O Brasil e a China são “parceiros estratégicos e atores incontornáveis” no atual contexto geopolítico, em meio ao “ressurgimento de tendências protecionistas”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em maio passado em viagem oficial a Pequim. Lula participou do Fórum Empresarial Brasil-China e anunciou que os chineses investiriam mais R$ 27 bilhões no Brasil especialmente nas áreas de infraestrutura e tecnologia.
A parceria estratégica deu novos frutos esta semana, com o anúncio do chefe da Casa Civil do governo federal, Rui Costa, de que a empresa chinesa de satélites de órbita baixa SpaceSail começará a fornecer acesso à internet para áreas remotas do Brasil no primeiro semestre de 2026.
Satélites de órbita baixa (LEO, Low Earth Orbit) são satélites que orbitam a Terra a altitudes relativamente próximas, geralmente entre 500 e 2.000 km, em contraste com os satélites geoestacionários muito mais distantes (cerca de 36.000 km). Por estarem mais perto, oferecem velocidades de internet mais rápidas, sendo ideais para comunicação em tempo real.
O memorando de entendimento assinado em novembro de 2024 com a Telebras já previa que as empresas estudassem a demanda por internet via satélite em locais que a infraestrutura de fibra óptica não chega, como áreas rurais, e a possibilidade de parcerias para levar inclusão digital a essas localidades. A expectativa é conectar mais de 138 mil escolas, 40 mil unidades de saúde e 13 mil centros de assistência social, combinando infraestrutura de fibra óptica com tecnologia via satélite.
A SpaceSail, com sede em Xangai, é a marca comercial da constelação Qianfan (que significa “Mil Velas” em chinês) — a primeira constelação gigante de satélites comerciais de órbita baixa da China a entrar na fase formal de operação em rede, desenvolvida e operada pela Shanghai Spacecom Satellite Technology (SSST) para competir com a Starlink, da SpaceX, propriedade de Elon Musk.
A SSST projeta ter uma constelação de até 15 mil satélites em órbita até 2030 para fornecer conectividade global, inclusive em regiões remotas. A empresa já assinou acordos de serviço com vários países, além do Brasil, para fornecer internet via satélite.
Segundo a agência de notícias Xinhua, desde o lançamento do primeiro lote de 18 satélites de rede em agosto de 2024, a constelação cresceu para 108 satélites em órbita após mais cinco lotes, o mais recente em outubro deste ano.
Laboratório de Radioastronomia
No campo científico, a estatal China Electronics Technology Group Corporation (CETC) assinou com a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) o acordo para criação do Laboratório Conjunto China–Brasil de Tecnologia de Radioastronomia. O entendimento, firmado na presença de representantes dos ministérios de Ciência e Tecnologia dos dois países, pretende transformar o laboratório em uma plataforma estratégica para pesquisas de fronteira em observação astronômica, planejamento de grandes projetos internacionais e desenvolvimento de tecnologias voltadas à exploração do espaço profundo. A iniciativa também coloca a formação de talentos no centro da agenda, com intercâmbio de pesquisadores e cooperação acadêmica estruturada.
A cooperação espacial entre a China e o Brasil tem uma longa história. Os dois países assinaram o acordo que estabeleceu a pesquisa e produção conjuntas do Programa de Satélites de Recursos Terrestres China-Brasil (CBERS) em julho de 1988. O programa tornou-se um excelente exemplo de cooperação entre países em desenvolvimento na área de tecnologia espacial e tem sido elogiado como um modelo de cooperação Sul-Sul.
Com Global Times e Agência Brasil China