Rio Grande retoma com força polo naval

Presidente Lula durante visita às instalações do estaleiro Ecovix / Ricardo Stuckert-PR

Nesta semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve mais uma vez na cidade de Rio Grande, no extremo sul gaúcho, onde assinou o contrato para a construção de cinco navios gaseiros pelo estaleiro Rio Grande Ecovix, no valor de R$ 2,2 bilhões, com a geração de sete mil novos empregos diretos e indiretos, que demandarão qualificação especializada.

Com as embarcações, de acordo com a Petrobras, a frota de gaseiros da Transpetro irá subir de seis para 14, triplicando a atual capacidade de transporte de GLP e derivados. O objetivo, segundo a empresa, é reduzir a dependência do afretamento desse tipo de navios.

Os novos gaseiros, informou a estatal, serão até 20% mais eficientes no consumo de energia, reduzirão as emissões de gases de efeito estufa em 30% e poderão operar em portos eletrificados. “Isso significa que serão top em tecnologia embarcada”, afirmou a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, durante o evento.

Segundo Magda, o setor naval ampliou de 18 mil empregos, em 2022, para 50 mil empregos no fim do ano passado. “Esses empregos vão ser ampliados em 2026, 2027 e 2028, ou seja, vamos nos aproximar de volta do número de 80 mil empregos na indústria naval brasileira”, projetou.

“Hoje temos aqui 400 colaboradores. Com os contratos já assinados deveremos alcançar no segundo semestre de 2027 um patamar da ordem de quatro mil colaboradores, ou seja, os próximos recrutamentos serão intensivos”, afirmou José Antunes Sobrinho, acionista da Ecovix, que atua no estaleiro gaúcho.

O contrato ocorre no âmbito do Programa Mar Aberto, do governo federal, criado para ativar mais uma vez a indústria naval brasileira. O programa prevê R$ 32 bilhões em investimentos na fabricação de navios e embarcações até 2030. A iniciativa prevê a construção de 20 navios de cabotagem, além de 18 barcaças e 18 empurradores, bem como o afretamento de 40 novas embarcações de apoio destinadas à renovação da frota de suporte às atividades de exploração e produção (E&P).

Nasce uma fábrica de cascos

Para entender a retomada do Polo Naval de Rio Grande é preciso voltar no tempo. Em abril de 2008, o então presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, anunciou, durante visita do presidente Lula ao dique seco no porto de Rio Grande, que a estatal pretendia estimular a construção de cascos de plataformas do tipo FPSO (Sistema flutuante de produção, armazenamento e transferência de petróleo) em série.

Com a construção do dique seco, a Petrobras atingiu um dos principais objetivos do projeto: transformar Rio Grande num polo naval e revitalizar a indústria local de bens e serviços.

 O Polo Naval de Rio Grande, incluindo o maior dique seco do país na época, foi inaugurado em 21 de outubro de 2010, também com a presença do presidente Lula. O dique seco, no seu auge, empregou cerca de 24 mil trabalhadores.  

No Rio Grande do Sul, o polo naval naufragou após o golpe parlamentar que derrubou a presidenta Dilma Rousseff (PT) e possibilitou a ascensão de Michel Temer (MDB) à presidência da República, em 2016, e a eleição de Jair Bolsonaro (2019/2022), deixando literalmente a ver navios milhares de desempregados, que vieram de todo o Brasil. Mais uma vez os interesses imperialistas, apoiados por uma elite subalterna, inviabilizaram um projeto nacional.

Em 2008, a plataforma P-53, da Petrobras, foi a primeira montada integralmente no porto de Rio Grande, com a utilização de 75% de conteúdo nacional. Na construção foram gerados 4.500 empregos diretos e 15 mil indiretos. Em 2013, ficou pronta a maior plataforma semissubmersível construída no Brasil, a P-55, que estava atracada no cais do Estaleiro Rio Grande 1 (ERG1).

Já no governo Bolsonaro, a Petrobras assinou contrato com a empresa Keppel Shipyard Limited, grupo de Singapura, para a construção naquela cidade da plataforma P-83, com custo de US$ 2,8 bilhões.

O mais impressionante é que, nos últimos 10 anos desse golpe na economia do Rio Grande do Sul provocado por Temer e Bolsonaro, praticamente todas as entidades empresariais gaúchas ficaram num silêncio sepulcral em relação ao abandono do Polo Naval de Rio Grande.

O editorial do Grupo RBS, que representa essa elite do atraso, com o título “Após os anos de euforia seguida de frustração, polo naval volta à tona”, publicado esta semana, é vergonhoso e deixa claro como os fatos são distorcidos em favor das ações de Temer e Bolsonaro, que jogaram por terra um projeto que elevaria a Zona Sul do estado para outro patamar.

Diz o editorial: “O sonho se transformou em pesadelo pelo alto nível de conteúdo local exigido, por atrasos de produção e pelos escândalos que vieram à tona com a Operação Lava-Jato e atingiram em cheio a Petrobras e os estaleiros. Ao fim, restaram as demissões em massa e a quebradeira das empresas do setor. O mínimo a se esperar é que os erros do passado tenham servido de aprendizado.”

 Então, para a RBS a Operação Lava Jato não foi desmascarada principalmente pelas revelações da Vaza Jato, uma série de vazamentos de conversas do Telegram divulgadas pelo The Intercept Brasil e outros veículos a partir de 2019, que expuseram a parcialidade do ex-juiz Sergio Moro e dos procuradores, mostrando atuação coordenada, orientação de investigações e tentativa de inviabilizar defesas, além de discussões para prender ministros do STF, abalando a credibilidade da força-tarefa e levando à anulação de condenações e à declaração de suspeição de Moro pelo STF. 

Então, um dos problemas foi o alto nível de conteúdo local exigido nas obras!?! Na verdade, a política de conteúdo nacional impulsionou a consolidação do Polo Naval e Offshore em Rio Grande, permitindo que o Porto se tornasse um centro de construção e montagem de plataformas (como as P-53, P-55 e FPSOs da série P-63/P-70).

O alto índice de nacionalização serviu como um vetor de desenvolvimento para uma região historicamente caracterizada por menor industrialização, gerando milhares de empregos diretos e indiretos, especialmente na construção de estaleiros como o Estaleiro Rio Grande (Ecovix).

A exigência de alto conteúdo local, vinculada aos contratos da Petrobras, forçou a capacitação e reestruturação da cadeia produtiva de bens e serviços local e nacional.