As dez da noite, depois de quatro horas tentando organizar o debate, o engenheiro químico Renato Chagas, coordenador da equipe técnica da Fepam dava sinais de desespero:
“Eu não acredito que vocês se comportem assim nas suas casas”, suplicava ele.
Aplausos e vaias reverberavam no ginásio lotado por mais de mil pessoas, os oradores não conseguiam falar.
Era a segunda audiência pública exigida no processo de licenciamento ambiental pelo qual passa o projeto da “maior mina de carvão do Brasil”.
A primeira em março, em Charqueadas, teve público restrito e favorável ao projeto. Nesta quinta-feira, 27, foi diferente. Vários grupos de ativista ambientais se organizaram para o evento.
Cedo a frente do ginásio no centro de Eldorado do Sul ficou tomada por manifestantes contra a mina. Lá dentro, com cartazes e palavras de ordem, mantinham o clima agitado. Um homem de macacão com uma máscara contra gases fazia sinais para agitação dos militantes.
Os defensores da mina, em nome dos empregos e do desenvolvimento da região, eram mais discretos, mas não menos numerosos. Traziam adesivos no peito, nas camisetas, eram mais efusivos no aplauso e menos agressivos na contestação.
Algumas fileiras agrupavam estudantes com camisetas pró-carvão, mas indiferentes à discussão. Divertiam-se com a confusão.
O engenheiro Cristiano Weber, da Copelmi, apresentou o projeto. Cerca de vinte pessoas se manifestaram contra e a favor do empreendimento.
A mina Guaiba vai revolver uma área de 5 mil hectares entre os municípios de Charqueadas e Eldorado do Sul, na região do baixo Jacuí, para retirar 160 milhões de toneladas de carvão que estão entre 30 e 90 metros abaixo da superfície.
É razoável estimar o valor deste carvão em 10 bilhões de dólares, mas para viabilizá-lo há que investir pelo menos U$ 1 bilhão, até abrir a mina. É o desafio da Copelmi, a dona do projeto.
O impacto ambiental desta operação ao longo de 30 anos é o que está em discussão.
O projeto ingressou na Fepam em 2014 para licenciamento ambiental, foi devolvido com novas exigências e reencaminhado em 2018. Está em fase final para o licenciamento prévio.
Uma das principais reivindicações dos críticos do projeto nesta quinta feira foi: uma terceira audiência, em Porto Alegre, que está a 15 km da área da mina e tem no rio Jacuí um dos seus mananciais.