Plano Diretor é um pacto que todos devem fazer parte de sua construção.

Adeli Sell

A Prefeitura Municipal de Porto Alegre em seu sítio eletrônico ao apresentar o tema da REVISÃO DO PLANO DIRETOR nos diz que:
“Mais do que uma Lei, o Plano Diretor é um pacto entre a
sociedade, o Estado (enquanto entidade técnica que deve
trabalhar para concretizar o pacto) e os governos (atual e os que virão até 2030). Ele influi em questões como o tempo que gastamos para nos deslocar na cidade, a segurança, a qualidade de vida e a capacidade de prevenção a eventos climáticos extremos. E, para garantirmos a manutenção desse pacto ao longo da década, é fundamental que todos façam parte de sua construção.”

Neste mesmo espaço, os gestores locais sinalizam os passos que foram dados de 2016 até hoje, como as várias consultorias, mesmo não se pronunciando sobre seus resultados, reunião temáticas etc.
PACTO
Sim, não dá para negar que o resultado do Plano Diretor seja um pacto, já que tem um aval final do poder legislativo local, que deve ser a representação do todo da sociedade.
Mas para começar a realizar um pacto, como reza a lei para fazer e revisar o Plano ela tem que ter havido ampla e democrática participação popular.
A realização de uma audiência pública num sábado, com
decisão no dia anterior de sua suspensão pela Justiça e depois à noite uma decisão da cassação da decisão, numa verdadeira dança de canetas, não pode ser tida como a forma mais ampla e participativa para o povo.

Porto Alegre tem oito Regiões de Planejamento com seus
representantes eleitos pela participação popular, ampla ou não, mas tem.

Em nenhuma destas foi realizada uma atividade aberta em qualquer momento. Como somos uma sociedade que gira 24 horas por dia, as plenárias deveriam ser em horários diferentes para o povo poder
participar. Ademais, nenhuma atividade foi chamada par debater o que chamamos de corredores de desenvolvimento como o econômico, cultural e ecológico. Logo, mais uma falha. Logo, este tal pacto posto e falado pelos gestores locais deve ser questionado.

* Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito.

ENIO SQUEFF/ Arthur Moreira Lima

A morte de meu amigo, Arthur Moreira Lima, aos 84 anos, me remete a algumas reflexões que sempre pairam em minha mente e sobre as quais nunca me ocorreu escrever.
A primeira é que Florianópolis, homenagem a Floriano Peixoto, um dos presidentes militares mais façanhudos que tivemos, continua o que foi no seu
começo, “Ilha do Desterro”.

Ou seja, não são poucos, principalmente gaúchos, que se
aposentam e se tocam para Florianópolis. Arthur, que não era gaúcho, mas frequentava o melhor boteco da orla da praia do Santinho – o “Bar do Diabão”, apelido de seu
proprietário, Fernando Saes, mulato gaúcho de olhos intensamente verdes (daí o apelido), que com a sua companheira, a Gorete, imprimiam ao lugar uma magia que só os iniciados, os amigos dele e dos que o frequentavam, sabiam avaliar.
Arhur era um dos que se juntava aos desterrados. Depois de sua saída dos palcos do Brasil, onde seu Chopin iluminava seu Ernesto Nazaré, Arthur, como fizeram e fazem muitos intelectuais e jornalistas, decidiu que sua vida se faria olhando para o belo céu e o mar que desbordam na ilha.
A outra reflexão tem a ver com isso – o fascínio de ter uma velhice tranquila e talvez uma morte idem.

Falo do assunto, porque nunca conversamos a sério sobre
qualquer destas duas coisas: o fascínio da ilha, os desterrados em busca do ócio, a velhice. E a morte.

De Arthur, porém, me ocorre uma noite em que bebemos na casa de um ricaço paulistano várias garrafas de Romanée-Conti – sim, de Romanée-Conti, talvez o
vinho mais caro do mundo, que mesmo a um inexperto em vinhos como eu, me foi e será sempre o melhor que bebi em minha vida.

Saímos de manhã da casa do homem e a história pararia por aí não fosse um detalhe: no dia que já raiava, o Arthur
me disse que, dali a pouco, ou seja, às sete horas da manhã, tinha marcado um encontro com Luís Carlos Prestes. Gostaria de acompanhá-lo?
Aceitei na hora. Mal tive tempo de me recompor, fui à casa do Arthur que morava na avenida São Luís e, a pé mesmo, nos tocamos para o apartamento, também na São Luís, em que o legendário comandante se hospedava e que, àquelas horas, já nos aguardava. Foi uma conversa mais ou menos frouxa, como não podia deixar de ser, com
os dois notívagos fedendo a álcool.

Enquanto o Arthur e o Prestes conversavam sobre a Rússia, ainda União Soviética, deu-se que o Comandante
matou uma curiosidade que eu trazia há anos: ao lhe lembrar que em quase todas as cidades brasileiras há um parque ou rua Siqueira Campos, perguntei-lhe sobre o homem. Quem era o mais bem homenageado dos tenentistas de 24?

Prestes era um homem franco. Disse, sem meias palavras, que Siqueira Campos “era o mais bonito dentre nós”
(os tenentes que formaram a Coluna Prestes). E não apenas isso: era “também o mais valente”.

Prestes contou que as missões mais perigosas eram sempre confiadas a ele. Fiquei surpreso. E lembrei que  quando morreu afogado, num desastre de avião, na Baía de Guanabara, Siqueira Campos, exímio nadador, tentou
salvar um homem que, não sabendo nadar, levou com ele, para o fundo do mar, o impávido tenente. Abraço de afogado.
Certamente minhas lembranças do Arthur não se limitam à noitada e à conversa com Prestes.

Foi um grande pianista. Um dos melhores que o Brasil já teve. Chegamos a nos estranhar algumas vezes. Mas além de pianista, era um poderoso contador de histórias. Só que sempre um músico fantástico. Uma amiga que compartilhou com ele algumas aulas de piano no Conservatório de Moscou, contou-me que quando Arthur se apresentava, juntava sempre uma plateia entusiasta de colegas russos, europeus, americanos.

Era um exímio chopiniano, famoso no conservatório e em Moscou. O próprio Arthur confessou numa conversa que tivemos em Floripa, no bar do Diabão evidentemente, que não conhecia melhor cidade que Moscou, o que nos surpreendeu a todos que dividíamos a mesa com ele.

Mas não foi esta a única surpresa patrocinada por
Arthur Moreira Lima. Certa vez, em sua casa, em São Paulo, me fez ouvir uma das músicas de que mais gostava: nada menos do que um intermezzo do “I Pagliacci” de Leoncavallo. Para os que se surpreendem, informo que Chopin, que Arthur tocava magnificamente, preferia Bellini a outros compositores que o frequentavam, como Liszt,  ou que ele conhecia, como Beethoven, Bach, Mozart…
Em tempo: na semana retrasada, como que a antecipar a morte de um de seus mais importantes frequentadores de seu bar legendário, morreu também, em Porto Alegre,
Fernando Saes, o Diabão.
Triste sina, esta, dos velhos a escrever sobre seus mortos. (Enio Squeff)