Guerra contra Irã derruba títulos da dívida dos EUA

A guerra dos Estados Unidos (EUA) e Israel contra o Irã provocou forte volatilidade no mercado financeiro. Bancos centrais de vários países — principalmente exportadores de petróleo do Oriente Médio — cortaram de forma drástica as reservas de Treasuries (títulos do Tesouro dos EUA) que mantêm no Federal Reserve (Fed, o banco central estadunidense) de Nova York para obter liquidez.

As reservas caíram ao menor nível desde 2012, à medida que os países venderam papéis do governo dos EUA para sustentar suas economias e moedas na esteira da guerra. Segundo o Financial Times, o valor dos Treasuries – mantidos sob custódia do Fed de Nova York por bancos centrais estrangeiros, mas também governos e instituições internacionais – teve redução de US$ 82 bilhões desde 25 de fevereiro, de um total que está em US$ 2,7 trilhões no início de abril, conforme dados do Fed.

Esse valor é observado com muita atenção pelos analistas porque ele indica se bancos centrais estrangeiros estão comprando ou vendendo títulos dos EUA, o que pode afetar diretamente o dólar e as taxas de juros globais.

Essa estrutura foi criada no final da Segunda Guerra Mundial, com os títulos do Tesouro dos EUA sendo usados pelos bancos centrais da maioria dos países como seu principal ativo de reserva. O mercado desses títulos, avaliado em US$ 30 trilhões, é o maior do mundo.

No entanto, já existe um movimento nos últimos 25 anos de diversificação das reservas internacionais. O dólar estadunidense representava cerca de 72% das reservas mundiais em 2001 e caiu para cerca de 56%, em 2025, o nível mais baixo em 30 anos. Os bancos centrais vêm comprando ouro em grande escala e reduzindo participação relativa em títulos estadunidenses.  Pela primeira vez, desde 1996, o valor do ouro nas reservas dos bancos centrais superou o dos Treasuries.

Isso mostra uma menor dependência do dólar, mas não o fim dele. O que os números deixam claro é que apesar do yuan chinês ainda ser limitado e o ouro não funcionar bem para pagamentos cotidianos, o mundo caminha para um sistema multipolar.

O petrodólar

Na reunião de Bretton Woods, EUA, em 1º de julho de 1944, com a aproximação do final de Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos conduziram as negociações para a construção de uma nova ordem mundial e, ao longo desta, definiram sua moeda nacional, o dólar, como o padrão de referência internacional. A libra, moeda do Reino Unido, perdeu espaço.  

A dolarização da economia mundial deu seu passo inicial ao término das negociações na Conferência de Yalta (4 a 11 de fevereiro de 1945), quando o presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt, se encontrou com o fundador do Reino da Arábia Saudita, rei Abn Saud, três dias depois, em 14 de fevereiro, no navio militar USS Quincy, próximo ao canal de Suez. Aprofundaram os termos de um acordo de 1936, em que se definia a inserção exclusiva das petroleiras dos Estados Unidos dentro do reino, em troca da proteção militar norte-americana.  

O que se garantiu foi a cotação em dólares do petróleo exportado a partir do território que, de fato, se transformou no novo centro de gravidade da produção mundial. Grande parte dos países, que possuíam necessidades de importação de petróleo, foram compelidos a aderir ao dólar. Assim, tal movimento acabou por obrigar esses países a “precificarem” em dólares seus produtos de exportação de modo a viabilizar seu abastecimento de petróleo e seu comércio exterior em geral. Anos depois, outros membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) seguiram o exemplo e consolidaram o petrodólar.

 O petróleo passou a ser vendido internacionalmente em dólares e os países produtores investiram os dólares recebidos em títulos do Tesouro dos EUA. Isso permitiu aos Estados Unidos, de lá para cá, financiar grandes déficits externos, emitir dívida em sua própria moeda e manter os juros internos mais baixos.

Muitos economistas dizem que a maior ameaça ao dólar não é o yuan chinês, mas a própria dívida pública dos EUA, que já ultrapassa US$ 38 trilhões.

O belicismo no Oriente Médio acontece muito porque o petrodólar está em crise, afetando o comércio global de energia. Alguns países estão tentando reduzir a dependência do dólar. A China compra boa parte do petróleo em sua moeda, yuan, e a Rússia passou a vender energia sem usar dólar após as sanções ocidentais. Hoje, a Saudi Aramco, estatal saudita, diversificou suas parcerias, e a China se tornou o maior comprador de petróleo do reino, superando os EUA.

Em relação aos países integrantes do bloco econômico Brics, que estavam usando moedas nacionais no final de 2025, os dados disponíveis mostram uma média geral superior a 65%, com casos bilaterais ultrapassando 95%, refletindo um processo de integração financeira em ritmos distintos entre os países do grupo.

Estreito de Ormuz

O controle do Estreito de Ormuz pelo Irã, vital para o transporte marítimo, é mais uma dificuldade para o petrodólar. Desde que a guerra começou, há um mês, houve uma explosão dos preços da energia, que desestabilizou as finanças de países que dependem da importação de petróleo.

O pedágio pago em petroyuan cobrado pelo Irã aos petroleiros que têm licença para atravessar pelo Estreito de Ormuz, passam ao largo do petrodólar, do sistema SWIFT – um mecanismo de transferências financeiras interbancárias mundiais controlado pelos EUA – e das sanções estadunidenses. Já existem informações que o parlamento iraniano poderá legalizar a cobrança como compensação de segurança, ou seja, monetizar o Estreito de Ormuz para pagar os danos da guerra.

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