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Janeiro de 2020 está próximo e a língua portuguesa já pode comemorar os 100 anos de um marco em sua história: o nascimento de seu mais obcecado aprendiz, João Cabral de Melo Neto. Como pernambucano universalizou canavial, Capibaribe, caranguejo e cova. Como diplomata não se limitou a seguir carreira, contemplou cada cidade em que permaneceu, mas foi Sevilha que conquistou o escritor, atingindo em seu imaginário e labor criadora status equivalente à Recife de seu nascimento. Neste recital, o escritor brasileiro, que tem em suas bases fundadoras Le Corbusier, Mallarmé, Valéry, Murilo Mendes, é evocado por este momento específico, porém determinante em sua vida/obra: seu período em Sevilha. Na saudável esteira do desacato aos princípios do poeta, a atuadora Ana Campo ousa colocar em cena um exercício que afronta o que João Cabral afirmou ser a única possibilidade de contato com sua obra, à exceção de “Morte e Vida Severina (1955)” e “Outros Poemas em Voz Alta (1984)”, a leitura individual, nunca recitada ou declamada e, para completar a total desobediência, homenageá-lo com este gesto. “Há que sevilhizar a vida. Sevilhizar o mundo.” São de Sevilha Andando e Andando Sevilha (obras articuladas entre 1987 e 1993) os dez poemas evocados no projeto “João Cabral Sevilhizador – 100 anos em 10 poesias”. Mas “Cidade de Nervos”, “Sol Negro”, “Sevilhana Pintada em Brasília”, “Presença de Sevilha”, “Na Cava, em Triana”, “O Sevilhano e o Trabalho”, “Intimidade do Flamenco”, “Juan Belmonte”, “Carmen Amaya, de Triana”,”Sevilha e a Espanha”, são evocados não por uma atriz que, impondo-lhes a carga dramática decorrente da vocação, contraria por completo João Cabral. A trajetória cênica de Ana Campo, forjada no teatro dialético brechtiano, corrobora, felizmente, com a obra da escassez. Para citar apenas um par de afinidades, o que se promove é o distanciamento entre sujeito e objeto de reflexão e o que se privilegia é o “mostrar” perante o “sentir”. O violão de Marcel Estivalet, clássico por formação, espanhol por inclinação em seus mais recentes trabalhos, não toca o “pano de fundo” das poesias, instaura em cena não só clássicos da música espanhola, mas composições elaboradas para o presente trabalho. As composições poéticas de João Cabral de Melo Neto têm aqui sua antítese: a musicalidade, mas com uma qualidade de qual gostava, “de fora para dentro”. No corrente ano de 2019, completam-se 50 de sua posse na cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 1968. “Motivos convencionais para a apresentação deste recital não nos faltam e, ao contrário, nos sobram motivos culturais e estéticos para tal desafio”, comenta Ana Campo. O recital será apresentado neste domingo, 13 de outubro, às 19h, no Café Fon Fon. SERVIÇO: O Quê: “João Cabral Sevilhizador – 100 anos em 10 poesias”. Recital com Ana Campo e Marcel Estivalet. |

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