Número de desempregados bate recorde e país entra de novo no mapa da fome

Entre a terceira e a quarta semana de agosto aumentou em mais de um milhão o número de desempregados no país. A população desocupada de 13,7 milhões de pessoas cresceu frente à semana anterior (12,6 milhões de pessoas) e, também, em relação à semana de 3 a 9 de maio (9,8 milhões).

Com isso, a taxa de desocupação (14,3%) para o período de 23 a 29 de agosto também cresceu em relação à semana anterior (13,2%) e frente à primeira semana de maio (10,5%), conforme dados da Pnad Covid Semanal, pesquisa divulgada nesta sexta-feira (18/9) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Desde a primeira semana de maio, início da série histórica da pesquisa do IBGE, o total de pessoas desempregadas cresceu 39,4%, o correspondente um incremento de 3,87 milhões de pessoas em busca de trabalho.

Nesta semana, o IBGE anunciou também o levantamento que mostrou avanço da insegurança alimentar grave, ou fome, no país, que atingia 5% da população brasileira em 2018, ante 3,6% em 2013, alcançando 10,28 milhões de pessoas. O Brasil retornou ao Mapa da Fome – lista de países com mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendável. Desde 2014 o país já havia deixado a lista.

Sem carteira assinada

O país perdeu 1,2 milhão de empregos com carteira assinada no primeiro semestre deste ano e o desempenho só não foi pior porque as contratações dos chamados intermitentes, funcionários que trabalham por hora ou por um período determinado, se mantiveram positivas ao registrar a criação de 20,5 mil novos postos de trabalho no período. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

A destruição de empregos industriais estimada para o ano de 2020 não é comparável a nenhuma outra crise econômica recente. Estima-se uma inédita contração da força de trabalho da ordem de 1,2 milhão de ocupações industriais que, corresponde a apenas 14,6% da redução potencial total de 8,3 milhões de ocupações.

Mercantilismo

O capitalismo precisa de dinheiro circulando na economia, com consumo e emprego. O problema da economia brasileira é que continua numa transição infindável entre o feudalismo e o capitalismo. Ela expressa o predomínio da financeirização, em relação ao capital industrial e o papel hegemônico do setor exportador na acumulação de riqueza. Essa é a definição de mercantismo. Somos uma grande Plantation.

O mercantilismo precede o liberalismo defendido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Adam Smith já era um crítico contundente do mercantilismo no seu livro clássico A Riqueza das Nações, de 1776. Outro liberal clássico, economista francês, Jean-Baptiste Say (1768-1832) tinha uma ideia central conhecida como Lei de Say: “a oferta cria sua própria procura”, ou seja, o aumento da produção transformar-se-ia em renda dos trabalhadores e empresários, que seria gasta na compra de outras mercadorias e serviços. O problema é que no Brasil a concentração de renda é tanta, que não permite que ela chegue aos trabalhadores. E nem estou falando na mais valia, de Marx.

Autor do livro Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, publicado em 1936, John Maynard Keynes, afirmou que o sistema capitalista tem um caráter intrinsecamente instável. Ou seja, a operação da “mão invisível”, ao contrário do que ainda hoje é sustentado por economistas de inclinação mais ortodoxa, não produz a harmonia apregoada entre o interesse egoísta dos agentes econômicos – produtores, consumidores e assalariados ­ e pode gerar crises a despeito do bom funcionamento das poderosas forças dos mercados livres.

Para ele, os principais defeitos da sociedade econômica em que vivemos são a sua incapacidade para proporcionar o pleno emprego e a sua arbitrária e desigual distribuição da riqueza e das rendas. Keynes termina o prefácio da edição inglesa do seu livro Teoria Geral do Emprego com a seguinte frase: “A dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar das velhas, que se ramificam, para aqueles que foram criados como a maioria de nós, por todos os cantos de nossas mentes.”

Rendimentos do trabalho

O professor da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzzo, em seu artigo “Rendimentos do trabalho nos EUA”, publicado no jornal Valor Econômico, cita o texto de Anna Stansbury e Lawrence H. Summers que trata da queda dos rendimentos do trabalho na economia americana desde os anos 80 do século passado. Os autores atribuem o declínio do poder dos trabalhadores, nas últimas décadas, a três grandes mudanças.

Em primeiro lugar, o ambiente político tornou-se menos favorável ao poder dos trabalhadores, reduzindo a sindicalização e consequentemente o poder de barganha dos sindicatos.

Em segundo lugar, as mudanças nas empresas: o aumento do poder dos acionistas pressionou as empresas para reduzir os custos trabalhistas, resultando em reduções salariais e precarização do trabalho à medida que as empresas, cada vez mais, terceirizam e subcontratam mão-de-obra.

Em terceiro, mudanças nas condições econômicas: a intensificação do progresso tecnológico e a concorrência de países com baixos salários aumentou o poder dos empregadores americanos.

Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.

 

Inflação dos mais pobres supera em duas vezes a dos mais ricos

O Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda divulgado nesta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada mostra que, em agosto, a variação de preços foi positiva (0,38%) para a classe de renda mais baixa – com renda domiciliar mensal menor que R$ 1.650,00 – e negativa (-0,10 p.p) para o segmento mais rico da população, com rendimentos domiciliares maiores que R$ 16.509,66.

No acumulado em 12 meses encerrados em agosto, houve aceleração inflacionária para todos os segmentos, com exceção da classe de renda mais alta. Nesse período, a inflação dos grupos mais pobres registrou variação de 3,2%, atingindo uma taxa mais de duas vezes superior à apontada pelas famílias de maior poder aquisitivo (1,5%).

Mais da metade (53%) da variação total da inflação dos mais pobres em agosto veio dos alimentos e bebidas. Boa parte da alta de preços deste ano se deve a alimentos de grande consumo para as famílias, como arroz (19,2%), feijão (35,9%), leite (23%) e ovos (7,1%). Embora os preços dos serviços tenham caído em agosto para a classe mais baixa, esse alívio tem impacto maior no segmento de maior poder aquisitivo. Já o reajuste dos combustíveis atingiu todos os grupos, mas o efeito para as famílias mais ricas foi, em parte, aliviado pela queda nos preços das passagens aéreas (-2%) e dos seguros veiculares (-2%).

Para a classe de renda mais alta, o impacto do reajuste dos alimentos em agosto foi menor (0,05 ponto percentual) do que entre as famílias pobres (0,20 p.p). Além disso, a redução nos preços das mensalidades escolares proporcionou uma queda maior na inflação do grupo “educação” para as famílias mais ricas (-0,39 p.p.) frente às de menor renda (-0,22 p.p.). Principalmente a retração no valor das mensalidades das creches (-7,7%) e das escolas de ensino fundamental (- 4,1%) e médio (- 2,9%) gerou um alívio maior entre a população de renda mais alta, pois é esse segmento que, majoritariamente, utiliza os serviços privados de educação.

A diferença no padrão de consumo das famílias também explica a divergência do impacto do grupo “despesas pessoais” entre as classes de renda. Em agosto, enquanto a queda de preços dos serviços ligados a atividades de recreação – como hospedagem (-1,8%), pacote turístico (-0,90%) e clube (-0,8%) – provocou uma redução de 0,04 p.p na inflação do grupo “despesas pessoais” para a faixa de renda mais elevada, o reajuste de 2,3% nos preços dos cigarros propiciou uma alta de 0,02 p.p. para o segmento de renda mais baixa.

Em 2020, com a incorporação do resultado de agosto, a inflação da classe de renda muito baixa é de 1,5%, acima da deflação da faixa de renda mais alta (-0,07%). Na comparação com agosto de 2019, a inflação das famílias de classe mais alta recuou de 0,08% para -0,10% em 2020. No caso do segmento mais pobre, ocorreu um avanço de 0,12% para 0,38%.

A Ofxam já tinha divulgado em julho passado, que a América Latina e Caribe enfrentam forte perda de renda por causa da pandemia, mas o impacto da Covid-19 não é igual para todas as camadas da população. Segundo o levantamento, a fortuna de 73 bilionários das duas regiões aumentou US$ 48,2 bilhões entre março e meados de julho — uma alta de 17%. No seleto grupo de mais ricos, 42 estão no Brasil. De acordo com a ONG – uma confederação de 19 organizações e mais de três mil parceiros, que atua em mais de 90 países na busca de soluções para o problema da pobreza, desigualdade e da injustiça -, o patrimônio dos bilionários brasileiros cresceu US$ 34 bilhões no período, para US$ 157,1 bilhões.

E la nave va, lotada de bovinos vivos

O embarque de 24 mil bovinos vivos para a Turquia e o Líbano começou esta semana, no porto de Rio Grande. A previsão é de que o navio, que chegou nesta sexta-feira (11), possa zarpar daqui a seis dias. A exportação do boi vivo é polêmica, envolvendo desde o sofrimento dos animais numa longa viagem, até a sensação que voltamos ao período colonial piorado.

Um dos argumentos contrário à exportação é que esta modalidade traz poucos ganhos para o setor e para o Brasil, já que gera empregos em outros países e couro e miúdos também são processados no exterior. Os frigoríficos argumentam que o negócio poderia ampliar a falta de animais para o abate. No Rio Grande do Sul, em mais de uma ocasião, chegou-se a solicitar algum tipo de barreira.

De janeiro até outubro de 2019, o total exportado foi de 123 mil animais. Em 2018, 168,8 mil cabeças saíram do Rio Grande do Sul para o Exterior. No ano anterior, foram 85,6 mil, conforme dados são da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr). O estímulo de exportar o animal vivo está na diferença no preço.

Novos mercados estão se abrindo para a exportação de gado em pé. A modalidade já é consolidada no Rio Grande do Sul, que exporta para a Turquia e outros países árabes cerca de 120 mil animais por ano ou uma média histórica de 1% do rebanho gaúcho de 12,7 milhões de cabeças.

Nas primeiras décadas do século XVII o rebanho brasileiro já alcançava 1,5 milhão cabeças. A pecuária desenvolveu-se significativamente, chegando a ocupar posição de destaque, inclusive com a exportação de couro nos séculos XVIII e XIX.

Outra atividade que favoreceu a organização da pecuária do Sul foi o surgimento das charqueadas. Em 1793, segundo Prado Júnior, o Rio Grande do Sul exportava 13 mil arrobas de charque e nos primeiros anos do século seguinte chegava a exportar 600 mil arrobas deste produto. Agora, estamos exportando gado em pé.

Sofrimento dos animais

Em julho de 2018, foi feita uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa sobre o Transporte de Gado Vivo no Município de Rio Grande, coordenada pela deputada Regina Becker Fortunati PTB). No início do debate, ela divulgou um vídeo sobre o transporte marítimo dos animais. Se manifestou tanto sobre a questão econômica como sobre os maus-tratos aos animais, principalmente, durante as travessias. Até o Iraque, por exemplo, o gado brasileiro viaja de 23 a 26 dias. Sua intenção era apresentar um Projeto de Lei contra a exportação de animais vivos no Estado Rio Grande do Sul, que não vingou.

Daniel Martini, do Centro de Apoio Operacional de Defesa do Meio Ambiente do Ministério Público do RS, disse que o artigo 225 da Constituição Federal, veda que o Estado seja conivente com qualquer prática de crueldade. Citou também a Lei Federal 9.605, que criminaliza a prática de métodos cruéis de maus tratos aos animais. No âmbito do Estado, citou o Código de Proteção Animal.

Os pecuaristas presentes na Audiência Pública não aceitaram os argumentos. Eles não admitem que haja maus-tratos no transporte marítimo de animais”, “eles até engordam na travessia”, “se jogam 600 toneladas de fezes por dia no mar é porque estão comendo bem”, “são bem tratados”.

E la nave va, já dizia Federico Fellini.

Caminhos tortuosos até o leilão do 5G

A secretária especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), Martha Seillier, disse que o estudo de viabilidade técnica e econômica do leilão da quinta geração da telefonia móvel (5G) será enviado ao Tribunal de Contas da União (TCU) “nas próximas semanas”. Durante live do Instituto Brasileiro do Concreto (Ibracon), Martha afirmou que o processo está em estágio avançado, pois já concluiu praticamente a fase de consulta pública. A disputa está prevista para 2021, conforme nota publicada no jornal Valor Econômico.

Nos primeiros dias de fevereiro passado, o governo federal estabeleceu as diretrizes para o leilão do 5G através de uma portaria do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) passou a definir os critérios técnicos para a disputa. O leilão envolverá a venda de licenças dos novos serviços nas faixas de 700 megahertz (MHz), 2,3 gigahertz (GHz), 3,5 GHz e 26 GHz.

O governo afirma que o 5G será importante na construção de um novo ecossistema digital do País. A evolução natural das gerações anteriores —3G e 4G— traz como diferencial não apenas mais velocidade de conexão à internet no celular, mas outras aplicações que poderão revolucionar a sociedade, como objetos conectados e cidades inteligentes.

A tecnologia do 5G, que vai revolucionar a internet, é o principal campo da disputa político-comercial entre China e Estados Unidos. A chinesa Huawei é o maior fornecedor mundial de equipamentos de telecomunicação. Seus negócios estão presentes em mais de 170 países e territórios, atendendo a mais de um terço da população mundial. A empresa assinou mais de 90 contratos comerciais sobre o 5G. Está presente no Brasil há mais de 20 anos, sendo reconhecida pelo governo brasileiro, pela associação da categoria e pelas operadoras.

O governo dos EUA acusa a Huawei de espionar cidadãos norte-americanos para o governo chinês por meio de back-doors, acessos secretos à programação que dão funcionalidade à sua tecnologia. Em 15 de setembro, entra em vigor sanções da Administração Trump à empresa chinesa, que não terá mais acesso aos componentes e tecnologias desenvolvidos nos EUA. A gigante da tecnologia nega essas acusações.

O vice-presidente, general Hamilton Mourão, concedeu uma entrevista exclusiva à Xinhua, a maior agência de notícias do governo chinês, assinada por Janaína Câmara e Zhao Yan, dia 1º de setembro. Mourão falou sobre o leilão das frequências de 5G no Brasil.

Segundo ele, o leilão “seguirá padrões técnicos e que não há qualquer restrição a empresas de quaisquer países. Não distinguimos as empresas pelo país de origem, mas sim pela sua capacidade em oferecer produtos e serviços confiáveis, seguros e, obviamente, a preços competitivos”.

Mourão lembrou que a empresa chinesa Huawei “é hoje um importante fornecedor de equipamentos com ampla presença no mercado brasileiro”. Além disso, “haveria um custo exorbitante para retirar a empresa da rede brasileira, além de que, caso houvesse decisão neste sentido, isso atrasaria a instalação da rede 5G.”

Três dias depois, na quinta-feira, 3/9, o presidente Jair Bolsonaro disse também numa live que a decisão sobre a tecnologia 5G no Brasil é dele: “Não vai ter ninguém dando palpite”, afirmou. Desde que tomou posse, Bolsonaro tem focado em se aproximar dos Estados Unidos, em vez de fortalecer laços com a China, principal parceiro comercial do Brasil.

Nesta terça-feira (8/9), em vídeo transmitido durante o Painel Telebrasil 2020, evento virtual destinado ao setor de telecomunicações. Mourão voltou à carga: “Perder essa janela de oportunidade significará décadas de atraso e prejuízo para a nossa sociedade”. Segundo o vice-presidente, a instalação da tecnologia 5G deverá ser feita de forma segura, protegendo os conhecimentos brasileiros sensíveis e a privacidade e considerando princípios da eficiência, economicidade e segurança.

O embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, em entrevista concedida em julho passado ao jornal Valor Econômico, disse que políticos americanos têm feito acusações infundadas contra a Huawei, mas não conseguem apresentar provas concretas de falhas de segurança em seus equipamentos. “Tampouco sabem dizer qual legislação chinesa poderia tornar a tecnologia da empresa uma ameaça à segurança nacional, porque essa suposta legislação simplesmente não existe.”

Segundo ele, a constante invenção de boatos e a ideologização de assuntos meramente comerciais ou tecnológicos têm como objetivo cercear empresas chinesas de alta tecnologia e impedir a liderança chinesa nessa área. “Além de minar a normalidade da cooperação internacional no 5G e em outras tecnologias de telecomunicação, essa atitude vai contra a proteção da cibersegurança que dizem defender.”

A China é a número 1 do ranking das exportações brasileiras. Em 2019, o Brasil exportou para lá o valor total de US$ 62,87 bilhões. A soja foi o produto mais exportado para China no último ano, US$ 20,5 bilhões. Com esses números na manga, Yang Wanming deu um recado na mesma entrevista: “A China não exercerá pressão, nem fará ingerência sobre nenhum país, na sua escolha do fornecedor do 5G. No entanto, somos contrários ao uso de meios administrativos para interferir na participação legítima de empresas chinesas na cooperação internacional ou na concorrência de mercado. A questão não é se a Huawei poderá ganhar ou não um determinado leilão. O que está em jogo é a capacidade e vontade de um governo criar um ambiente de negócios e regras de mercado dentro dos parâmetros de equidade, imparcialidade e não discriminação. Não se trata somente da preocupação de uma empresa em particular, como a Huawei, mas de um importante critério de avaliação das condições de um mercado, que tem impacto significativo nas decisões de investimento e operação de todas as empresas chinesas.”

Crise sanitária e a força bruta da digitalização

A terceira e última etapa do seminário Caminhos para seguir em frente, promovido pelo Diretório Estadual do MDB no YouTube. Os convidados foram o ex-governador do Espírito Santo, economista, Paulo Hartung e o filósofo Luiz Felipe Pondé. Eles compartilharam as principais transformações e desafios para os pré-candidatos às eleições municipais.

A abertura foi do ex-senador Pedro Simon, líder histórico do MDB gaúcho. “O MDB sempre esteve presente em momentos difíceis. Agora, em meio a pandemia, com nossa complexa política nacional, o partido não poderia faltar. Caminhos para seguir em frente, olhar adiante e identificar o futuro do Brasil.” A mediação foi do ex-senador, José Fogaça.

Hartung foi o primeiro a falar. Para ele, o papel de líder não é terceirizar desafios. “Como governador tive que administrar a tragédia de Mariana, o pior acidente ambiental do País (rompimento da barragem em Mariana, em novembro de 2015, Minas Gerais. Rompeu-se uma barragem de rejeitos de mineração denominada “Fundão”, controlada, pela Samarco Mineração, um empreendimento conjunto das maiores empresas de mineração do mundo, a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton). “Muitos pensam só em Minas Gerais, mas a Samarco é uma estrutura de minas até o Espírito Santo.”

Segundo ele, o que estamos vivendo é algo muito maior. “Uma crise sanitária gravíssima e não temos vacina. A estratégia possível foi o distanciamento social, ir na tomada e desligar a economia. O Brasil teve tempo para se preparar porque o novo coronavírus apareceu primeiro no Ásia. Não aproveitamos o tempo.”

Ele entende que a crise pegou o Brasil com muitas fragilidades. Mais de 12 milhões de desempregados antes da crise. Investimento muito baixo, com uma taxa de investimentos média de 15,5% no primeiro trimestre de 2019. Além de um investimento público inexistente, tanto nos municípios, estados, como na União. “Crescimento medíocre e endividamento pesado, com cerca de 76% de tudo que produzimos.”

E introduzimos outra fragilidade na pandemia, conforme ele: descoordenação entre o Legislativo, Executivo e Judiciário. “Vamos sair muito mais endividados, chegando a 95% a 100% de tudo que produzimos. Um PIB negativo de aproximadamente 5% e ainda não temos uma conta certa do número de desempregados no final da crise, mas deve ficar entre 17 ou 18 milhões de trabalhadores.”

Hartung acredita que o Brasil está atravessando mal a crise, com um vazio de liderança brutal e daqui a pouco estaremos nos pós-crise. “O que fazer? O desafio é dar tração para economia brasileira. Em 2008, 2009, o consumo é que deu tração. Agora, o consumo vai ajudar, mas o desemprego está muito alto e a renda familiar muito baixa em relação ao que era em 2013, 2014. A saída será pelo lado do investimento. O público é impossível, pois o estado brasileiro está quebrado, resta o investimento privado.”

Dados brutos, sem controle

Para completar o seminário, o filósofo Luiz Felipe Pondé falou sobre digitalização: “é uma força bruta, com capilarização e transparização”. Ele explicou que não estava falando de transparência, porque a palavra sempre carrega o sentido de tornar o estado e as ações mais transparentes, o que é bom e uma tendência. “Uso transparização no sentido de um dado bruto. Ninguém sabe como controlar esse fator.”

Entrou em cena em 2016 e 2018 e serve para pôr em dúvida a representação política. “Há pouco tempo, o presidente Bolsonaro reagiu a pergunta do jornalista sobre os 89 mil reais. Ele deu uma resposta atravessada. As agências que monitoram as redes sociais perceberam que os acessos às críticas de figuras políticas importantes da oposição, como a deputada federal pelo PDT, Tabata Amaral e Guilherme Boulos (PSOL/SP), uma geração nova de políticos, não chegou nem aos pés de determinados youtubers, porque eles têm milhões de seguidores.”

Para Pondé, a sociedade vive uma polarização devastadora e não há indícios de melhora. “Essa polarização é fruto da política digitalizada. Portanto, quando falo sobre o dado bruto não é simplesmente um animal que vai trabalhar para você e vai te respeitar. Não, ela pode apoiar hoje e ser contra amanhã. O mundo está se tornando mais transparente para o bem e para mal.”

O fato das redes sociais tornarem a sociedade mais transparente é bom, conforme ele, na medida que rastreie transações financeiras, por exemplo. Ao mesmo tempo, torna a sociedade refém de todo o tipo de tráfego de informações, onde a mais comum é a fake news.

E concluiu: “A sociedade está se tornando menos normativa e mais cognitiva, uma ferramenta incontrolável. A pandemia mostrou isso. De um dia para outro o número de vídeos conferências explodiu numa velocidade extrema no mundo inteiro. O estado está sofrendo muito nas mãos de uma sociedade cognitiva no sentido da informação ser avassaladora o tempo inteiro de qualidade ruim, boa, péssima. Vai paulatinamente pressionando os mecanismos de representação e vai transformando a política. O setor digital está se descolando, se movendo, com uma velocidade que o resto da sociedade não está.”

A produção do seminário híbrido foi da Storia Eventos e Projetos. No estúdio atuou a jornalista Carla Garcia, assessora do MDB. A comunicação foi da Agência Moove.

PIB cai 11,4% e País entra em recessão

O Produto Interno Bruto (PIB) caiu 11,4% no segundo trimestre de 2020, em relação a igual período de 2019. Comparado ao primeiro trimestre de 2020 a queda foi de 9,7%. Ambas as taxas foram as quedas mais intensas da série, iniciada em 1996 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com o resultado, o País entrou oficialmente em recessão técnica, caracterizada por dois trimestres consecutivos de recuo do nível de atividade. No 1º trimestre, o PIB já havia encolhido 2,5%, segundo números revisados pelo Instituto.

A Despesa de Consumo das Famílias teve contração de 13,5%, índice que representa a maior queda registrada na série histórica. Este foi o segundo resultado negativo desta comparação após 11 trimestres de avanço. O índice pode ser explicado pelo isolamento social no país, proibição de funcionamento de algumas atividades especialmente de serviços prestados às famílias, além queda da massa de salarial no país no segundo trimestre de 2020. “O consumo das famílias não caiu mais porque tivemos programas de apoio financeiro do governo. Isso injetou liquidez na economia”, destacou a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca de La Roque Palis.

Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Contas Nacionais
Principais resultados do PIB a preços de mercado do 2º Trimestre de 2019 ao 2º Trimestre de 2020 (%)
Taxas (%)2019.II2019.III2019.IV2020.I2020.II
Acumulado ao longo do ano / mesmo período do ano anterior0,81,01,1-0,3-5,9
Últimos quatro trimestres / quatro trimestres imediatamente anteriores1,11,01,10,9-2,2
Trimestre / mesmo trimestre do ano anterior1,11,21,7-0,3-11,4
Trimestre / trimestre imediatamente anterior (com ajuste sazonal)0,50,10,5-2,5-9,7

 Sem emprego disponível fica muito difícil evitar a queda no consumo das famílias. A taxa de desocupação do País no 2º trimestre de 2020 foi de 13,3%, aumento de 1,1 ponto percentual em relação ao 1º trimestre de 2020 (12,2%). As maiores taxas ocorreram na Bahia (19,9%), Sergipe (19,8%) e Alagoas (17,8%) e as menores em Santa Catarina (6,9%), Pará (9,1%) e Rio Grande do Sul (9,4%).

Outro resultado ruim foi o da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) – medida das contas nacionais do que se investe em máquinas, construção civil e pesquisa -, que recuou 15,2% no segundo trimestre de 2020, em relação ao mesmo período de 2019. A queda é justificada pelos resultados negativos registrados tanto na produção interna de bens de capital quanto na construção. A Despesa de Consumo do Governo teve queda de 8,6% em relação ao segundo trimestre de 2019.

O governador Flávio Dino (MA-PCdoB) lembrou em seu Twitter que o país tem R$ 1 trilhão de déficit, PIB desabando e desemprego gigantesco. E pergunta: Qual a política econômica? “Ninguém sabe. Nem Bolsonaro. E não adianta perguntar no posto Ipiranga.”

O ministro da Economia, Paulo Guedes, sempre otimista, afirmou que a queda do PIB no segundo trimestre já era esperada pelo mercado e pelo governo. Segundo ele, o resultado é “um som distante”, reflexo da pandemia do coronavírus e que a economia brasileira já está em recuperação em V.

A Indústria teve queda de 12,7%, a mais intensa da série histórica, nesta de comparação. A atividade Indústrias de Transformação teve o pior resultado (-20,0%), outro recorde negativo da série histórica, influenciado, principalmente, pelo recuo na fabricação de veículos; de outros produtos de transporte; de máquinas e equipamentos; e na indústria têxtil e de artigos de vestuário. O segundo recuo mais intenso veio da Construção (-11,1%), corroborada pela redução da ocupação e da produção de seus insumos.

Já Serviços caiu 11,2% em relação ao mesmo período de 2019, também a maior queda já registrada na série histórica. Os piores resultados foram em Outras atividades de serviços (-23,6%) e Transporte, armazenagem e correio (-20,8%) e Comércio (-14,1%). O agronegócio passou sem maiores problemas pela pandemia e teve alta de 0,4%, contribuindo para amenizar o tombo no 2º trimestre.

A dívida pública acima de tudo

Enquanto o governo Bolsonaro avisa que não tem dinheiro para manter os 600 reais do Auxílio Emergencial por mais tempo, o Tesouro Nacional receberá uma ajuda de R$ 325 bilhões do Banco Central (BC). Em nota, o Ministério da Economia explicou que as restrições de liquidez provocadas pela pandemia de covid-19 têm dificultado a administração da dívida pública, com o Tesouro Nacional emitindo títulos com prazos mais baixos e queimando o “colchão da dívida”, reserva financeira para pagar os vencimentos dos papéis, para evitar os juros altos pedidos pelos investidores nos títulos de prazo mais longo.

A necessidade de financiamento do governo federal em 2020 é de R$ 1,127 trilhão, segundo o Plano Anual de Financiamento (PAF). Essa necessidade já considera a transferência de R$ 325 bilhões do Banco Central (BC).

Com aumento de gastos e queda na arrecadação, devido à redução da atividade econômica, a expectativa de déficit primário do setor público em 2020 subiu para 11,3% do Produto Interno Bruto (PIB), ante projeção de 1,5% do PIB no início do ano. Por sua vez, a dívida pública atingiu 85,5% do PIB em junho, devendo terminar o ano acima de 95% do PIB, segundo o Tesouro.

No Brasil, o pagamento da dívida pública é obrigatório, está na Constituição. O item teria sido enxertado na Constituição de 1988, sem que tivesse passado pelo crivo dos Constituintes nos dois turnos previstos para a prévia aprovação. A notícia dos enxertos foi divulgada pela imprensa no início dos anos 2000 e nada aconteceu.

Também para garantir o pagamento dos juros da dívida foi incluído na Constituição em dezembro de 2016, durante o governo Michel Temer (MDB), o teto de gastos, que está em vigor desde 2017 e deve durar 20 anos. É uma regra fiscal que determina que o gasto máximo que o governo pode ter é equivalente ao Orçamento do ano anterior, corrigido apenas pela inflação, atingindo principalmente as verbas da educação e saúde.

O Tesouro Nacional revisou o PAF da dívida pública federal. Com as alterações, a dívida deve variar neste ano entre R$ 4,6 trilhões e R$ 4,9 trilhões. Antes, o Tesouro esperava que a dívida ficasse entre R$ 4,5 trilhões e R$ 4,75 trilhões em 2020.

O deputado Mauro Benevides Filho (PDT-CE), que é economista, criticou o crescimento desses gastos. “Não há uma discussão sobre os quase R$ 5 trilhões do total da dívida pública, não há nenhuma discussão sobre mais de R$ 1 trilhão de pagamento de manutenção da dívida pública para 2020. É importante que o Congresso Nacional debata essa que é a maior despesa do Orçamento do país.

No entanto, o Congresso não está preocupado em discutir a dívida pública. Ganha relevância na opinião do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), a PEC 438/2018, que cria gatilhos para conter as despesas públicas e preservar a regra de ouro. Tal regra proíbe que o governo se endivide para pagar despesas cotidianas, como folha de pagamento de pessoal, manutenção de órgãos públicos e programas sociais. A regra de ouro só pode ser contornada com autorização expressa do Congresso Nacional.

O senador Humberto Costa (PT-PE) disse esta semana estar preocupado com a redução no orçamento da saúde para o ano que vem justamente por conta do teto de gastos. Segundo ele, após a pandemia o País vai ter que enfrentar uma série de demandas reprimidas no setor. “Isso é muito grave. Diante da crise que nós estamos vivendo, se nós continuarmos com essas medidas de austeridade, um verdadeiro austericídio, isso vai fazer com que o Brasil sofra ainda mais com essa crise de saúde pública, social, política e econômica.”

STF decide que isenção de ICMS nas exportações não vale para toda a cadeia

Uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), de 14 de agosto, abre um precedente em relação a cobrança do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre a cadeia de produtos exportados. Segundo matéria publicada pelo jornal Valor Econômico, os ministros entenderam que a isenção de ICMS prevista para as exportações não vale para a etapa anterior, que envolve a produção das mercadorias. Fornecedores de insumos e matérias-primas devem recolher o imposto estadual.

Esse tema, de vital importância para a receita dos estados, foi julgado pelos ministros por meio de recurso apresentado por uma fabricante de embalagens do Rio Grande do Sul (RE 754917). O julgamento ocorreu no plenário virtual. A tese por eles fixada – que servirá de orientação para as demais instâncias – ficou, porém, mais abrangente. O texto trata de “operações e prestações anteriores à exportação”, de maneira genérica, e não somente das embalagens.

Os advogados da empresa gaúcha usaram nas alegações que a Constituição Federal impõe a não incidência do ICMS quando o produto tem como destino outro país. “Essa exportação não está limitada ao exportador direto, mas sim a toda a cadeia de produção a qual se vise o comércio e o trânsito de produtos com destino ao exterior”, diz no processo.

O ministro Dias Toffoli, relator do caso, discordou da empresa e negou o pedido de isenção – mantendo decisão do Tribunal do Rio Grande do Sul (TJ-RS). “Nas operações de exportação, é clara a orientação quanto à impossibilidade de, a pretexto de extrair da regra imunitória o máximo de efetividade, adotar interpretação ampliativa, de modo a abarcar fatos, situações ou objetos a priori não abrangidos pela expressão literal do enunciado normativo”, afirma em seu voto.

O tratamento fiscal das exportações brasileiras segue a prática mundial e busca a desoneração dos tributos indiretos sobre as exportações. Dessa forma, a Constituição Federal de 1988 definiu que não incidem sobre as exportações brasileiras o IPI (art. 153, §3º, III), o ICMS (art. 155, §2º, X, “a”) e as Contribuições Sociais e de Intervenção no Domínio Econômico, tais como o Programa de Integração Social e o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público – PIS/PASEP e a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social – COFINS (art. 149, §2º, I).

Além de não incidirem sobre o faturamento das exportações, o exportador mantém o direito ao crédito gerado pela incidência desses tributos sobre a aquisição dos insumos empregados nos produtos exportados. Portanto, os valores correspondentes a esses tributos não devem compor o preço do produto final exportado.

O ICMS é um imposto estadual, ou seja, somente os governos dos estados e o Distrito Federal têm competência para instituí-lo, conforme determinou a Constituição federal de 1988. A Constituição também atribuiu competência tributária à União para criar uma lei geral sobre o ICMS, o que foi feito por meio da Lei Kandir (Lei Complementar 87, de 1996).

A Lei Kandir não teve como objetivo só regulamentar o ICMS, mas também minorar os efeitos negativos da política de estabilização econômica do Plano Real, provocados pelas âncoras cambial – valorização do real – e monetária – elevação da taxa de juros – que afetam respectivamente os resultados da balança comercial e o volume dos investimentos produtivos da economia. No entanto, hoje a Taxa Selic está em 2% ao ano e o desvalorizado real vale R$ 5,60 por dólar.

Em agosto de 2019, os governadores reunidos em Brasília reivindicaram a volta da autonomia dos estados para poder tributar toda a produção no seu próprio estado. Como o ICMS é receita dos estados e municípios, a lei previu uma compensação financeira pela perda da arrecadação desses entes da federação. Os critérios para pagamento dessa compensação são objeto de batalhas judiciais desde 2013.

Naquele momento, o governador gaúcho, Eduardo Leite, defendeu uma discussão preliminar no âmbito do Confaz (fórum que reúne secretários de Fazenda dos estados e governo federal) para avaliar todos os impactos que essa decisão acarretaria, e sobre uma futura reforma tributária.

Em cinco de agosto passado, o Plenário do Senado adiou a votação do projeto de lei que regulamenta o pagamento de compensações da União a estados e municípios por perdas de receita provocadas pela Lei Kandir (PLP 133/2020). O valor destinado aos entes federativos pode chegar a R$ 65,6 bilhões até 2037. O projeto ainda não tem data para voltar à pauta.

O senador Wellington Fagundes (PL-MT), que presidiu uma comissão mista sobre a Lei Kandir entre 2017 e 2018 e que assina o projeto como autor, alertou para o risco de não se concretizar o acordo firmado no STF. Ele recordou que a negociação foi acatada por todos os governadores e pela Confederação Nacional dos Municípios.

O governo gaúcho calcula uma perda de R$ 50 bilhões em duas décadas. O relatório do senador Wellington Fagundes prevê a divisão de R$ 9 bilhões por ano entre os estados exportadores. O Rio Grande do Sul recebe da União R$ 380 milhões por ano e passaria para R$ 913,94 milhões, dos quais 25% iriam para os municípios.

Em entrevista recente, o ex-senador Pedro Simon (MDB) disse que a Lei Kandir foi uma desgraça para o Rio Grande do Sul. “Se reparar nas finanças do Rio Grande do Sul, onde é que ela começou a degringolar? Quando a Lei Kandir entrou em vigor, a nossa economia deixou de arrecadar, aí é que está o déficit. Então, hoje, tudo é em função disso. Estamos devendo para a União. E a União está devendo para nós a Lei Kandir.”

Reforma Tributária de Eduardo Leite é atacada

A reforma tributária do governo gaúcho está sendo atacada por deputados, empresários, entidades, com algumas poucas vozes apoiando as medidas. A proposta de reforma tributária tramita em regime de urgência na Assembleia Legislativa, conforme solicitação do governador Eduardo Leite ao protocolar, no dia 10 de agosto, os três projetos de lei sobre o tema. O parlamento tem 30 dias para a apreciação sem que passe a trancar a pauta de votações.

Os projetos trazem uma série de medidas que alteram os impostos cobrados no estado. O Executivo pretende a sanção ainda em setembro, para que as novas regras passem a valer em janeiro de 2021. Na reunião virtual desta quinta-feira (20), a Comissão de Finanças, Planejamento, Fiscalização e Controle, da Assembleia Legislativa, aprovou realização de audiência pública virtual no dia 27 de agosto com a Secretaria da Fazenda e entidades da sociedade civil para debater a proposta de Reforma Tributária do governo estadual.

A subcomissão da Reforma Tributária da Assembleia Legislativa, que tem na relatoria o deputado Giuseppe Riesgo (Novo), já realizou algumas lives que dão uma ideia das dificuldades que Leite terá para aprovar sua reforma. O subsecretário da Fazenda, Ricardo Neves, que vem participando de todos os encontros da subcomissão, relata que o cenário atual é oportuno para a apresentação de alterações nas regras tributárias. “O Rio Grande do Sul vai sair na frente e ter um novo momento para a atração de investimentos”, afirma, otimista.

Um item polêmico da reforma propõe alterações no desconto do Simples Gaúcho. Hoje, empresas que faturam até R$ 360 mil são isentas de ICMS. Pela proposta, a faixa de isenção será apenas para empresas que faturem até R$ 180 mil, ou R$ 15 mil por mês. Nas demais faixas, também haverá aumento de alíquota, que dependendo do faturamento da empresa pode variar de 3% a 66%.

Na avaliação do relator da Subcomissão, as mudanças nas faixas iniciais do Simples gaúcho vão prejudicar principalmente os empreendedores que estão abrindo empresas e iniciando negócios. “Se queremos ter competitividade, precisamos desburocratizar e facilitar a vida do empresário. Esta proposta de alteração nas regras tributárias poderá ter um efeito contrário e irá intensificar a crise já vivida pelo Estado”, avaliou Riesgo.

Representantes de entidades ligadas ao setor contábil apresentaram o posicionamento sobre a reforma tributária na Subcomissão da Assembleia. O presidente do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis e das Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas do RS (Sescon), Célio Levandowski, reconheceu pontos positivos da atual proposta do governo encaminhada para o Legislativo. No entanto, ele ponderou que as alterações tributárias poderão retirar recursos do consumidor final, principalmente das classes mais carentes que serão impactadas. “Essa é a melhor reforma para o estado, mas não sei se será a melhor para a economia dos gaúchos. Precisamos dosar esses dois pontos.”

Em artigo publicado no jornal Correio do Povo, o diretor da Associação dos Fiscais de Tributos Estaduais do RS (Afisvec), Paulo Guaragna, disse que a reforma do governo Leite é profunda, responsável, técnica e justa. “É profunda por que não se resume em diminuir as alíquotas de 30 para 25% ou aumentar o IPVA de 3 para 3,5%. Ela envolve um conjunto de ações de simplificação e modernização do ICMS que visam estimular e fazer do RS, o Estado mais competitivo do Brasil. É responsável por que considera a situação das finanças públicas, sendo inimaginável perdermos quase R$ 3 bilhões do ICMS e ficarmos passivos. Seria o caos nos serviços públicos, com aumento da insegurança, dificuldades severas na saúde pública e um rebaixamento sem precedentes do ensino público.”

Empresários

O entendimento geral das entidades empresariais que participaram de outra da reunião da subcomissão da Assembleia é que as modificações vão ter um grande impacto especialmente para as empresas de pequeno porte. O vice-presidente da Fecomércio, Gerson Nunes Lopes, afirmou que o pequeno empresário já vem sofrendo com os efeitos da pandemia. “Nossa sugestão é que fiquem mantidos os benefícios atuais do Simples gaúcho já concedidos, pois essas alterações não vão colaborar com o desenvolvimento do Estado”, pontuou.

O ex-vice governador no governo Sartori, pelo PSD, atualmente sem partido, José Paulo Cairoli, foi duro em artigo publicado no site da Associação Comercial de Porto Alegre: “esse projeto de reforma tributária não tem nada de novo. Trata-se de uma visão antiga, meramente arrecadatória, embalada por um viés de simplificação e auxílio aos pobres. A verdade dos fatos é que esse pacote aumenta tributos de um lado para compensar a queda de outro, enquanto condiciona a racionalização e o auxílio social à burocracia.”

Setor primário

Entidades do setor primário reunidas virtualmente na manhã desta sexta-feira (21) com deputados estaduais projetaram um aumento de R$ 1 bilhão nos custos de produção somente no primeiro ano de implementação das medidas. Diante dos impactos negativos no setor, elas se posicionaram contrariamente ao projeto e pediram que os deputados votem contra.

O presidente da Farsul, Gedeão Pereira, representante do latifúndio, foi enfático: não se taxa produção, não se taxa exportação. O representante dos pequenos produtores, presidente da Fetag, Carlos Joel da Silva, disse que a reforma tributária não pode trazer aumento de custo para o setor que está segurando as pontas no Estado e neste país. “Precisamos de uma reforma justa, que não penalize um setor por inteiro como vai penalizar o setor da agricultura.”

Políticos

O líder do governo, deputado Frederico Antunes (PP), reforça que a reforma está inserida em um conjunto de medidas que estão sendo encaminhadas pelo governador. Ainda fez referência à modelagem de privatizações que está em andamento no Rio Grande do Sul. “A intenção é reduzir o tamanho do Estado”, resumiu.

O deputado estadual Jeferson Fernandes (PT) entende que a proposta governamental não mexe nas isenções fiscais das grandes empresas, mas tira do Simples gaúcho aquelas empresas que tem faturamento bruto de até R$ 360 milhões por ano. “Estas empresas são a ampla maioria. São empreendimentos que efetivamente geram empregos e estão espraiados por todo o Rio Grande do Sul”, lamentou.

Para Dalciso Oliveira, deputado estadual PSB, a proposta apresentada pelo Governador Eduardo Leite apresenta um viés correto no sentido de que simplifica alíquotas, propõe mecanismos de crédito mais ágeis para as empresas e inova no sentido da devolução do ICMS sobre consumo para pessoas de baixa renda. “É preciso, todavia, ampliar o debate. Muitas dúvidas ainda pairam, em especial sobre os efeitos da taxação de produtos da cesta básica e insumos agrícolas.”

A proposta de reforma tributária, conforme a deputada estadual do PSOL, Luciana Genro, retira várias desonerações de impostos para os consumidores e mexe muito pouco nas isenções e benefícios fiscais usufruídos pelas grandes empresas. “A GM, por exemplo, não vai dar nenhuma contribuição neste momento de brutal crise econômica e financeira?”

Nesta sexta-feira, em uma videoconferência, com jornalistas das regiões Noroeste, Norte e Missões, o governador Eduardo Leite rebateu as críticas contra a reforma: “estão mostrando uma árvore e não a floresta toda.”

Municípios terão perdas com Reforma Tributária RS

O governo do Estado iniciou uma série de videocoletivas regionais com o objetivo de qualificar o debate público a respeito da Reforma Tributária RS. A primeira edição ocorreu nesta terça-feira (18/8), com jornalistas da Serra.

Conforme dados apresentados pelo governador Eduardo Leite e pelo subsecretário da Receita Estadual, Ricardo Neves Pereira, os principais municípios da região podem perder R$ 83,7 milhões caso não haja medidas compensatórias com o fim da majoração das atuais alíquotas de ICMS de álcool, gasolina, energia e telecomunicações (de 30% para 25%) e da alíquota modal (de 18% para 17%) no fim deste ano.

Os dados demonstram que as alíquotas de combustíveis, energia e telecomunicações respondem por arrecadação anual de R$ 12,1 bilhões, e que, em 2023, ficam projetadas em R$ 9,8 bilhões. Somadas às quedas de outras alíquotas que igualmente caem para 25% (energia e telecomunicações), esse conjunto responde por uma perda de R$ 2,8 bilhões brutos.

Outras medidas com perdas de arrecadação também são expostas por ano, como a redução da carga de ICMS para 12% nas operações entre empresas, devolução em parcela única de créditos de bens de capital, devolução parcial de créditos de uso e consumo, extinção do Diferencial de Alíquotas (Difal) e redução da alíquota de refrigerantes. Essas medidas representam perdas de R$ 863,3 milhões em 2023.

A planilha com todas essas simulações de impactos das medidas da Reforma Tributária foi entregue nesta terça-feira (18/8) pelo governo do Estado à Assembleia Legislativa.

Entre as medidas que visam compensar parte dessa perda de ICMS, estão o aumento de alíquotas de algumas bebidas, a extinção parcial de isenções e a extinção parcial de reduções de base de cálculo, como da cesta básica de alimentos.

Para promover justiça tributária, Eduardo Leite propõe a devolução de parte do ICMS a famílias de baixa renda (até três salários mínimos). Será devolvida uma parte do ICMS contido nas compras das famílias cadastradas e o percentual de devolução será maior para as de renda mais baixa: 40% para famílias com renda de até um salário mínimo; 20% para famílias com renda de até dois salários mínimos e 15% para famílias com renda de até três salários mínimos

A proposta prevê a criação do fundo Devolve-ICMS, que será formado com recursos proporcionais aos benefícios concedidos pelo Estado: 10% sobre o valor de créditos presumidos não contratuais (exceto os oriundos de contratos de investimento) e 10% sobre o valor do ICMS isento nas saídas de insumos agropecuários.

Também são detalhados na planilha os impactos das contribuições de 10% dos créditos presumidos não contratuais e 10% sobre isenções de fertilizantes, agroquímicos e agroquímicos.

Pesquisa mostra que 44,8% das empresas foram afetadas negativamente pela pandemia

Dos 2,8 milhões de empresas em funcionamento no Brasil na primeira quinzena de julho, 44,8% informaram que a pandemia afetou negativamente suas atividades, enquanto para 28,2% o efeito foi pequeno ou inexistente e para 27,0% o efeito foi positivo.

As empresas do setor de Serviços foram as que mais sentiram impactos negativos (47,0%), com destaque para o segmento de Serviços prestados às famílias (55,5%). No Comércio, 44,0% relataram efeitos negativos e na Construção, 38,0%. No setor industrial, 42,9% das empresas destacaram impacto negativo, enquanto para 33,1% o efeito foi pequeno ou inexistente e para 24,1% o impacto foi positivo.

Os resultados da terceira rodada da Pesquisa Pulso Empresa refletem as percepções das empresas em funcionamento ao final da primeira quinzena de julho, comparadas à segunda quinzena de junho. A pesquisa acompanha os principais efeitos da pandemia de Covid-19 na atividade das empresas não financeiras e faz parte das Estatísticas Experimentais do IBGE.