Autor: da Redação

  • Rococó Produções e a poética do teatro expandido no Brasil contemporâneo

    Rococó Produções e a poética do teatro expandido no Brasil contemporâneo

    Grupo construiu trajetória com narrativas oriundas do imaginário coletivo, sejam elas lendas populares, contos tradicionais ou releituras de clássicos universais.

    Por Cristiano Goldschmidt

    A Rococó Produções Artísticas e Culturais, surgida no contexto sul-rio-grandense, constitui um caso singular dentro da cartografia do teatro brasileiro contemporâneo, sobretudo por sua capacidade de articular, de maneira orgânica, dimensões que frequentemente se apresentam dissociadas: criação estética, formação de público e intervenção sociocultural. Fundada pelos atores Henrique Gonçalves e Guilherme Ferrêra, a companhia completou 10 anos de trajetória em 2025, consolidando-se como um projeto de continuidade e relevância. A análise de sua trajetória exige, portanto, um olhar que ultrapasse a mera enumeração de espetáculos ou conquistas institucionais, para alcançar a lógica interna que orienta sua permanência no cenário artístico.

    Desde sua gênese, o grupo demonstra uma inclinação inequívoca para o hibridismo de linguagens. Tal característica não se reduz a um procedimento formal, mas configura-se como um princípio estruturante de sua poética. A cena rococoense — se assim se pode denominar — opera na interseção entre teatro narrativo, musicalidade cênica e elementos coreográficos, resultando numa gramática espetacular que privilegia o fluxo e a plasticidade. Essa opção estética revela uma compreensão ampliada do fenômeno teatral, entendido não apenas como representação dramática, mas como experiência sensorial e cognitiva simultaneamente.

    A história da Rococó Produções é marcada por um processo contínuo de circulação e diálogo com diferentes públicos, especialmente no circuito de teatro para infância e juventude. Longe de assumir essa vertente como um espaço menor, o grupo a transforma em laboratório privilegiado de experimentação e refinamento técnico. Há, nesse aspecto, uma recusa deliberada do didatismo simplificador que historicamente permeou o teatro infantojuvenil. Em seu lugar, emerge uma dramaturgia que respeita a inteligência do espectador jovem, propondo narrativas densas, ainda que acessíveis, e investindo em soluções cênicas que estimulam a imaginação sem subestimar a complexidade do mundo.

    Essa postura se reflete diretamente no trabalho de atuação. Os intérpretes da Rococó não se limitam à construção psicológica de personagens, mas assumem uma função polissêmica dentro da cena. São, ao mesmo tempo, atores, narradores, músicos e mediadores. Tal polivalência exige uma disciplina técnica específica, baseada na presença cênica, no domínio do ritmo e na capacidade de transitar entre registros expressivos distintos. O resultado é uma atuação que se afasta do naturalismo estrito e se aproxima de uma teatralidade assumida, na qual o jogo com o espectador torna-se elemento central.

    No que concerne ao foco artístico, é possível identificar uma predileção por narrativas oriundas do imaginário coletivo, sejam elas lendas populares, contos tradicionais ou releituras de clássicos universais. Essa escolha não é casual: ao mobilizar tais matrizes simbólicas, o grupo estabelece pontes entre diferentes gerações e contextos culturais, contribuindo para a preservação e reinvenção de repertórios narrativos. Ao mesmo tempo, suas montagens frequentemente incorporam temáticas contemporâneas, como diversidade, convivência social e formação ética, produzindo um efeito de atualização que impede a fossilização dessas histórias.

    As ações educativas da Rococó Produções constituem um dos eixos mais consistentes de sua atuação. Oficinas, projetos formativos e atividades de mediação cultural são concebidos não como apêndices, mas como extensões naturais do trabalho artístico. Nesse sentido, o grupo opera segundo uma lógica de teatro expandido, no qual a experiência estética se prolonga para além do espetáculo, alcançando processos de aprendizagem e sensibilização. Tal abordagem evidencia uma concepção de arte comprometida com a transformação social, ainda que essa transformação se dê de maneira sutil, no plano das percepções e afetos.

    O reconhecimento obtido ao longo de sua trajetória, materializado em premiações e participações em festivais, funciona como indicador da consistência de seu projeto. Distinções na área do teatro infantojuvenil, em especial, sinalizam não apenas a qualidade de suas produções, mas também a relevância de sua contribuição para um segmento frequentemente negligenciado pelas políticas culturais. No entanto, mais significativo do que os prêmios em si é o fato de o grupo ter conseguido construir uma relação duradoura com o público, baseada na confiança e na recorrência.

    Entre os principais integrantes da Rococó Produções, destacam-se artistas que acumulam funções criativas e pedagógicas, como direção, atuação e elaboração de projetos formativos. Atualmente, além de seus fundadores, integram o grupo Julio Estevan, Clarissa Siste e Jeniffer Pedroso. Ainda que a configuração do elenco possa variar ao longo do tempo, é precisamente essa flexibilidade que permite ao grupo manter-se dinâmico, incorporando novas experiências sem perder sua identidade. Trata-se de um coletivo no qual a autoria tende a diluir-se em favor de um pensamento artístico compartilhado.

    A forte ênfase na comunicabilidade e na solidez da estrutura narrativa responde por parcela significativa da recepção consistente do grupo. Em um panorama teatral que, não raramente, privilegia a ruptura como valor em si, a Rococó investe numa zona de tensão produtiva entre tradição e experimentação, articulando-as de modo a evitar tanto o conservadorismo reiterativo quanto a inovação gratuita. Trata-se, portanto, de uma escolha estética deliberada, ancorada na centralidade da experiência do espectador e na eficácia do encontro cênico como espaço de partilha simbólica.

    Em síntese, a Rococó Produções Artísticas e Culturais afirma-se como um projeto de longa duração que conjuga consistência estética, compromisso educativo e inserção social. Ao completar uma década de atividades em 2025, o grupo reafirma sua relevância no cenário cultural brasileiro. Sua trajetória evidencia a possibilidade de um teatro que, sem renunciar à elaboração formal, permanece acessível e significativo para públicos diversos. Ao investir na formação de espectadores e na valorização do imaginário coletivo, o grupo não apenas produz espetáculos, mas contribui para a construção de um tecido cultural mais sensível e plural.

  • Gravura abre mostra individual “Mulheres silenciadas” e coletiva “Topografias sensíveis

    Gravura abre mostra individual “Mulheres silenciadas” e coletiva “Topografias sensíveis

    A Gravura Galeria de Arte promove a abertura de duas exposições nesta quinta-feira (14/05): a individual “Mulheres silenciadas”, da artista visual Ivone Rabelo, e a coletiva “Topografias sensíveis”, dos artistas João Carlos Bento, Cleci Serpa, Marion Lunke e Marília Chartune. A inauguração das duas acontece às 18h30, e as mostras ficam abertas à visitação até 6 de junho.

    Obra de Ivone Rabelo – Série Mulheres Silenciadas. Divulgação

    Com mais de duas décadas de atuação nas artes, Ivone Rabelo aborda a opressão, a violência de gênero e os silenciamentos impostos às mulheres. Por meio de manequins de loja em escala humana, materializa diferentes formas de abuso – emocional, financeiro, patrimonial e sexual -, dando corpo a realidades muitas vezes invisibilizadas. “Transformo a dor em linguagem artística”, resume ela, que ocupa a sala Branca da Gravura.

    “Minha obra questiona o ideal imposto à mulher, que deve ser múltipla, perfeita, mas sempre submissa – e rompe com ele. É um grito de basta”, diz Ivone.

    A curadora de “Mulheres silenciadas”, Ana Zavadil, ressalta que a escolha do manequim como figura central não é casual. “Trata-se de uma representação que desloca o corpo feminino do âmbito do indivíduo para o campo da objetificação. O manequim, como corpo artificial e comercial, carrega em si uma simbologia direta relacionada à mercantilização do feminino e a redução da mulher à condição de objeto. É uma presença corporal sem voz, sem história, sem identidade própria, ou seja, uma forma vazia, destinada a servir de suporte para o olhar alheio”.

    Cores, flores e cidades

    Integrante da mostra “Topografias sensíveis”, o artista formado pelo Instituto de Artes (IA/UFRGS) e arquiteto João Carlos Bento conta que sempre procura “trabalhar as cores como se fossem flores, que tragam uma energia positiva para os ambientes onde estão compondo”.

    Obra de João Carlos Bento. Divulgação

    Cleci Serpa, por sua vez, explica que, para ela, a cor não é descritiva. “Opera como território emocional, criando tensões, pausas e fluxos”.

    Já Marília Chartune valoriza o fato de que a representação de grandes cidades, temática trabalhada por ela desde 1984, é atemporal e “surge nas pinceladas fluidas da técnica de aquarela”.

    Obra de Cleci Serpa. Divulgação

    Nascida na Alemanha, mas gaúcha de coração, Marion Lunke não faz segredo de que se vale de “pinceladas fortes e bem coloridas”. Ela tem as flores, o corpo humano e rostos de mulheres entre seus principais temas.

    A coletiva dos quatros artistas, com curadoria de Regina Galbinski, ocupa a sala Negra. Conforme o texto curatorial, “cada pintura propõe uma experiência particular de observação, convidando o olhar a percorrer camadas, ritmos e silêncios”.

    Obra de Marion Lunke. Divulgação

    SERVIÇO:

    Exposições: “Mulheres silenciadas” e “Topografias sensíveis”

    Abertura: quinta-feira (14/5), das 18h30 às 20h30

    Visitação: até 6 de junho, de segunda a sexta, das 9h30 às 18h30; sábado, das 9h30 às 13h30

    Local: Gravura Galeria de Arte

    EndereçoRua Coronel Corte Real, 647, bairro Petrópolis, Porto Alegre

    Entrada gratuita

  • “Sete Cabeças” : sete fotógrafos em exposição no Píer do Gasômetro

    “Sete Cabeças” : sete fotógrafos em exposição no Píer do Gasômetro

    A Galeria Escadaria abre neste dia 18 de abril (sábado), a partir das 15h, “Sete Cabeças”, exposição que reúne trabalhos de sete fotógrafos, que embora distintos em linguagem e abordagem, convergem em potência estética e relevância contemporânea. 

    A curadoria é de Marcos Monteiro, que já realizou 42 exposições a céu aberto em Porto Alegre, São Paulo, Pelotas e Gramado. A visitação ocorre diariamente, até o dia 3 de junho, no Píer da Usina do Gasômetro.

    Foto de Míriam Ramalho, trabalho sobre mães refugiadas no campo de Dzaleka, no Malawi. Expo Sete Cabeças/Divulgação

    As fotos abordam temas como religiosidade, sobrevivência humana, deslumbramento diante da natureza, manifestações populares e dimensões do imaginário e do surreal. 

    “Mais do que uma exposição, ‘Sete Cabeças’ é um encontro de olhares que tensionam, sensibilizam e expandem as possibilidades da fotografia contemporânea”, afirma Marcos Monteiro, criador da Galeria Escadaria, que funcionou desde 2021 no Viaduto Otávio Rocha, na avenida Borges de Medeiros, e por conta das obras de restauração passou para o Píer do Gasômetro, ambos cartões postais de Porto Alegre.

    Foto de Fernando Kokubun, série Vestígios. Expo Sete Cabeças/Divulgação

    O fotógrafo, curador e produtor é conhecido por seus projetos curatoriais a céu aberto com forte impacto social e estético, tendo com suas exposições públicas integradas à vida urbana ganho homenagens da Câmara de Vereadores de Porto Alegre e o Prêmio Açorianos de Artes Visuais.

    Foto de Cynthia Jappur, série Utopia Cromática. Expo Sete Cabeças/Divulgação

    OS ARTISTAS:

    Cynthia Feyh Jappur – Utopia Cromática: Destaca-se pela intensidade visual e pela criação de imagens que operam no limite entre controle e imprevisibilidade. Sua obra é marcada por explosões cromáticas e sobreposições que, à primeira vista, sugerem o caos, mas se organizam de forma sensível e harmônica ao olhar.

    Douglas Fischer – Siré. Dança dos Orixás: Fotógrafo gaúcho premiado e coautor do livro “Fulgêncio”, transcende o registro documental ao abordar a celebração de Oxum. Seu trabalho captura a dimensão simbólica e emocional dos rituais, traduzindo com sensibilidade a força espiritual presente nas imagens.

    Fernando Kokubun – Vestígios: O fotógrafo porto-alegrense constrói narrativas visuais marcadas por tensão, ausência e transitoriedade. Em preto e branco, suas imagens intensificam contrastes e conduzem o olhar a zonas de ambiguidade. A presença humana surge como vestígio: corpos borrados e espectrais indicam a impermanência e a dissolução do sujeito no espaço.

    Hilton Lebarbenchon – Ao Sul do Mundo: Mais do que uma coordenada geográfica, o sul da América do Sul aparece como experiência sensível de vastidão e silêncio. Paisagens imponentes — montanhas, cumes nevados e céus rarefeitos — constroem um território onde o tempo parece suspenso. A presença humana, mínima, não domina: coexiste com a força primordial da natureza.

    Iara Tonidandel – Peso do Olhar Infantil: A artista apresenta retratos de crianças de países como Tailândia, Nepal, Colômbia, Ruanda, Tanzânia, Sri Lanka e Etiópia. Longe de qualquer apelo à piedade, seus olhares convocam responsabilidade. Cada imagem revela infâncias atravessadas por desigualdades, trazendo à tona questionamentos profundos por meio de uma abordagem documental sensível.

    Míriam Ramalho – Mães de Dzaleka: Fotógrafa carioca com trajetória consolidada em expedições internacionais e autora de cinco livros, Míriam apresenta um recorte documental sobre mães refugiadas no campo de Dzaleka, no Malawi. Seu trabalho, também registrado em publicação editorial, evidencia com profundidade e respeito às realidades vividas por essas mulheres.

    Roberta Tavares – Pernambuco: Onde o Chão Ferve e a Alma Dança: Com uma trajetória extensa e reconhecida, Roberta Tavares propõe uma leitura autoral do Carnaval de Pernambuco. Suas imagens vão além do registro e constroem uma narrativa em que corpo, ritmo e território se entrelaçam. Em cidades como Recife, Olinda, Nazaré da Mata e Carpina, o espaço urbano é transformado pela força da ocupação coletiva.

    Foto de Douglas Fischer, de Siré – Dança dos Orixás. Expo Sete Cabeças/Divulgação

    Serviço:
    Abertura: 18 de abril (sábado), a partir das 15h.
    Local: Pier da Usina do Gasômetro
    Encerramento: 3 de junho de 2026.
    Visitação: Diária, ao longo de 24h. Entrada franca.

    Foto de Hilton Lebarbenchon, série Ao Sul do Mundo. Expo Sete Cabeças/Divulgação
  • Galeria Gravura abre as mostras “Muitos Mundos” e “Do Descarte à Superfície”

    Galeria Gravura abre as mostras “Muitos Mundos” e “Do Descarte à Superfície”

    A Gravura Galeria de Arte abre duas novas exposições na terça-feira, dia 7 de abril: “Muitos Mundos”, da artista visual Andréia Moll, e “Do Descarte à Superfície”, da artista Leonor Moura. As mostras têm curadoria de Letícia Lau.

    As inaugurações acontecem das 18h30 às 20h30. As obras de “Muitos Mundos” ocupam a sala Negra, e os trabalhos de “Do Descarte à Superfície”, a sala Branca da Gravura, dirigida pela galerista e arquiteta Regina Galbinski.

    Ambas as exposições são propostas por duas artistas visuais integrantes do VW Atelier Coletivo, com longa prática artística. Cada uma desenvolve investigações que atravessam seus posicionamentos diante da realidade e dos modos de habitar o mundo.

    Obra de Andréia Moll. Reprodução

    De acordo com a curadora, Muitos Mundos surge a partir de uma pergunta simples: O que é realidade? Pensando na teoria ontológica de realidades ramificadas, a artista busca pelo cerne, ou como ela afirma, o ‘mundo principal’, diante da pluralidade de universos singulares simbolizado por esferas evidenciadas em suas pinturas e monotipias.

    Referindo-se à mostra Do Descarte à Superfície, Lau  observa que “consumimos sem ver. Descartamos sem perceber. Aqui, tudo volta à superfície”.

    Obra de Leonor Moura. Reprodução

    Vivência diversificada

    Andréia Moll morou na Finlândia, Venezuela, México, Holanda e Estados Unidos. A pluralidade de ambientes impulsionou sua pesquisa, que se concentra nos fatores envolvidos na construção das visões de mundo individuais.

    Seus trabalhos, em desenho, pintura, fotografia e colagem, partem de uma pergunta “simples e vertiginosa”: em que mundo, afinal, vivemos?

    “Em um tempo marcado pela multiplicação de telas, notícias e experiências mediadas, a exposição propõe uma pausa reflexiva. Como estabelecemos conexões entre as diferentes “realidades” que nos chegam a cada contato humano, a cada manchete, a cada novo aplicativo? E, para além da fragmentação, existe uma realidade primeira — um fundamento ao qual valha a pena retornar?”, reflete ela.

    Ético e sustentável

    O trabalho de Leonor Moura envolve o uso de itens que a maioria das pessoas despreza: embalagem, papel de presente, enchimento de uma caixa de sapatos, etc.

    Mais do que uma escolha estética, essa prática carrega uma postura ética. Ao ressignificar resíduos do consumo cotidiano, Leonor acredita que insere em sua obra o conceito de sustentabilidade, não como tema declarado, mas como método vivido.

    A artista coleciona e arquiva esse material organizando-o por tipo, cor, textura e espessura. Na produção das pinturas, os fragmentos são dispostos sobre telas preparadas com tinta acrílica. Colados e agrupados por afinidades de cor, textura ou transparência, eles assumem o papel da mancha pictórica: substituem a tinta, dialogam com ela, constroem camadas.

    O resultado é um híbrido entre pintura e colagem que provoca uma dupla percepção: de longe, as obras revelam composições abstratas de grande força visual; de perto, a materialidade dos papéis — suas dobras, fibras e histórias — emerge com toda a sua presença física reveladas na superfície. É um convite para pensarmos em consciência ambiental e transformação.

    Visitação: de 7 abril de 2026 a 09 de maio de 2026.

    Vernissage: 7 de abril de 2026, das 18:30 às 20:30.

    Horários: segunda a sexta-feira, das 9h30 às 18h30; sábados, das 9h30 às 13h30.

    Local: Gravura Galeria de Arte – Rua Corte Real, 647 – Petrópolis, Porto Alegre – RS

    Entrada franca

  • Artista visual gaúcha celebra os 70 anos de “Grande Sertão: Veredas” na ABL

    Artista visual gaúcha celebra os 70 anos de “Grande Sertão: Veredas” na ABL

    A artista visual gaúcha Graça Craidy não poderia desejar outro local para expor sua coleção de retratos de personagens do livro “Grande Sertão: Veredas”, no momento em que a obra-prima do imortal João Guimarães Rosa completa 70 anos de seu lançamento, a Academia Brasileira de Letras.

    É justamente na ABL que a mostra “Grande Sertão”, de Graça, será inaugurada terça-feira (31/03), às 17h. E lá permanecerá até 29 de maio, aberta à visitação das 10h às 18h, no 1º andar do Palácio Austregésilo de Athayde, à Av. Presidente Wilson, 203, Centro do Rio de Janeiro.

    Guimarães Rosa no cerrado. Reprodução

    O atual ocupante da Cadeira nº 2 da academia, Eduardo Giannetti, escreveu um texto inédito, especialmente para a mostra, pelo fato de Guimarães Rosa ter ocupado, no passado, a mesma cadeira.

     “Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande Sertão completa 70 anos mais vivo – e necessário – que nunca. Poesia ou prosa? Erudito ou popular? Culto ou chulo? Fiel ou fabular? Sério ou lúdico? Jorro ou cálculo? No épico sertanejo de Guimarães Rosa, os opostos não se opõem. Como na vida, misturam-se”, sustenta, no primeiro parágrafo de seu texto, o titular da cadeira fundada por Coelho Neto e que tem como patrono o poeta Álvares de Azevedo(leia a íntegra do texto de Giannetti ao final).

    Riobaldo e Diadorim

    Natural de Ijuí e radicada em Porto Alegre, Graça, de 74 anos, apresenta 17 quadros e um tríptico, em acrílica sobre tela e sobre papel. Nas obras, os principais personagens do livro ganham feições físicas inspiradas pela narrativa, inclusive levando em conta a personalidade e o comportamento traçados pelo autor. Entre os personagens retratados estão, por exemplo, Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo, Manuelzão, Maria Mutema, Otacília, Nhorinhá, Sô Candelário, Os Ramiros, Medeiros Vaz.

    Jagunço Hermógenes

    O próprio Guimarães Rosa aparece, em um dos trabalhos, embrenhando-se no Cerrado, a cavalo, junto com vaqueiros – a excursão de fato aconteceu, na fase em que o escritor coletava informações para escrever a obra.

    Graça não só é uma leitora constante do romance como fez um curso – “Travessia” – sobre o livro, debatido durante meses com a professora da USP Maria Cecília Marks, especialista na obra literária.

    A artista gaúcha também pesquisou em teses, monografias e ensaios sobre a ficção e assistiu algumas vezes ao monólogo “Riobaldo”, protagonizado pelo ator carioca Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad.

    A prostituta Nhorinhá

    “Me sinto muito honrada por expor na ABL. Agradeço à academia, em especial ao acadêmico Antonio Carlos Secchin, Secretário-Geral e coordenador do Ciclo de Conferências Vida de Artistas, por acolher outra linguagem artística na homenagem a uma obra literária tão importante, e a Guimarães Rosa”, diz a artista.

    Manuelzão

    “Espero que os visitantes se encantem com a história em quadros do meu ‘Grande Sertão’ particular, expressionista, apaixonado, de cores turvas, ternas e terrosas. Em cada personagem, cena, gesto, o meu gentil convite para despertar nas pessoas o desejo de ler esse grande romance”, acrescenta Graça.

     

    “Experiência transpsíquica”

    Os originais do livro foram entregues à editora José Olympio em fevereiro de 1956. Em carta a seu colega de Itamaraty, Azeredo da Silveira, o escritor, que também era diplomata, relatou: “Passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairando, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia. Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente”.

    Riobaldo na velhice

     O romance chegou às livrarias em meados de julho daquele ano. Aclamado pela crítica, foi escolhido como o melhor livro de 1956, venceu o Prêmio Machado de Assis do Instituto Nacional do Livro, o prêmio Carmen Dolores Barbosa, o prêmio Paula Brito e, em junho de 1961, o Prêmio Machado de Assis da ABL pelo conjunto da obra. “Grande Sertão: Veredas” constou da lista dos “100 melhores livros de todos os tempos” organizada, em 2002, pelo Clube do Livro da Noruega (Norwegian Book Club). O destaque do texto deu-se principalmente pelas inovações linguísticas.

     A exposição “Grande Sertão” foi montada, pela primeira vez, em Porto Alegre, em novembro de 2024, paralelamente à Feira do Livro, e permaneceu em cartaz até 20 de dezembro, no Clube do Comércio. 

    *Íntegra do texto do acadêmico Eduardo Giannetti, atual ocupante da Cadeira nº 2 da ABL, que foi de João Guimarães Rosa.

     “Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande sertão completa 70 anos mais vivo – e necessário – que nunca. Poesia ou prosa? Erudito ou popular? Culto ou chulo? Fiel ou fabular? Sério ou lúdico? Jorro ou cálculo? No épico sertanejo de Guimarães Rosa, os opostos não se opõem. Como na vida, misturam-se.

     A prosa poética rosiana instaura um universo linguístico todo seu. Ela não se reduz a instrumento a serviço de uma narrativa, mas pertence à realidade sertaneja por ela recriada com a mesma potência, vivacidade e força dos seus personagens. O dito e o modo de dizer em uníssono: acorde perfeito. O sertão feito verbo.

    Diadorim morta

    Grande Sertão mira o esquivo: o que não se deixa falar – e cala. O ponto exato em que o singular absurdo de cada consciência individual, no que ela tem de mais intratável, caprichosa e incomunicável, rompe o dique, vence o estreito e roça a outra margem. A visão-lampejo do incomum nas veias da vida comum. Em Rosa, o impulso criador está a serviço de um propósito definido: o reencantamento do mundo pela presença do mistério. O trêmulo júbilo na alma”.

     Riobaldo em crise

  • Virada sustentável apresenta exposição de Araquém Alcântara

    Virada sustentável apresenta exposição de Araquém Alcântara

    A Virada Sustentável apresenta, entre suas atrações comemorativas dos 10 anos, a exposição: O Brasil de Araquém Alcântara. Será no dia 21 de março, às 17h, na Galeria Escadaria do píer da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre.

    Esta exposição contém fragmentos visuais de um Brasil que pulsa para além das fronteiras urbanas, capturado pelo olhar sensível de Araquém Alcântara. Através destas imagens, somos convidados para uma jornada pelos territórios onde água, luz e vida selvagem compõem uma gramática do existir.

    Araquém Alcântara, um dos mais importantes fotógrafos e precursor da fotografia de natureza do Brasil, dedicou sua vida a registrar a vida em nossos biomas.

    Com mais de cinco décadas de trabalho, sua câmera se transforma em instrumento de resistência e memória, documentando simultaneamente a exuberância e a fragilidade dos ecossistemas brasileiros.

    A proposta é sensibilizar o público para a preservação da biodiversidade ao revelar sua plena exuberância no território mato-grossense: Amazônia, Cerrado e Pantanal.

    Nestas fotografias, vemos um país-organismo vivo, na onça vigilante, na mata fechada, no pescador que corta o rio como extensão de si mesmo, nas vitórias-régias que flutuam como planetas aquáticos. 

    O fotógrafo revela um Brasil das fronteiras dissolvidas – onde a água vira céu nos reflexos perfeitos, onde luz esculpe silhuetas, onde o encontro entre preservação e desaparecimento permanece em tenso equilíbrio.

    Fotos Araquém Alcântara

    Virada Sustentável

    A cidade de Porto Alegre recebe, entre os dias 18 e 22 de março, a 10ª edição da Virada Sustentável, evento que se consolidou como um dos maiores movimentos de cultura e conscientização ambiental do país. Dentro da programação, o Festival Multiartes ganha destaque ao reunir diferentes manifestações artísticas que dialogam com a sustentabilidade e a relação entre natureza e vida urbana.

    Mais informações da Virada no insta do evento

  • Artista visual Erico Santos homenageia os 254 anos de Porto Alegre

    Artista visual Erico Santos homenageia os 254 anos de Porto Alegre

    A Gravura Galeria de Arte homenageia os 254 anos de Porto Alegre com uma exposição do artista visual Erico Santos que retrata locais históricos da capital.

    A Sala Negra da galeria, na Rua Coronel Corte Real, 647, bairro Petrópolis, recebe dez telas a óleo em que Erico usa paleta vibrante e harmoniosa, que transmite uma sensação de luminosidade, de acordo com análise do professor de artes José Francisco Alves.

    Erico Santos diante da Ponte de Pedra. Um dos locais homenageados pelo artista. Foto Carlos Souza/Divulgação

    A abertura da mostra “Erico Santos por Porto Alegre” acontece nesta quinta-feira, 19/03, das 17h às 19h, e a visitação se estende até 31 de março.

    Já o professor Armindo Trevisan diz que Erico não abstrai do legado figurativo que devemos aos grandes mestres do passado: “É uma estética que, sem pedantismo nem pretensão, se mostra superior, e alérgica ao consumismo visual”.

    Entre os trabalhos estão, por exemplo, os que retratam a Ponte de Pedra (construída entre 1848 e 1854), o Viaduto da Borges (inaugurado em 1932) e o Monumento aos Açorianos, criado pelo artista Carlos Tenius, em tributo aos imigrantes que deram origem à cidade, cuja data de aniversário é 26 de março.

    Ampliando a amostragem das obras, pode-se citar ainda as pinturas da Igreja Nossa Senhora das Dores, construída em 1807 e elevada à condição de Basílica Menor pelo Papa Francisco, em 2022; e a Praça Montevidéu, de um ângulo que contempla a Fonte Talavera da la Reina, criada em 1855 pelo ceramista espanhol Juan Ruiz de Luna, o Museu do Paço (prédio da antiga prefeitura), de 1901, e o Mercado Público, inaugurado em 1869. 

    Nascido em Cacequi, Erico Santos, de 74 anos de idade e 51 de carreira, morou em Santa Maria e São Paulo, antes de se estabelecer em Porto Alegre. Há cerca de 20 anos divide-se entre a capital gaúcha e Milão, onde também tem ateliê.

    Bastante conhecido no estado e fora dele pelo tema das colhedeiras de flores, Erico, na exposição da Gravura, usa “tons quentes e frios que proporcionam um contraste equilibrado, em composição que confere profundidade”, acrescenta o professor Francisco Alves na sua análise. “As pinceladas soltas e expressivas de Erico, e o uso da luz e sombra, sugerem uma atmosfera dinâmica e cheia de movimento”, enfatiza o especialista. 

  • OSPA e grandes nomes da música gaúcha celebram 400 Anos das Missões

    OSPA e grandes nomes da música gaúcha celebram 400 Anos das Missões

    Para celebrar os quatro séculos das Missões Jesuíticas Guaranis a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) promove um encontro artístico com a tradição gaúcha no concerto “400 Anos das Missões”. Sob regência de Manfredo Schmiedt, orquestra e artistas missioneiros convidados interpretam algumas das canções mais representativas da região. Promovido pela Secretaria da Cultura (Sedac), a apresentação ocorre no Complexo Cultural Casa da OSPA na sexta-feira (13/3), às 20h. Os ingressos custam entre R$ 15 e R$ 70 na plataforma Sympla. O concerto também será transmitido ao vivo pelo canal da OSPA no Youtube.

    A apresentação reúne no palco da Casa da OSPA a histórica Família Ortaça, que será representada por Marianita, Gabriel e Alberto Ortaça, filhos de Pedro Ortaça — último “Tronco Missioneiro” vivo e referência da cultura popular missioneira.

    Família Ortaça. Foto Divulgação/OSPA

    Como participações especiais, o concerto contará com o contrabaixista uruguaio Miguel Tejera, reconhecido por sua atuação na cena instrumental sul-americana, e o violonista, compositor e produtor Guilherme Castilhos, premiado em importantes festivais do Estado.

    O repertório valoriza sobretudo os quatro representantes do tronco missioneiro: Pedro Ortaça, Cenair Maicá, Jayme Caetano Braun e Noel Guarany. “Esses quatro nomes são a essência desse concerto, cada um tem pelo menos uma obra bem importante presente no repertório. Além disso, temos outras obras que foram de festivais e outros eventos ao redor das missões”, comenta o diretor artístico da OSPA, Manfredo Schmiedt.

    A ponte entre a música regional e a sonoridade sinfônica foi construída com arranjos inéditos compostos pelo violinista da OSPA Dhouglas Umabel, que tem formação clássica, mas também ampla experiência em festivais de música regional gaúcha. Todos os arranjos do concerto, com exceção de “Milonga para as Missões”, que foi arranjada pelo violinista da OSPA Arthur Barbosa, são de Umabel. 

    Participam ainda nomes consagrados como Lucio Yanel, um dos pilares do violão solista na música sulina; Ernesto Fagundes e Neto Fagundes, representantes de uma linhagem que mantém viva a tradição do Pampa em diálogo com a contemporaneidade; Shana Müller, uma das principais vozes femininas da música regional e latino-americana; Érlon Péricles, compositor de destaque e autor recorrente dos temas dos Festejos Farroupilhas; Patrício Maicá, herdeiro artístico de Cenair Maicá; Laura Guarany, intérprete da tradição missioneira e da herança de Noel Guarany; Lincon Ramos, gaiteiro, cantor e multi-instrumentista com três décadas de atuação; e Angelo Franco, cantor e compositor com mais de seiscentas músicas gravadas e trajetória marcada pela integração cultural missioneira.

    O espetáculo está estruturado em três partes temáticas: “Parte I – O Grito e a Resistência”, que evoca o trabalho de Pedro Ortaça na preservação da tradição; “Parte II – A Alma, o Verso e a Mística”, que ressalta o lirismo do cancioneiro regional, incluindo o poema campeiro “Bochincho”, de Jayme Caetano Braun; a “Parte III – Legado, União e Fronteiras” reafirma os laços entre passado e presente com obras como Veterano (Antônio Augusto Ferreira / Ewerton Ferreira) e Milonga para as Missões (Gilberto Monteiro); e o encerramento traz de volta ao palco todos os artistas convidados para interpretar o emocionante “Canto dos Livres” (Cenair Maicá). “É um repertório que fala das músicas da região das Missões, mas também como isso se espalhou pelo Rio Grande do Sul e formou a nossa cultura de música tradicional gaúcha”, pontua o diretor artístico da OSPA.

    Programação 400 Anos das Missões – O concerto da OSPA integra o conjunto de ações orientado pelo Decreto nº 57.369/2023, que institui 2026 como o ano oficial das Missões. O calendário comemorativo do governo estadual valoriza o patrimônio histórico e cultural das Missões Jesuíticas Guaranis, fundadas em 1626, enquanto promove o desenvolvimento sustentável da região.

    Serviço 

    Concerto especial da Ospa celebra os 400 Anos das Missões Jesuíticas Guaranis

    Quando: Sexta-feira (13/3), às 20h

    Onde: Complexo Cultural Casa da Ospa (Caff – Av. Borges de Medeiros, 1.501, Porto Alegre, RS)

    Ingressos: De R$ 15 a R$ 70, na bilheteria do Complexo Cultural Casa da Ospa no dia do concerto, das 15h às 20h

    Descontos: Ingresso solidário (com doação de 1kg de alimento), clientes Banrisul, Amigo Ospa, associados AAMAC RS, sócio do Clube do Assinante RBS, idoso, doador de  sangue, pessoa com deficiência e acompanhante, estudante, jovem até 15 anos e ID Jovem

    Estacionamento: Gratuito, no local

    Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 6 anos

    Transmissão ao vivo: A partir das 20h, no canal da Ospa no YouTube
    O evento disponibiliza medidas de acessibilidade.

  • Feminicídio – Artista visual Graça Craidy há 11 anos produz obras sobre violência contra a mulher

    Feminicídio – Artista visual Graça Craidy há 11 anos produz obras sobre violência contra a mulher

    A artista visual gaúcha Graça Craidy produziu, a partir de 2015, uma coleção com cerca de 60 obras sobre feminicídio e violência contra a mulher, a fim de denunciar esses tipos de crimes e ajudar a conscientizar a população em favor do fim dessas práticas delituosas.

    Com mais de 20 mortes de mulheres registradas em janeiro e fevereiro deste ano, o Rio Grande do Sul inicia 2026 como líder nacional da macabra estatística do feminicídio.

    Obra “mulher morta pelo marido”. Reprodução

    “Meu bem, meu mal”

    Neste mês de março dedicado às mulheres, 12 obras da artista, do recorte intitulado “Meu bem, meu mal”, estarão expostas na Assembleia Legislativa do RS.

    O projeto integra o ato de lançamento do Relatório Lilás 2026, da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Casa, na quarta-feira (4/3).

    Foto Carlos Souza/Divulgação

    A mostra permanecerá aberta à visitação até as 18h de sexta-feira (6), no Espaço de Exposição Dep. Carlos Santos. A entrada é gratuita. São quadros, acrílica sobre tela e sobre papel, que variam de 60 x 40 cm a 1.80 x 3.60 m.

    A primeira exposição de Graça nessa temática coincidiu com o surgimento da Lei do Feminicídio, que tipificou o assassinato de mulheres por razões de gênero como crime hediondo no país, em 2015.

    De lá para cá, em praticamente todos os meses de março as obras de sua coleção foram expostas em instituições como Tribunal de Justiça do RS, Justiça Federal, Tribunal Regional do Trabalho, Memorial do Ministério Público, Associação dos Juízes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e Universidade Federal do Paraná (UFPR) – Campo Mourão, entre outras.

    Obra da artista já foi utilizada em capa de livro. Reprodução

    Obras suas também já ilustraram capa de livros sobre o tema, como o de autoria da primeira desembargadora gaúcha, Maria Berenice Dias (aposentada), e foram objeto do estudo acadêmico no Instituto de Artes da UFRGS.

    “Até que a morte nos separe”

    Além de “Meu bem, meu mal”, título que alude ao contexto onde geralmente acontecem os crimes, dentro de casa, muitas vezes diante dos filhos, Graça também possui outros diversos recortes: “Até que a morte nos separe” – pinturas a partir de fotos das cenas dos crimes publicadas em jornais; “Livrai-nos do Mal” – que aponta as violências referidas na Lei Maria da Penha; “Feminicidas, o machismo que mata” – na qual os homens são representados com revólveres no lugar do pênis; e “Estupro” – que retrata abuso sexual coletivo cometido por homens contra uma mulher.

    Mudança pela educação

    A artista defende que é preciso “mudar a cultura do machismo, do senhor proprietário, da mulher propriedade”, o que, acredita, só vai acontecer  pela educação.

    Aos 74 anos de idade, Graça acredita que a arte pode sensibilizar pessoas com poder de interferir para a reversão do atual quadro. “A arte não pode impor igualdade, barrar o gesto nem conter o tiro. Mas quem é tocado pela arte pode”.

    A artista Graça Craidy. Foto Carlos Souza/Divulgação

    Expressionista, ela soma dezenas de trabalhos individuais e coletivos, em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília; no exterior, já apresentou uma mostra individual na Itália, onde também fez cursos em Roma e Florença.

    Relatório Lilás

    Com 165 páginas, o Relatório Lilás reúne uma série de textos, entre os quais o do presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos, deputado Adão Pretto Filho (PT). Ele diz que a realidade brutal “exige resposta enérgica, estrutura institucional e, acima de tudo, compromisso com a vida das mulheres”. Dado trazido por Pretto aponta que, em abril de 2025, o RS registrou um aumento de mais de 1000% nos casos de feminicídio em comparação com o mesmo período do ano anterior. Em um só mês, 11 mulheres foram vítimas de feminicídio.

    Em sua 4ª edição, o Relatório Lilás conclui que “a combinação de medidas judiciais céleres, mutirões processuais, capacitação da rede de proteção, educação para a igualdade de gênero e reeducação dos autores de violência, juntamente com o envolvimento em ações promovidas por outros órgãos, tem gerado resultados significativos”.

    Casos consumados e tentados – O Brasil registrou 6.904 vítimas de casos consumados e tentados de feminicídio em 2025, o que representa um aumento de 34% em relação ao ano de 2024, quando houve 5.150 vítimas. Foram 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, totalizando quase seis (5,89) mulheres mortas por dia no país. Os dados são do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina/PR (Lesfem/UEL).

    No início de fevereiro, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário firmaram o Pacto Brasil entre os Três Poderes para Enfrentamento do Feminicídio.

  • Festival Literário Rastros do Verão 2026: de 28 de fevereiro a 28 de março em Porto Alegre e Canoas

    Festival Literário Rastros do Verão 2026: de 28 de fevereiro a 28 de março em Porto Alegre e Canoas

    Porto Alegre e Canoas recebem a sétima edição do Festival Literário Rastros do Verão entre 28 de fevereiro e 28 de março. Oito livrarias da capital e uma de Canoas farão parte do evento idealizado para homenagear a memória e o legado literário de João Gilberto Noll e difundir a produção literária local.

    O festival contará com a presença de cerca de 50 autores e autoras em mesas de debate, leituras, saraus e sessões de autógrafos – entre alguns deles estão Carolina Panta, Clara Corleone, Diego Grando, Fabiane Langona, Fernanda Verissimo, Gabriela Leal, Guto Leite, Katia Suman, Luis Augusto Fischer, Luiz Maurício Azevedo, Moema Vilela, Matheus Borges, Rafael Corrêa, Rafael Guimaraens, Sabrina Dalbelo e Tailor Diniz.

    No dia de abertura, na Livraria Paralelo 30 (Rua Vieira de Castro, 48, bairro Farroupilha – Porto Alegre/RS), o festival contará com as participações de Magali Koepke, Ramon Castro Reis e Luiza Milano que debaterão temas de algumas das obras do autor homenageado.

    Confira a programação completa abaixo:

    Abertura
    28 de fevereiro, sábado
    Livraria Paranelo 30

    15h30 – O sublime e as ruínas, bate-papo com Magali Koepke e Ramon Castro Reis sobre a obra de João Gilberto Noll. Mediação: Luiza Milano.
    17h – Conversa com Cha Dafol. Mediação: Clô Barcellos.
    17h30 – Bate-papo com Clara Corleone e Gabriela Leal. Mediação: Carolina Panta.

    03 de março, terça-feira
    Livraria Taverna

    18h30 – Bate-papo e leituras com mariam pessah e Sabrina Dalbelo
    Mediação: Manuela Dipp.

    05 de março, quinta-feira
    Livraria Bancaberta

    18h30 – Bate-papo e leituras com Ana Costa dos Santos, Diego Grando e Guto Leite.

    07 de março, sábado
    Livraria Brasa

    16h30 – Conversa com Michelle Aparecida Marques dos Santos.
    17h30 – Bate-papo com Rafael Corrêa e Santiago.
    19h30 – Bate-papo com Lielson Zeni, Samanta Flôor e Márcio Barbosa (Barbosinha). Livro Bossa Nova, projeto Música Popular em Quadrinhos. Canja musical: Márcio Barbosa.

    10 de março, terça-feira
    Livraria Cirkula
    18h – Homenagem aos escritores Jorge Rein, Marco Celso H. Viola e Mario Pirata, com Celso Sant’Anna, Letícia Schwartz, Renato de Mattos Motta e Sidnei Schneider.

    12 de março, quinta-feira
    Livraria Brasa

    18h30 – Bate-papo com Fernanda Verissimo, Matheus Borges e Rafael Scavone.
    20h – Bate-papo com Fabiane Langona, Katia Suman e Celso Augusto Schröder.

    14 de março, sábado
    Livraria Macun

    10h30 – Leituras com João Pedro Marchi.
    11h – Bate-papo com João Pedro Marchi, Laura Jovchelovitch, Leila de Souza Teixeira , Moema Vilela e Rodrigo Bittencourt.

    Livraria Clareira
    15h30 – Bate-papo com Carolina Panta e Gustavo Melo Czekster. Mediação: Irka Barrios.
    17h – Bate-papo com Pedro Gonzaga e Marcello Giulian.
    18h – Bate-papo e leituras com Lilian Rocha, Marília Floôr Kosky e Moema Vilela.
    19h – Lançamento de Há uma enorme dor anunciada em Porto Alegre às seis da tarde, de Daniel Conte. Bate-papo e sessão de autógrafos com o autor.

    17 de março, terça-feira
    Livraria Clareira

    18h30 – Bate-papo com Rafael Guimaraens e Tailor Diniz. Mediação: Oscar Bessi.

    18 de março, quarta-feira
    Livraria Taverna

    18h – Lançamento de Como ser incrível (Ed. Diadorim), de Luiz Maurício Azevedo. Bate-papo e autógrafos com o autor.

    21 de março, sábado
    Bancaberta

    11h – Bate-papo com Mayara Floss e Vivian Nickel

    Livraria Bamboletras
    15h – Roda de conversa com o coletivo Mulheres de escrita.
    16h – Leituras com Alex de Cássio.
    16h30 – Conversa sobre a obra de Paulino de Azurenha com Alex de Cássio, Luis Augusto Fischer e Marcelo Martins Silva.
    18h – Bate-papo com Cláudia de Marchi e Helena Terra. Mediação: Gustavo Machado.

    26 de março, quinta-feira
    Bancaberta

    18h – Bate-papo com Ana Luiza Koehler, Marti Mombelli e Rafael Passos.

    28 de março, sábado
    Livraria Pandorga

    15h – Encontro com Christina Dias.

    Livraria Paralelo30
    16h – Bate-papo com Matheus Borges e Caroline Joanello.
    18h – Pé na porta (podcast ao vivo), Alice Urbim entrevista Christina Dias.


    Endereços:


    Bamboletras – Av. Venâncio Aires, 113 – Cidade Baixa (Porto Alegre/RS)
    Bancaberta – Praça Berta Starosta – Bom Fim (Porto Alegre/RS)
    Brasa – Rua José do Patrocínio, 611, Cidade Baixa (Porto Alegre/RS)
    Cirkula – Av. Osvaldo Aranha, 444 – Bom Fim (Porto Alegre/RS)
    Clareira – Rua Henrique Dias, 111 – Bom Fim (Porto Alegre/RS)
    Macun Livraria e Café – Rua Octávio Corrêa, 67 – Cidade Baixa (Porto Alegre/RS)
    Pandorga Livros – Rua Frederico Guilherme Ludwig, 370 – loja 3 – Centro (Canoas/RS)
    Paralelo 30 – Rua Vieira de Castro, 48 – Farroupilha (Porto Alegre/RS)
    Taverna – Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico (Porto Alegre/RS)