Dora Lampert e Lise Lampert fazem apropriação instigante de arte visual clássica, no ano da peste

Dora Lampert. Arquivo pessoal/ Divulgação

Higino Barros

O ano de 2020 vai entrar para a história da humanidade como inesquecível. Será conhecido, entre outras coisas, como o ano da peste. Assim o chama a multi artista Dora Lampert. A autora da definição, com sua irmã Lise Lampert, faz um dos trabalhos visuais mais instigantes visto atualmente nas redes sociais, postados no Instagram e no Facebook. A reprodução de quadros de artistas plásticos consagrados.

Uma iniciativa praticada ao redor do mundo, desde que a pandemia do Covid 19 obrigou ao isolamento social. Mas com uma apropriação original, caseira e cosmopolita que faz o trabalho das irmãs Lampert ser reconhecido e apreciado por quem bate o olho nele.

Lise Lampert. Arquivo pessoal/ Divulgação

Pinturas de Leonardo Da Vinci, Picasso, Vincent Van Gogh, Nicolas Régnier, Edgar Degas, Ticiano, Lucien Freud, Elin Danielsen-Gambogi, Marciano Schmitz, Ernesto Frederico Scheffel, Diego Velásques, Albert Edelfelt, Johannes Vermeer, Caravaggio, Ricardo Garopaba Blauth, entre outros fazem parte da apropriação artística das irmãs, residentes em Novo Hamburgo.

“Uma de minhas interpretações prediletas. Egon Schiele cujos desenhos e pinturas ainda são símbolos poderosos de luta psicológica, honestidade emocional e liberdade sexual”

Nessa entrevista Dora Lampert fala sobre como foi o processo artístico de cada obra reproduzida aqui.

JÁ – Como surgiu a ideia desse trabalho?

Dora Lampert – A ideia surgiu quando vi um pequeno vídeo de pessoas retratando obras de artistas famosos. Estávamos tomando café, minha irmã e eu, no início da sétima semana de isolamento e a opressão era visível, pesando sobre os dias. Então perguntei para a Lise se ela topava fazer umas fotos para mim. Ela no princípio ficou resistente, mas depois das primeiras publicações, ao perceber o entusiasmo das manifestações de nossos amigos, tornou-se a mais entusiasta do projeto, chamando-me já cedo pela manhã com a cabeça repleta de ideias e boas soluções para nossas interpretações e desde aquele dia, até agora, nossas manhãs ganharam outra vida. Sim, a arte salva.

“A interpretação que mais nos deu trabalho de cenário. Elin Danielson-Gambogi, artista finlandesa. Conhecida por suas obras e retratos realistas, fez parte da primeira geração de artistas finlandesas que receberam educação profissional em arte, a chamada “geração das irmãs pintoras”.

Assim, no ano da peste surgiu Leonardo Da Vinci, Picasso, Vincent Van Gogh, Nicolas Régnier, Edgar Degas, Ticiano, Lucien Freud, Elin Danielsen-Gambogi, Marciano Schmitz, Ernesto Frederico Scheffel, Diego Velásques, Albert Edelfelt, Johannes Vermeer, Caravaggio, Berthe Morisot, Angelina Agostini, Andy Warhol, Eva Gonzáles, Tarsila do Amaral, Mary Cassat, Marie Bracquemond, Anita Malfatti, Henry Asencio, Zina Aita, Giovanni Bellini, René Magritte, Gabriel Rossetti , Bispo do Rosário, Paul Gauguin, Sérgio Lopes, Magna K. Sperb, Rita Gil, Maria Paula Figueiroa Rego, Robertson Frizero, Raduan Nassar entre outros.

“A interpretação mais ambiciosa. Da série Prendas do artista gaúcho Ricardo Garopaba Blauth que é nosso amigo e um grande entusiasta das artes”

Anita O’day, John Waterhouse. As porcelanas ,Djanira da Motta e Silva, Das cartas, Amadeo Modigliani, Walter Pach, Egon Schiele, Gustav Klimt, Paula Moderson-Becker, Henri Toulouse-Lautrec, Érico Veríssimo , José Ferraz de Almeida Junior, Manuel de Barros, Gabriele Münter ,David Teniers, o jovem, Jan Van Beers, o mais novo, Robert Buyle, Guy Cambier, Claude Monet e Malcolm Liepcke

Foram os artistas – ou ideias – que abordamos, alguns dos quais trabalhamos mais de uma vez, tanto que já perdemos a conta de quantas publicações foram feitas.

“As interpretações de resultado inesperado. Não conhecíamos a história de Modigliani e nem de seu trágico desfecho. Foi impossível condensar a biografia desse artista e de sua musa e amante Jeanne em apenas uma interpretação. Duas vidas de paixão e arrebatadas pelo destino.”

 

Ideia inicial

O nosso intuito inicial era fazer uma releitura das obras, mas à medida que o trabalho foi evoluindo passamos a fazer uma interpretação, onde a obra do artista nos traz a imaginação e o clima para o exercício livre de nossa criatividade.

Minha atuação por longos anos na área da propaganda deixou meu olhar afinado para a estética. Meu amor pelas artes em geral, música, literatura, teatro, sempre nortearam minha vida, apesar de hoje ser proprietária de uma pequena empresa de prestação de serviços com as atividades interrompidas temporariamente em função do quadro atual.

“A interpretação que mais nos rendeu risadas. Apesar da beleza e seriedade da obra de Angelina Agostini que em 1914 viaja para a Europa, com o quadro que lhe rendeu o prêmio. Vaidade, à tiracolo”

JÁ – E a questão da fotografia. Como foi resolvida?

Dora Lampert – Como fotógrafa amadora, a Lise nunca havia se envolvido com um projeto dessa grandeza. Suas fotos sempre foram fruto de suas viagens em férias ou recantos domésticos, usando apenas seu telefone móvel. Mas ela recorda que há alguns anos, ao receber um convite para um concerto na Fundação Scheffel, retratando uma obra do artista que dá nome a casa, onde o detalhe era uma natureza morta de um vaso repleto de rosas, percebeu que o vaso que estava na mesa de nossa cozinha era idêntico ao do convite e não se conteve em retratá-lo.

A interpretação de melhor resultado:” O homem amarelo”, de Anita Malfatti. Foi um desafio e uma de nossas prediletas.”

As pesquisas das obras iniciam em nossos cafés da manhã. De forma muitas vezes aleatória ou induzidas por alguma sugestão, os artistas vão surgindo como num desfile. As biografias de cada artista estudado geralmente nos trazem nomes pouco conhecidos, mas que tem obras impressionantes. Nossa preferência sempre pontuou obras de pouco reconhecimento, mesmo dos artistas mais renomados. As Monalisas e as Fridas já foram amplamente exploradas nesse tipo de interpretação. Vamos lhes dar uma trégua.

“Sair um pouco das obras de arte e entrar em personas foi igualmente interessante. Anita O’Day, também conhecida como The Jezebel of jazz foi uma indicação do músico e curador do PoaJazz Festival Carlos Badia.”

Nosso objetivo primordial foi desde o início manter o isolamento social. Para tanto, nada foi adquirido. Todos os objetos, figurinos, adereços e cenários, estavam ao alcance de nossos domínios domésticos. A cozinha foi nosso estúdio, o jardim, os campos. A iluminação, um abre e fecha da cortina, as vezes a luz de emergência ou o abajur da mesa de cabeceira. O paninho impregnado de álcool 70 virou babados barrocos; os lençóis, vestidos épicos; as saias se transformaram em blusas bufantes e vice – versa.

O equipamento fotográfico? Um aparelho celular Samsung 5J Prime com edições em dois aplicativos no próprio telefone -Pixlr e Snapseed.

O isolamento antes de tolher nossos intentos, animou nossa criatividade, trazendo momentos de muita diversão também.

“Mulher lavando os pés…foi nossa criação.”

JÁ –  Como se dá a escolha dos artistas e dos temas?

Dora Lampert: Todo trabalho foi estudado sempre em conjunto. Desde a escolha do artista e da obra até a finalização. E todos superaram as nossas expectativas. A repercussão de nossos amigos foram um dos grandes impulsionadores para que o projeto – No ano da peste – tomasse esse vulto.

“Uma das prediletas. Proserpine – 1874. Obra de Gabriel Charles Dante Rossetti. O rapto de Proserpina por Plutão é uma das lendas mais conhecidas da mitologia romana.”

Lise atua como técnica de enfermagem desde 1998. Trabalha num grande hospital público da região metropolitana e está afastada temporariamente do cargo por seu médico traumatologista.

Os artistas que estiveram conosco, nos ensinaram, nos fizeram rir, sonhar e chorar. Com eles nós sobrevivemos a nós mesmas no ano da peste.

“Interpretar Ana Terra de Erico Veríssimo com a dramaticidade que o personagem pede foi um grande momento.”

Manuel de Barros? Sim, pensamos que ele daria mais importância as folhas decaídas do que aos próprios anjos. Então, as folhas secas de nosso jardim com texto meu, inspirada nesse grande poeta: Folhas secas não são como pontos finais/são vírgulas entre as estações frias/elas não pontuam/mas tropeçam sobre o tempo/ abrindo sonhos/ para que se veja o céu/ virando exclamação”

“No dia de São João só poderíamos trabalhar uma obra de Ricardo Garopaba Blauth, Pau de Fitas. Foi a interpretação que mais deu trabalho de edição, mas foi a que nos deu muita satisfação em realizar.”

 

Dora Lampert, amadora das artes, no ano da peste

 

 

 

 

 

 

7 comentários em “Dora Lampert e Lise Lampert fazem apropriação instigante de arte visual clássica, no ano da peste”

  1. Conhecendo vocês como conheço só reforça minha grande admiração por vocês.
    Conseguiram transformar um dos momentos mais tristes que estamos vivendo que é essa peste em arte beleza e cultura.quando vejo o trabalho de vocês por alguns momentos esqueço o quão difícil está trabalhar lá fora.
    Vocês são demais
    Parabéns lise e Dora.
    Parabéns dona Líska por construir esses dois
    Talentos.

  2. Maravilhoso o que essas duas tem feito, nos presenteando com as suas leituras de obras e trazendo a história da arte até nós. Gratidão!

    1. Trabalho instigante, criativo, bello, arte intensa, coração/mente, plenitude.
      Dora e Lise Lampert, obrigado por tanta generosidade e talento! ??❤??❤

  3. Parabéns Dora e Lise! Um trabalho fantástico, verdadeiras obras de arte, digno de uma exposição. Um show de talento!

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