Uma das novidades da 65ª Feira do Livro de Porto Alegre é o livro do jornalista Gilberto Lenuzza Pauletti, lançado pela Editora JÁ: “De Cruz Alta ao Irã – Memórias de um Jornalista”
Cruzaltense, radicado no Rio, Pauletti traça com clareza e fluência um painel amplo da política e, principalmente, da imprensa brasileira que ele conheceu por dentro em quase 50 anos de atividade profissional nos principais veículos de comunicação do país. Sua passagem pelos jornais de Porto Alegre, logo que saiu de Cruz Alta aos 18 anos, rende deliciosos episódios que retratam tempos difíceis para quem tinha o ofício de informar.
O livro está a venda na banca da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) em frente ao Bistrô do Margs, na Martins Livreiro e na Rígel. Pela internet, aqui.
O livro foi bem recebido pelos jornalistas, como indicam as resenhas:
Edgar Lisboa
De Cruz Alta ao Irã, Memórias de um Jornalista” é o livro de autobiografia do gaúcho Gilberto Lenuzza Pauletti, reconstruindo sua trajetória desde a infância, junto aos avós, pais e irmãs, no interior do rio Grande do Sul, até sua nutrida carreira como repórter, editor e chefe de redação nos maiores jornais do País.
É um relato rico, saboroso, que é o espelho de uma geração de profissionais de imprensa que predominaram no mercado a partir da segunda metade dos anos 1960 . Íntegra aqui.
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Juremir Machado, no Correio do Povo
A pilha de livros é grande, plural, provocativa. Passo uma tarde em companhia de “Memórias de um jornalista, de Cruz Alta ao Irã (Já), de Gilberto Lenuzza Pauletti. Longe da querência, Pauletti andou pelo mundo e trabalhou em grandes veículos, entre os quais Veja e O Globo. O seu relato é apaixonado, jornalismo na veia, recordações em tom de reportagem: “Fui para Porto Alegre em abril de 1963, três meses antes de completar 18 anos. A capital vivia em clima de efervescência. Ali estava sendo realizado o maior evento esportivo do mundo universitário, as Universíades – Olimpíada Mundial Universitária. De repente, aquela próspera – mas ainda provinciana – e mais importante cidade do Sul do Brasil se tornara a capital mundial dos atletas universitários.
A história de um jornalista é quase sempre um pedaço da história de um país: “O aprendizado foi enorme. Principalmente, para quem tinha saído do outro extremo do Brasil. Vocabulário, sotaque, comportamento – fui aconselhado, por exemplo, a cortar os cabelos e raspar a barba. Imagem que lembrasse Fidel ou Che Guevara não pegava bem. O colega Safiotti foi chamado para depor no Dops. Motivo: ele tinha na parede da sala um pôster de Che”. Esse era o tempo do qual alguns sentem saudades. Ditadura.”
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RESENHA
Um Jornalista de Seleção – Geraldo Hasse
“Esta é a história de um menino que nasceu em uma pequena cidade do interior, no Rio Grande do Sul, em 1944. Uma cidade em que quase todos se conheciam”.
Parece o início de um prefácio escrito por uma terceira pessoa, mas é assim mesmo, sem rodeios, que o jornalista Gilberto Pauletti começa De Cruz Alta ao Irã – Memórias de um Jornalista (JÁ Editora, 2019), livro de 208 páginas em que reúne uma centena de causos narrados de forma jovial e bem-humorada, como se ele nunca tivesse deixado de ser o menino citado logo na primeira linha.
Sem dúvida, Cruz Alta pode se orgulhar de ter dado ao Brasil “esse menino”. Desde pequeno ele foi irrequieto. Na adolescência, não escondia o ímpeto de ir embora. Deixou a terra natal aos 18 anos incompletos para estudar em Porto Alegre e, depois de girar por várias capitais, fez do Rio de Janeiro sua morada definitiva.
Sua única dúvida, hoje, é saber se vai ser possível lançar pessoalmente o livro em todas as cidades onde trabalhou, cultivou fontes e fez amigos. Em Porto Alegre, o lançamento foi em julho.
Pauletti ocupa as primeiras 80 páginas do livro contando sua infância e adolescência em Cruz Alta, cidade de 50 mil habitantes sem televisão e cujo maior vulto, Erico Verissimo (1905-1975), também partiu cedo para fazer história.
Duas das maiores atrações da cidade eram os trens da Viação Férrea e os ônibus da Viação Ouro e Prata.
Depois de um portfólio fotográfico que mostra personagens importantes na sua trajetória, ele deixa rolar a segunda parte, um desfile de episódios saborosos sobre sua vida profissional.
Antes de trabalhar na imprensa, ele foi bancário. No dia de uma passeata estudantil, nos idos de 66, faltou ao trabalho para participar da manifestação duramente reprimida pela polícia. Correndo, na fuga, teve de passar na frente do banco em que trabalhava. Demitido no dia seguinte.
A experiência bancária como pesquisador de cartório de protestos serviu de inspiração na escolha do curso superior que Pauletti gostaria de frequentar. “Escolhi o jornalismo porque descobri que gostava de bisbilhotar a vida alheia”, explica na página 100 do livro.
Entrou na UFRGS em 1965. No final de 1967, fez estágio na Zero Hora e foi contratado como repórter, sendo incumbido de cobrir as áreas militar, sindical e universitária. Barra pesada para um principiante, mas ele conta, sinceramente, o quanto se divertiu na busca da verdade. Um dos seus causos mais longos focaliza a cobertura das manobras militares de Saicã, no meio oeste gaúcho, no final da década de 60.
Em 1968, fez parte do grupo de oito gaúchos selecionados para trabalhar na recém-fundada Veja, “revista semanal de informação” da rica Editora Abril, que ganhava muito dinheiro com revistas infantis (Pato Donald), femininas (Capricho, Claudia), especializadas (Quatro Rodas) e de interesse geral (Realidade).
Entre uma centena de jornalistas treinados durante meses em São Paulo, Pauletti foi destacado para trabalhar inicialmente como repórter em Recife, enquanto os colegas gaúchos foram designados para Porto Alegre (Paulo Totti) e Curitiba (Elmar Bones); ficaram na redação de São Paulo os outros cinco: Caio Fernando Abreu, Enio Squeff, Hélio Gama Filho, José Antonio Dias Lopes e Laerth Pedrosa Jr.
Com exceção de Caio Abreu (1948-1996), que morreu consagrado como escritor, todos estão na lida jornalística em algum lugar do Brasil. Alguns já escreveram livros. Pauletti é o primeiro a colocar suas memórias em pé.
É livro fácil de ler porque não se detém em análises ou comentários sobre as tarefas do jornalista ou a missão da imprensa. Ele se satisfaz contando causos envolvendo as mais diversas pessoas – cultas, ignorantes, poderosas ou não, de direita e de esquerda –, com o que deixa claro que o jornalismo gira essencialmente em torno da vida humana. Os próprios fatos falam pelas personagens.
A cada página são citadas duas ou três pessoas envolvidas em algum episódio dramático ou engraçado. Somando todas, temos um elenco de centenas.
Tudo verdadeiro e narrado com bom humor, em textos sem firulas — marca de alguns dos melhores veículos em que trabalhou o repórter e editor de Veja, do Jornal do Brasil, de O Globo e da Gazeta Mercantil, entre outras experiências que incluem assessorias de instituições como a Confederação Brasileira de Vôlei e a Petrobras.
Um dos melhores trechos do livro narra a verdadeira história de Pedro Louzada Balaustre, empresário do vale do Taquari inventado por jornalistas de Porto Alegre no auge da ditadura militar, na segunda metade dos anos 1970.
Numa finíssima ironia com o “milagre brasileiro” do ministro Delfim Netto, Pedro Balaustre foi apresentado como o chefão do “Grupo Ivanhoé”, formado por várias empresas em que aparecia até a Ivanhopress, especializada em assessoria de imprensa.
Após alguns dias, apareceu num jornal de Porto Alegre um convite fúnebre: Pedro Louzada Balaustre tinha morrido… Embora nunca ninguém tivesse ouvido falar dele, dois deputados estaduais chegaram a ir à tribuna da Assembleia Legislativa para lamentar seu “falecimento”. Os leitores desavisados se surpreenderão ao saber que um dos autores dessa memorável molecagem (“fake news”) é hoje o âncora de um dos programas mais ouvidos do rádio gaúcho.
O único trecho triste do livro é a história da morte de Thiago Pauletti, seu filho de 12 anos.
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