A cobertura da mídia ocidental sobre as ameaças do governo dos Estados Unidos contra a Venezuela deixa muitas dúvidas devido sua parcialidade. As petrolíferas chinesas e russas são hoje as maiores detentoras de petróleo da Venezuela. A líder é a Sinopec Group, da China, com direito de exploração de 2,8 bilhões de barris, seguida da Roszarubezhneft, da Rússia — 2,3 bilhões de barris e a terceira é a CNPC, da China — 1,6 bilhão.
O que acontecerá com elas, já que os militares e a Guarda Costeira dos EUA já apreenderam seis navios-tanques nas últimas semanas em águas internacionais, incluindo o navio Marinera, de bandeira russa, a noroeste da Escócia. O porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, declarou à imprensa na semana passada que os EUA “caçariam e interceptariam todos os navios da frota clandestina que transportam petróleo venezuelano, no momento e local que escolhermos”.
Os Estados Unidos exigem que a Venezuela corte os laços econômicos com a Rússia, a China, o Irã e Cuba se quiser aumentar a produção de petróleo. A Casa Branca quer que a Venezuela faça parceria exclusiva com os EUA na produção de petróleo e os favoreçam na venda de petróleo bruto. Já a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, disse recentemente que “nenhum agente estrangeiro controlaria a Venezuela ou a transformaria em uma colônia”.
O presidente dos EUA, Donald Trump, e a presidente Delcy Rodríguez, tiveram esta semana uma longa conversa telefônica sobre temas como petróleo, comércio e segurança — com promessas de cooperação — mas até agora não foram tornados públicos acordos concretos ou detalhes específicos que indiquem ações imediatas.
Também esta semana a agência russa Tass informou que a Roszarubezhneft (empresa estatal que administra os ativos petrolíferos russos na Venezuela) continuará a cumprir rigorosamente suas obrigações em estreita coordenação com seus parceiros internacionais e pretende desenvolver ainda mais seus ativos em conjunto com a Venezuela.
Com base nos acordos alcançados e nos investimentos realizados, a Roszarubezhneft pretende “realizar projetos conjuntos e expandir a cooperação industrial e tecnológica com base nos princípios da igualdade, do respeito mútuo à propriedade e da proteção dos investimentos”, afirmou em comunicado.
A China igualmente não reconhece as sanções estadunidenses, mas no contexto de bloqueio naval e restrições financeiras fica mais difícil para empresas estatais chinesas operarem diretamente ou exportarem petróleo venezuelano sem cair sob sanções secundárias dos EUA. Beijing reiterou que seus interesses serão protegidos, mas até agora isso é mais uma posição diplomática do que uma garantia legal contra sanções norte-americanas.
A China tem interesse estratégico de longo prazo na Venezuela. É o maior importador de petróleo do mundo. Ter acesso direto a reservas maciças como as da Venezuela (mesmo que de petróleo pesado) é uma questão de estratégia nacional.
Além disso, já investiu dezenas de bilhões de dólares na Venezuela ao longo das últimas duas décadas, por meio de empréstimos do “Fundo de Cooperação China-Venezuela”, que são parcialmente pagos com petróleo. Manter as operações é uma forma de tentar recuperar parte desse investimento.
A presença na Venezuela também fortalece a influência global da China e sua parceria com um país-chave na América Latina, em contraponto à influência tradicional dos EUA. As empresas chinesas, diferentemente de muitas ocidentais, geralmente operam sob acordos de associação estratégica ou de serviço com reembolso em petróleo. Esses modelos podem ser mais resilientes em contextos de sanções, pois estão menos sujeitos a disputas de propriedade direta e mais focados na garantia do fluxo físico da commodity.
Sequestro
Em 3 de janeiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou uma ação militar dos EUA contra a Venezuela e o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, pelas forças estadunidenses. Em 5 de janeiro, o casal compareceu perante o Tribunal Federal dos EUA para o Distrito Sul de Nova York, onde enfrentam acusações de suposto envolvimento com o narcotráfico. Ambos se declararam inocentes. A vice-presidente Delcy Rodríguez tomou posse como presidente interina da Venezuela em 6 de janeiro. Enquanto isso, Trump afirmou que Washington “governaria” a Venezuela durante o período de transição. O que até agora não aconteceu.
Desde 2025, a administração Trump intensificou as sanções e medidas de controle sobre o petróleo venezuelano com o objetivo declarado de revogar ou restringir licenças que permitiam a empresas ocidentais operarem diretamente no país, incluindo a suspensão de autorizações que estavam em vigor sob administrações anteriores.
Revogou a licença até mesmo da norte-americana Chevron para exportar e operar no país – com direito de exploração de 900 milhões de barris — cortando seu papel operacional em grande parte da produção. A licença original foi revogada no começo de 2025 e convertida em uma autorização limitada para apenas encerramento e manutenção. Porém, uma nova licença/autorização foi concedida posteriormente, permitindo que a Chevron retome e conduza operações e exportações de petróleo venezuelano sob condições específicas.
A administração Trump quer controlar indefinidamente as exportações de petróleo venezuelano, de modo que grande parte da renda e da venda fique sob supervisão ou com participação de empresas estadunidenses e sob suas regras — com o discurso de “proteger e revitalizar” o setor.
PDVSA
Em 1975, contando com a receita do Estado venezuelano ampliada pelo primeiro choque do petróleo, o governo do social-democrata Carlos Andrés Pérez (1974-1978) nacionalizou o setor e criou a Petróleos de Venezuela S.A (PDVSA). No ano seguinte, essa corporação já operava as catorze empresas estatizadas, cuja produção alcançava um total de 2,3 milhões de barris/dia. É disso que se trata.
A PDVSA controla praticamente toda a exploração, produção, refino e exportação de petróleo e derivados no país — setor que representa a principal fonte de receita em moeda forte para o governo venezuelano.
O setor petrolífero responde por uma grande parcela do PIB da Venezuela e cerca de 95% das exportações do país. A PDVSA detém as principais refinarias e campos de petróleo, especialmente na Faixa do Orinoco, onde estão as reservas extrapesadas que tornam a Venezuela detentora de uma das maiores reservas de petróleo do mundo (cerca de 303 bilhões de barris).
Os Estados Unidos impuseram sanções diretas a PDVSA a partir de 2017–2019, incluindo o bloqueio de transações financeiras, impedindo-a de acessar mercados de dívida ou receber dividendos de sua subsidiária nos EUA, a Petroleum Corporation Citgo.
A Citgo foi adquirida pela PDVSA nos anos 80, tornando-se um ativo estratégico, e agora é um ponto focal nas sanções dos EUA contra a Venezuela e batalhas judiciais por seu controle. Refina petróleo, transporta produtos via dutos e terminais e vende combustíveis, lubrificantes e petroquímicos, com uma rede de mais de cinco mil postos de gasolina nos Estados Unidos, com sede em Houston, Texas.
A PDVSA estava proibida de realizar transações de petróleo com entidades norte-americanas e restrições a terceiros que comprassem petróleo venezuelano, o que dificultou o financiamento, restringiu a participação de empresas internacionais e acelerou o declínio da produção, que vinha caindo desde antes (de 2,8 milhões barris por dia em 2011 para 0,8 milhão mais recentemente.
Depois de um embargo de petróleo quase total, em dezembro de 2025, medidas recentes estão levando à retomada de exportações, com navios deixando portos venezuelanos e possíveis acordos sob supervisão dos EUA, conforme a agência Reuters. A PDVSA estaria inclusive orientando reinício de produção em campos e reversão de alguns cortes, sinalizando esforço para recuperar volumes.
Segundo o inglês The Guardian, a PDVSA e o governo venezuelano estariam negociando com empresas e autoridades dos EUA para exportar petróleo, inclusive sob condições comerciais e novas licenças — algo que pode alterar o papel da empresa no mercado global se confirmado.
Ainda assim, ações militares e bloqueios de petroleiros ordenados pelos EUA criam incertezas e reduzem parte das exportações para destinos como a China.