição humana. Se somos incapazes de impedir que a Terra se mova sob nossos pés, ainda podemos escolher caminhar juntos sobre ela com mais solidariedade, mais responsabilidade e muito mais paz.
