Autor: Kika Freitas

  • Tributo a Van Halen por Frank Solari: virtuosismo e amor ao Rock

    Tributo a Van Halen por Frank Solari: virtuosismo e amor ao Rock

    Texto feito em parceria com Karina Lacerda

    O exímio guitarrista Frank Solari fez na última quinta-feira, dia 29 de janeiro de 2026, um show Tributo a Van Halen. Acompanhando Frank, estavam os experientes  músicos Jonathas Pozo no vocal (Rage In My Eyes, Icona Rock), André Gomes no baixo (Cheiro de Vida) e Elias Frenzel na bateria (Reação em Cadeia).

    Foto: Karina Lacerda

    O público lotou o Sargent Peppers, tradicional Pub do bairro Moinhos de Vento, para assistir ao espetáculo, sendo que os ingressos já haviam se esgotado duas semanas antes. Inclusive, na fila da entrada do show, havia alguns desavisados que esperavam conseguir entradas na hora e acabaram saindo frustrados. Para esses, um consolo: Frank avisou que em breve haverá novas apresentações do projeto. Visivelmente o público era composto quase que majoritariamente por pessoas acima dos 40 anos – aqueles que presenciaram tanto o auge do Van Halen quanto o início da prodigiosa carreira de Frank nas décadas de 80/90 – embora se visse alguns jovens na plateia.

    Foto: Karina Lacerda

    A poderosa introdução do álbum 1984, que tocou ao fundo enquanto os músicos se posicionavam no palco, preparou a atmosfera do espetáculo. O show começou com a enérgica “Jump”, com Frank nas guitarras e também no teclado, usando nessa um timbre bastante fiel à sonoridade original. Aliás, Frank confessou que já estudava piano há seis anos antes de se dedicar à guitarra, e que justamente foi Eddie Van Halen quem o inspirou a trocar de instrumento principal. No set list ainda constaram hits consagrados das eras mais marcantes da banda: da fase Dave Lee Roth (“Panama”, “Hot For Teacher”, “Running With The Devil”, “Eruption”), à fase Sammy Hagar (“Love Walks In”, “When It’s Love”, “Why Can’t This Be Love”, a emocionante “Dreams” e a clássica “Right Now”). O bis ficou aos encargos de “Pretty Woman” (cover do consagrado sucesso de Roy Orbison) e “You Really Got Me”, uma grata surpresa em um espetáculo que não privilegiou apenas hits, mas também músicas não tão conhecidas do grande público, tais como “Main Street” e “House of Pain”.

    Foto: Karina Lacerda

    Vale lembrar que Frank, além da brilhante carreira solo com os álbuns
    Frank Solari” (que por sinal foi apresentado na íntegra no mesmo Sargent Peppers em 17/10/2024, quando completou 30 anos), “Um Círculo Mágico”, “Acqua” e “Multiversal”, também já se dedicou a outros tributos, tais como Iron Maiden, Santanna e até mesmo ao compositor barroco Antonio Vivaldi, no espetáculo “Vivaldi Elétrico”, apresentado com a Orquestra da Universidade Luterana do Brasil.

    Foto: Karina Lacerda

    Frank se mostra um músico completo e versátil. Não é apenas um “guitar hero” desfilando sua técnica impecável, mas também um grande intérprete, que emociona seu público com sua incontestável sensibilidade e amor ao que faz, confirmando seu lugar definitivo entre os grandes personagens da história da música gaúcha.

  • Erasure em Porto Alegre

    Erasure em Porto Alegre

    Impossível pensar em ir num show como Erasure e não deduzir que será apenas de hits ultradançantes para cantar junto. Apesar disso, Andy Bell trouxe, nesta quarta 21, muito de sua carreira solo para o público que lotou o Araújo Viana em Porto Alegre.

    Com figurino explendoroso e uma banda jovem, inclusive com a presença de Chelsea Blankinship, com quem divide o vocal de “Hart’s a Liar” (no álbum, parceria com Debbie Harry, do Blondie),  com certeza a grande surpresa foi o cover de “Xanadu“, da Electric Light Orchestra (mais conhecida na voz de Olivia Newton John em filme homônimo), especialmente quando Erasure já bebeu muito da fonte do ABBA, que nem deu os ares pelo setlist. Ainda assim, Andy Bell, no auge de seus 61 anos, mostrou carisma impecável, elogiou a plateia (falando da beleza do público aqui do sul), perguntou como se diz “I Love You” em português e fez clássicas danças de pista anos 80/90, num revival de emoções.

    O trabalho solo de Andy, “Ten Crows“, não chegou aqui com a força que o Erasure tem, sendo desconhecido ainda por grande parte do público, mesmo sendo contemporâneo e não abandonando suas origens. Ainda assim, o que levantou o público foram os clássicos “Blue Savannah Song“, “Chains of Love“, “Sometimes“, “Love 2 Hate U“, “Stop“, “Oh L’amour” e “A Little Respect“.

    Sem dúvida, a capital gaúcha vem numa crescente de shows muito interessantes, claramente voltando ao circuito das turnês nacionais, e o synthpop ainda atrai multidões, perceptível até quando, antes do telão subir, começou “Blue Monday“, do New Order, e já colocou as pessoas a dançar e se emocionar.

    Confira algumas imagens do show, de Karina Lacerda.

     

  • Information Society com Thea Austin e Noel em Porto Alegre

    Information Society com Thea Austin e Noel em Porto Alegre

    Assistir a performance de Noel, Thea Austin e Information Society em Porto Alegre, na noite deste domingo 14 de dezembro, é, além de uma volta à juventude, uma experimentação de como bandas que fizeram grandes hits dançantes dos anos 80 e 90 ainda mantém o pique e a identidade.

     

    Aos que esperavam uma incursão do Noel e da Thea no show do Information Society, depararam-se com mini shows de abertura, relembrando grandes hits com potência de palco de dar inveja às novas gerações. Paralelamente, ambos valeram-se de dançarinas que fizeram como um mash up de gerações, que brincavam com o pique dos anos 90 em coreografias simples e de movimentos curtos como tiktokers. E essa brincadeira e esses paralelos traçados foi o que, com certeza, marcou todas as performances da noite.

     

    Noel subiu ao palco com gana invejável. Apesar de apresentar apenas 3 músicas, onde “Like a Child” já fez todos no Araújo Viana cantarem junto. Mostrando grande potência vocal, sustentou a afinação e o fôlego com danças animadas e de movimentos amplos. Sua interação com o público é inpecável, com direito a pedido de desculpas por não saber português, mas arranhar bem o espanhol.

    Thea Austin é pouco conhecida aqui por seu nome, pois ficou mais aclamada por sua banda super 90’s SNAP!, banda que colocou nas paradas uma das maiores músicas da, então recém surgida, dance music, “Rhythm is a Dancer”. Com uma performance de palco fora da curva, onde ora interagia com o público, ora performava com as dançarinas no melhor estilo anos 80-90 (chegando a dar o microfone para uma delas assumir parte da música e interagir com o público). Tudo montada num salto 15 e figurino extravagante, maravilhoso para o palco e que a destacava diante de suas imagens no telão. O hit que fechou sua apresentação de 4 músicas foi “The Power”, que contou com o DJ saindo de trás das suas pick-ups e vindo puxar o coro “I’ve got the power”.

     

    Information Society era o show mais aguardado da noite, e apresentou um show cheio de inquietudes e dualidades. O vocalista Kurt Harland entregou uma performance teatral e irônica, e, se quisermos sair do óbvio de um show feito para dançar, certamente essa é a banda para isso. Afinal, o show abria com o seguinte dizer no telão:

     

    O show, dividido entre dois momentos distintos, abre com “Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds”, uma música instrumental, lado B, executada não apenas de uma forma sarcástica, mas com as roupas da banda remetendo àquela imagem de textura holográfica que se tinha do que seriam os anos 2000, enquanto o vocalista assumia um figurino com um casaco estruturado preto, podendo remeter a um ditador. Sua performance brincava bastante com essa ideia de autoritarismo, chegando a fazer sinal para o público ficar quieto – e o público obedecer, depois sendo satirizado pelo frontman por ser a única plateia do planeta a não fazer mais barulho depois. No telão, referências que apenas quem estava ali e fazia dança de reunião dançante entenderia, captando recortes de Godzilla ou da Enterprise (será que as dançarinas saíram do palco por não conhecerem as referências?).

     

    O segundo momento do show (por assim dizer) é marcado pela troca de roupa, onde o baixista James Cassidy (posicionado a esquerda) usa uma camiseta escrita YOU, o vocalista, ao centro, uma escrita ARE, e Paul Robb, a direita, CONTENT, novamente transitando nas palavras de ordem.

     

    A banda é conhecida por permear ora no adverso, ora nas referências. O fundo de sua performance, ultra colorido, formando recortes e enfatizando releituras e mudanças estéticas do tipo 8 bits (ou um cartuxo de videogame mal colocado), trazia todo tipo de movimento que se possa imaginar, criando colagens em cores tipo Keith Haring; tudo isso na melhor estética retrô-cideral, onde a referência Star Trek vem do sample do Dr Spock falando “Pure Energy” em “Whats on Your Mind”, um dos primeiros hits da banda e o bis obrigatório.

     

    O show for marcado por grandes solos experimentais, freestyle synth, muito mais intenso que a versão discotecada. A única versão similar à original veio no bis mais esperado, “Repetition”, música que encerrou a noite com clima de bailinho, apesar do final um tanto seco, sem despedida, mesmo após as brincadeiras de Kurt com o português.

    Um show que entrega muito mais do que as expectativas, mas que é um pouco menos dançante do que o esperado, onde todas as performances entregam muito mais do que o público estava prevendo. Noel chegou a aparecer para bater fotos no pós show e foi atender ao público no final.

    Imagens e videos: Karina Lacerda e Kika Freitas

     

  • Paulinho da Viola celebra sua história em “Quando o Samba Chama”

    Paulinho da Viola celebra sua história em “Quando o Samba Chama”

    Quem nunca assistiu Paulinho da Viola ao vivo, certamente, tem uma grata surpresa. Não unicamente pela figura calma, serena, quase tímida em palco, mas também pela beleza e simplicidade de sua voz que, além de afinadíssima, traz um acalento para a alma em arranjos complexos que, nesse soar, parecem tão simples. Parece impossível não trazer um pouco da própria história quando se assiste a um show desses, que revisita a própria história do artista, com suas parcerias e colaborações, assim como a sua construção como músico.

    Foto: Samanta Flôor

    O show, claramente, é uma celebração à vida. Uma celebração às origens e uma celebração aos que virão. A presença de Beatriz Rabello, sua filha, em palco, cantando lindamente e enfatizando como o Samba ainda é um ambiente prioritariamente masculino (e, ironicamente, mostrando que o palco só tinha ela de mulher) e seu filho violonista João Rabello, ao lado do pai o show inteiro, mostram que temos grandes músicos para perpetuar essa história.

    Foto: Samanta Flôor

    E quando se vê um show de estrutura simples no Araújo Vianna é quando o grande artista desponta. O cenário era praticamente um telão, por onde se passaram imagens e animações (in memoriam) assinadas pelo parceiro de longa data, Elifas Andreato, que, assim como outros grandes nomes, como Zé Keti, Cartola, Monarca, Dona Ivone Lara e Clementina de Jesus, foram exaltados como figuras enfáticas em sua carreira musical. A direção de arte não deixou em nada a desejar, não apenas enaltecendo tais figuras, mas sutilmente criando desenhos de luzes que nos mostram que também estávamos de frente a uma figura que já tem seu nome marcado na história do Samba.

    Foto: Samanta Flôor

    Paulinho da Viola e seu jeito discreto em palco revisitou não apenas amigos, mas histórias que nos remeteram a como as coisas funcionavam antigamente, inclusive desmistificando a tal competitividade da Portela e da Mangueira, contando que outrora (como até hoje) se visitava os barracões dos “adversários”. Sua interação com o publico é gentil e sutil, e sua gentileza em dividir sua história nos permite ter outra visão sobre o Samba.

    Quem acha que esse jovem senhor de 82 anos está perdendo seu pique, por um setlist que, além de grandes sucessos, contava com muitas músicas menos conhecidas e muitos choros, não apenas se surpreende ao vê-lo fazer grande parte do show de pé, mas por nos brindar com um samba no pé no bis, em “No Pagode do Vavá“. Visivelmente emocionado desde que cantou “Para ver as Meninas” – mesmo seguida de “Argumento“, onde a plateia cantou em uníssono – fica claro como o público também é um elemento dessa trajetória, e que também merece ser lembrado e enaltecido.

    Foto: Samanta Flôor

    Parece impossível assistir a “Quando o Samba Chama” sem ser de uma forma afetiva. Não só pelo que Paulinho da Viola simboliza, mas porque sua arte e seu talento nos remete a isso.

    Na minha história, certamente faltou “Coisas do Mundo, Minha Nêga”, mas na história dele, essa música ficou num disco ao vivo no passado. E talvez essa seja a beleza que a música como arte anda perdendo de muitas formas: permitir que as histórias se entrelacem e construam novas narrativas.

     

    Fotos Samanta Flôor

     

     

     

     

     

  • Nação Zumbi trouxe Da Lama ao Caos de volta ao Opinião em Porto Alegre na noite de ontem

    Nação Zumbi trouxe Da Lama ao Caos de volta ao Opinião em Porto Alegre na noite de ontem

    Modernizar o passado
    É uma evolução musical
    Cadê as notas que estavam aqui?
    Não preciso delas!
    Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos
    O medo dá origem ao mal
    O homem coletivo sente a necessidade de lutar
    O orgulho, a arrogância, a glória
    Enche a imaginação de domínio
    São demônios os que destroem o poder bravio da humanidade
    Viva Zapata!
    Viva Sandino!
    Viva Zumbi!
    Antônio Conselheiro!
    Todos os Panteras Negras
    Lampião, sua imagem e semelhança
    Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia

    Parecia impossível não se arrepiar ao ecoar das frases da abertura com “Monólogo ao pé do Ouvido”, dessa vez com o timbre mais intenso de Jorge du Peixe, quase inaudível com a plateia lotada cantando junto. Mesmo revisitada em muitos shows da Nação Zumbi, revisitar “Da Lama ao Caos“, álbum de lançamento de Chico Science e Nação Zumbi, trouxe quem viu o saudoso Chico Science e gerações que só ouviram falar para cantar, pular, vibrar e viver um pouco do movimento Manguebeat, na noite de ontem no Opinião. 

    Os arranjos levemente mais pesados, alinhados ao timbre de Jorge Du Peixe, atenderam fielmente ao que se esperava do show, que não contava com nenhuma tentativa de cópia dos shows dos anos 90. Muito melhor que isso, a referência de que Chico Science permanece vivo se mostrou em algumas poucas frases e no chapéu de palha do cantor, morto num acidente de carro em 1997.

    E quando o álbum comemora seus 30 anos, percebe-se que a Nação Zumbi segue em forma, seguindo seus conceitos de valorizar (e espalhar) a cultura pernambucana, ainda tão surpreendente aos olhos gaúchos. Não só por mencionar o companheiro de Movimento Mangue Fred Zero Quatro, do Mundo Livre SA, compositor de “Computadores fazem Arte”, mas também por ressaltar a parceria musical muito comum pelo Recife, enfatizando que o baterista é da Academia da Berlinda, banda que claramente também bebe da fonte do mangue. Mais que isso, o maracatu é reverenciado em diversos momentos do show, desde os tambores virarem frontmen, até a presença da indumentária, propagada ao grande público pelo clipe de “Maracatu Atômico“, que apareceu em palco inicialmente em “Salustiano Song” – música em homenagem ao Mestre Salustiano, do Maracatu-, ao lado da primeira aparição no show de Maciel Salú e sua rabeca, instrumento muito pouco mencionado por aqui e tão nordestino.

    Com um bis de 5 músicas, sem saída de palco, com “Foi de Amor“, “Manguetown“, “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada“, “Quando a Maré Encher” e “Maracatu Atômico“, o show durou mais de uma hora e meia e trouxe um suspiro de esperança com seus gritos de ordem e suas letras politizadas reflexivas, na ponta da língua de todas as gerações que estavam no show, que até esqueceram seus celulares no bolso e apenas viveram (e dançaram) o momento.