Corrida ao ouro pelos bancos centrais atinge o dólar

O ouro subiu aproximadamente 64% a 66% em 2025, fechando o ano cotado acima de US$ 4.500 por onça-troy, marcando um dos seus melhores desempenhos em décadas. Em janeiro superou a marca de US$ 5 mil por onça-troy, renovando suas máximas históricas, com o aumento das tensões geopolíticas impulsionando a demanda por ativos seguros.

Sem alarde, o Brasil vem reduzindo gradualmente sua exposição a títulos norte-americanos (US Treasuries) e aumentando a proporção de ouro nas reservas internacionais.  Comprou 42,8 toneladas de ouro físico entre setembro e novembro de 2025.  O volume de ouro passou de 129,6 t para 172,4 t no período. Em valor, essa parcela subiu de cerca de US$ 11,7 bilhões para US$ 23,3 bilhões.

A participação do ouro nas reservas totais brasileiras passou de 3,6% para 6,5%. Isso indica um movimento claro de diversificação, aumentando o peso do ouro dentro das reservas e diminuição da parcela de títulos estadunidenses, embora essas movimentações possam refletir mercado secundário e ajustes gerais de reservas, e não um swap direto por ouro divulgado oficialmente.

Esse movimento está alinhado com uma tendência global de diversificação de reservas observada em vários bancos centrais, que têm aumentado posições em ouro diante de incertezas econômicas e geopolíticas. Em 2025, muitos bancos centrais compraram ouro como parte dessa estratégia, reduzindo gradualmente a dependência de dólar e de títulos públicos dos Estados Unidos (EUA).

Como surge o poder do dólar

A Conferência de Bretton Woods, realizada em julho de 1944 nos EUA, reuniu 44 nações para estruturar a economia mundial pós-Segunda Guerra. O encontro estabeleceu o dólar estadunidense como moeda de reserva global atrelada ao ouro.

 Na década de 1960, o sistema de Bretton Woods ainda estava em vigor. O dólar era lastreado em ouro e as outras moedas eram lastreadas no dólar. Os EUA financiavam seus déficits comerciais e gastos militares (como os da Guerra do Vietnã) emitindo dólares e, crucialmente, títulos do Tesouro norte-americano. Como os outros países precisavam de dólares para reservas, eles compravam esses títulos, financiando a dívida americana a taxas de juros baixas.

Em 1971, os EUA abandonam a indexação do dólar ao ouro, pondo assim fim ao acordo de Bretton Woods. Surgia uma nova moeda totalmente fiduciária, sem lastros no ouro e com a possibilidade de emissão via decreto. A moeda fiduciária sem lastro é apenas baseada na confiança do mercado.

 Em 1974, o governo norte-americano conseguiu orientar o comércio de petróleo para dólares, começando com a Arábia Saudita e logo depois estendendo-se a todos os integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Assim, surge o petrodólar.

 O Consenso de Washington aprofundou a globalização liderada pelos EUA ao longo da década de 1990, integrando mercados emergentes ao sistema financeiro internacional centrado no dólar. As reformas foram para aumentar a demanda global por dólares, expandir seu uso em transações privadas e reservas oficiais e principalmente reforçar a capacidade dos EUA de financiar seus déficits com moeda própria.

 Como principal moeda de reserva e de troca internacional, a demanda constante por dólares permite que os EUA emitam dívida (títulos do Tesouro) e moeda para pagar importações e déficits sem risco imediato de insolvência, ao contrário de outras nações. Dessa forma, a dívida pública dos EUA foi aumentando e atingiu um recorde histórico, ultrapassando US$ 38 trilhões em outubro de 2025. 

Para se ter uma ideia do que isso representa, a dívida pública bruta que o Brasil paga os juros religiosamente encerrou 2025 em aproximadamente R$ 8,6 trilhões, o que representa cerca de 83,6% do Produto Interno Bruto (PIB). 

Tendo consolidado tão grande poder sobre o sistema financeiro global, os EUA puderam utilizar o dólar como uma arma geopolítica aberta, com sanções para impor sua vontade a outros países, tanto direta quanto indiretamente. Isso foi feito por meio de ações ou ameaças de cortar à vontade indivíduos, entidades e até países visados. Essas medidas foram genuinamente eficazes, porque estar na lista de bloqueio do dólar estadunidense significa perder negócios de compra e venda em praticamente todo o Ocidente e não apenas no mercado norte-americano.  

Mundo multipolar em expansão

Em 2022 ocorre uma reação à campanha de sanções sem precedentes liderada pelos EUA contra Moscou devido ao conflito na Ucrânia, que forçou a Rússia e outros membros do Brics a buscar formas alternativas de comércio.

Nos primeiros dias de 2024, o Irã e a Rússia saíram oficialmente do sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication, em inglês) do Ocidente para um mecanismo de transferências interbancárias diretas. Em agosto de 2024, o primeiro-ministro russo Mikhail Mishustin informava que mais de 95% dos acordos mútuos entre a Rússia e seu maior parceiro comercial, a China, já eram realizados usando o rublo ou o yuan.

Com a multipolaridade crescente na última década, os países integrantes do Brics – formado por 11 membros plenos: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã –  passaram a estimular o uso de suas moedas nacionais em transações internas, visando reduzir a dependência do dólar e aumentar a autonomia financeira. A Arábia Saudita tem explorado ativamente a possibilidade de vender parte do seu petróleo à China em iuanes, em vez de usar estritamente o dólar estadunidense. 

A iniciativa de desdolarização é um passo concreto para proteger os países do bloco contra sanções unilaterais dos EUA e garantir maior autonomia monetária e financeira, especialmente relevante no contexto atual de constantes ameaças protecionistas. O castelo de cartas do dólar começa vagarosamente a desmoronar. 

No final de 2024, os países integrantes do bloco econômico Brics estavam usando moedas nacionais em 65% dos acordos comerciais mútuos e o percentual continua aumentando. Em um discurso na cúpula do Brics em Kazan, outubro de 2024, o presidente russo Vladimir Putin alertou que o uso político do dólar por Washington por meio de sanções e negação de acesso dos países ao sistema financeiro ocidental foi um “grande erro” que os forçará “a procurar outras alternativas, que é o que está acontecendo”.

A participação do dólar estadunidense nas reservas cambiais globais caiu para o menor nível em três décadas no segundo trimestre de 2025, informou o Fundo Monetário Internacional (FMI).  A participação das reservas em dólares americanos diminuiu para 56,92% no terceiro trimestre de 2025, em comparação com 57,08% no segundo trimestre de 2025.  É a menor proporção desde 1995.

Com menos reservas em dólar, os bancos centrais compram menos títulos públicos norte-americanos e o Tesouro precisa oferecer juros maiores. Assim, o custo da dívida pública sobe e juros altos provocam pressão fiscal e recessão.

O poder das sanções dos EUA depende do dólar. O custo político de sancionar aumenta, e a dissuasão diminui. Menor centralidade do dólar implica em menos liquidez global em Wall Street, menor vantagem competitiva dos bancos americanos e mais concorrência financeira (Xangai, Dubai, Singapura). Com mais países usando moedas locais e sistemas alternativos e acordos bilaterais.