Cezar Schirmer: “Muro da Mauá está com os dias contados”

O secretário de Planejamento e Assuntos Estratégicos de Porto Alegre, Cezar Schirmer, definiu a proposta de derrubar o “Muro da Mauá” como uma das “medidas fundamentais” para o projeto de revitalização do cais,  cujo objetivo é “devolver o Guaíba à cidade”.

Schirmer falou na manhã desta quarta-feira no quatro workshop organizado pelo consórcio que prepara o projeto de revitalização, voltado para os profissionais da imprensa: ” Me atrevo a dizer: o muro da Mauá está com seus dias contados”, disse o secretário, depois de explicar que “não é possível pensar numa solução para o cais, sem pensar na sua integração com o centro histórico de Porto Alegre”.

O muro, de três metros de altura e 2.600 metros de extensão, construído nos anos 1970, como proteção contra enchentes, separa o centro da área do cais. Sua derrubada já foi aventada diversas vezes mas sempre enfrentou a resistência do meio técnico das áreas de engenharia e hidrologia.

A ideia que está em exame não é eliminar o muro, mas transferi-lo para trás dos armazéns do porto, junto à borda do cais, com um terço da altura atual e uma estrutura removível que poderia ser acoplada para ampliar a proteção em caso de emergência.

Cais Mauá: definem-se os contornos do projeto que está sendo “modelado”

A ideia de derrubar o Muro da Mauá, substituindo-o por uma custosa estrutura flexível à beira dágua, é um indicio do porte do empreendimento que está sendo concebido para o Cais Mauá.

Os contornos ainda estão indefinidos, mas as informações disponíveis permitem concluir que o trabalho de “modelagem” do consórcio Revitaliza  converge para um projeto do porte do anterior,  aprovado no governo Yeda Crusius.

Na época, 2010, falava-se em investimentos de 700 milhões e um conjunto de negócios que gerariam R$ 1 bilhão por ano.

Não por acaso, a empresa líder do consórcio  contratado para fazer a modelagem do projeto é a Patrinvest, uma gigante do ramo imobiliário.

Não por acaso,  a primeira das dez work shops programadas para colher  sugestões e identificar demandas foi feita com representantes do setor imobiliário.

No primeiro encontro, no capítulo das “vocações imobiliárias do cais”,  uma das contribuições  foi a inédita sugestão  de prédios residenciais, condomínios verticais, cuja viabilidade dependeria de alteração no Plano Diretor, para permitir mais de 30 andares, onde o limite atual é menos da metade disso.

 

Derrubar o muro, a ideia que ganha força na revitalização do Cais Mauá

O arquiteto Renato dal Pian, que integra o consórcio Revitaliza, surpreendeu, nesta terça-feira, 22, os participantes do terceiro dos dez workshops  programados para subsidiar o projeto de revitalização do Cais Mauá.

Ele defendeu a ideia de derrubar a maior parte do “Muro da Mauá”, a cinta de concreto que separa o centro histórico do porto, onde nasceu Porto Alegre.

“Tanto do ponto de vista da segurança, em relação a enchentes, quanto dos custos que implicaria esta solução, ela é viável”, disse Dal Pian.

Para manter os atuais níveis de segurança, seria necessário construir um outro muro de um metro à beira d’água  e criar uma estrutura removível que,  em caso de emergência, elevaria para os 3 metros a proteção contra enchentes. “A ideia ainda está sendo construída, mas já temos elementos muito fortes para justificá-la”, disse ele ao JÁ.

A ideia, segundo o arquiteto,  já foi apresentada ao Instituto de Pesquisas Hidráulicas, da Universidade Federal,  e recebeu apoio, conforme testemunhou um representante do IPH presente ao workshop.

O “Muro da Mauá”, com três metros de altura e 2.600 metros de extensão,  faz parte de um grande sistema de proteção contra as cheias do Guaíba, para onde confluem quatro grandes  rios – Jacuí, Sinos, Caí e Gravataí. Em 1941, na maior enchente já registrada, as águas subiram mais de quatro metros e arrasaram o centro da cidade.
Esse trauma justificou o projeto de 68 quilômetros de diques, na extensão de quase toda a orla. O  muro, entre o cais e o centro histórico, foi a última etapa, concluída em 1974.
A tragédia de 1941 não se repetiu e a necessidade do muro, que separa a cidade do seu porto e suas águas, foi questionada muitas vezes. Mas, até agora nenhum técnico ou governante se atreveu a endossar a ideia de sua derrubada.
Em abril deste ano, quando o assunto veio à tona, o Sindicato dos Engenheiros (SengeRS) promoveu um debate em que o presidente Cezar Ferreira concluiu: “É bem clara a necessidade de tecnicamente manter o sistema de proteção contra cheias do Guaíba”.
Uma carta com as conclusões do evento foi enviada ao prefeito Sebastião Melo (MDB) e ao governador Eduardo Leite (PSDB).
A hipótese com que trabalham os que modelam o projeto de revitalização do cais não elimina o muro: transfere parte dele para a borda do cais, na beira d’água, com uma altura menor (um metro)  e uma estrutura suplementar, feita de partes móveis, que em caso de emergência elevam a barreira para os três metros.
É uma solução cara, principalmente pela parte removível que exige equipe de manutenção constante, mas que, segundo Dal Pian, pelos orçamentos preliminares já estimados, é suportável, ainda mais se levar em conta que  representa também uma proteção  aos empreendimentos a serem feitos no local.

 

“Jabutis” da privatização da Eletrobras podem custar mais de R$ 40 bilhões ao contribuinte

A colunista de economia da Rede Globo,  Miriam Leitão escreveu hoje que o “Consumidor vai pagar uma Eletrobras para o governo privatizar a Eletrobras”

A colunista diz que “uma fonte” lhe explicou quanto quanto vai custar ao consumidor a privatizações da Eletrobras.

Seriam 67 bilhões, sendo dois terços (R$ 41 bilhões) por conta dos “jabutis” que os interesses políticos e econômicos  penduraram na Medida Provisória.

“Seria como se o consumidor tivesse que pagar uma Eletrobras para o governo vender a Eletrobras”.

Tudo indica que a fonte dos números de Miriam Leitão seja o Instituto Brasileiro do Petróleo e Gás o IBP. Em nota pública, no dia 04 de junho, o IBP avaliou como “grave retrocesso” a MP para privatizar a Eletrobras.

“Os dispositivos inseridos no texto da MP que determinam a contratação compulsória de 6.000 MW de térmicas a gás natural em locais predeterminados representam um grave retrocesso em relação às reformas em curso para os setores elétrico e de gás natural”, aponta a nota.

O instituto também critica a obrigatoriedade de contratação de termelétrica a gás nas regiões do Nordeste, Norte e Centro-Oeste, sem critério ou acesso ao gás natural.

“A obrigação de contratação de geração termelétrica a gás em estados do Nordeste, sem acesso ao gás natural, e em estados do Norte e Centro-Oeste, sem nenhum critério técnico, terá como consequência o aumento do custo da energia elétrica, com impactos para o orçamento das famílias e para competitividade da indústria brasileira, já fortemente impactados pelos efeitos da pandemia”.

Em resumo, o IBP acredita que as medidas inseridas na MP da Eletrobras são contrárias aos objetivos de uma política energética nacional transparente e sustentável do ponto de vista econômico, social e ambiental”.

Aprovada em maio na Câmara Federal, onde lhe foram inseridos os “jabutis’ a MP que autoriza a capitalização da Eletrobras será votada no Senado.

Hoje, a União possui 42,57% do capital da Eletrobras, e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômicos e Social (BNDES), outros 16,14%. Com 58,71%, o Estado é o maior acionista da empresa. Caso a MP seja aprovada, a privatização ocorrerá pela venda de ações na Bolsa de Valores, assim, nem a União e nem os bancos públicos poderão adquiri-la, mas ainda será possível uma sociedade econômica mista para manter a Eletronuclear e a Itaipu Binacional.

 

Corte de energia segue proibido para quem ganha até meio salário mínimo

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) vai prorrogar por mais três meses a proibição de corte de energia por inadimplência para os consumidores de baixa renda.

A informação foi repassada pelo diretor-geral da Aneel, André Pepitone, durante audiência na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados para tratar da crise hídrica no país.

Em março, a Aneel havia decidido suspender o corte de energia por inadimplência para esta faixa de consumidores até 30 de junho. Com a prorrogação aprovada nesta terça-feira, 15 a proibição vai valer até o fim de setembro.

A medida não isenta os consumidores do pagamento pelo serviço de energia elétrica, mas tem como objetivo garantir a continuidade do fornecimento para os que, em razão da pandemia do novo coronavírus (covid-19), não têm condições de pagar a sua conta.

A iniciativa, segundo a Aneel, deve beneficiar aproximadamente 12 milhões de famílias, que estão inscritas no Cadastro Único, com renda mensal menor ou igual a meio salário mínimo por pessoa.

Também terão direito ao benefício famílias com portador de doença que precise de aparelho elétrico para o tratamento, com renda de até três salários mínimos, assim como famílias com integrante que receba o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

“Essas ações vêm permitindo resguardar o consumidor de energia elétrica mais carente, sem que haja o comprometimento econômico e financeiro das concessionárias dos serviços de distribuição”, disse Pepitone.

Medidas para estimular o turismo incluem licença no Iphan em 30 minutos

Dez ações “para atrair investimentos” e “desburocratizar processos que dependem de licenças ambientais” foram anunciados pelo Ministério do Turismo e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), nesta quinta-feira.

Uma das medidas para estimular os investimentos foi a digitalização e simplificação dos processos de licenciamento em relação a patrimônio histórico. De 45 dias em média, o prazo do licenciamento será reduzido para 30 minutos, segundo anunciou o ministro do Turismo, Gilson Machado.

As iniciativas foram anunciadas em ato no Palácio do Planalto,  com a presença do presidente Jair Bolsonaro.

A principal novidade é o Portal de Investimentos em turismo, para aproximar investidores, empreendedores e o poder público no fomento a novos projetos”.

Segundo o ministro,  o portal já tem um portfólio “de 50 projetos cadastrados em 19 estados, com projeção de investimentos de R$ 21 bilhões e 116 mil empregos diretos e indiretos”.

A lista inclui “concessões de parques nacionais e oportunidades de investimentos privados no setor hoteleiro e em outros empreendimentos turísticos”.

Também foi lançado, durante a cerimônia, o Sistema de Avaliação de Impacto ao Patrimônio (SAIP) do Iphan, que adota a digitalização do processo de licenciamento ambiental na parte que depende da liberação do instituto, por envolver impactos no patrimônio histórico e artístico do país.

“Até então, praticamente todo o processo era feito de forma manual, mas agora os projetos de infraestrutura mais simples, que representam 70% das mais de 4 mil solicitações ao Iphan por ano, e que levavam semanas ou até meses para serem analisados, passam a ter o resultado em minutos”.

“Para se ter uma licença do Iphan, antigamente, durava, no mínimo, 45 dias. Hoje a gente conseguiu otimizar isso em 30 minutos, numa licença digital”, afirmou o ministro.

De acordo com a pasta, o sistema utiliza o georreferenciamento como base e faz o cruzamento de informações da base de dados do Iphan com os dados inseridos virtualmente pelo proponente, automatizando etapas e possibilitando esse ganho nos prazos de liberação.

“O próprio sistema indicará a necessidade de realização de estudo de impacto ao patrimônio cultural no local da obra ou se a atividade está dispensada dessa exigência. A expectativa é que a análise de um técnico do instituto só ocorra nos casos mais complexos, quando for identificada a existência de bens tombados na área de influência direta do empreendimento ou se o responsável pelo empreendimento discordar do posicionamento do Iphan emitido automaticamente”.

 

Reforma Administrativa avança: comissão especial será instalada nesta quarta

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), anunciou nesta 3ª feira (8.jun.2021) a instalação da  comissão especial que analisará a reforma administrativa. Os nomes serão definidos nesta quarta.

O projeto foi aprovado na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara no fim de maio. A comissão especial é o último passo da tramitação antes do plenário. A ampla e decidida resistência do funcionalismo, que denuncia a precarização do serviço público com o argumento de combater privilégios, indica uma longa batalha parlamentar.

(Com informações do Poder 360)

Desmentido pelo TCU, Bolsonaro quer investigar governadores para provar supernotificação de Covid

O presidente Jair Bolsonaro se retratou, nesta terça-feira, depois de ter dito que metade dos casos de morte por Covid 19 registrados no Brasil resultam de fraude nas notificações.

“Eu errei”, disse ele em conversa com apoiadores, depois que o Tribunal de Contas da União, em nota oficial,  negou que tenha produzido o relatório com os dados apontados pelo presidente. (Leia abaixo)

Bolsonaro reconheceu que “não há um relatório do TCU”, ele se enganou.

Mas “há um acórdão  (julgamento) que menciona a possibilidade de fraude” por conta do critério adotado para o repasse da ajuda federal aos Estados: quanto maior o número de casos, mais verba.

Ele se refere a três linhas do Acórdão 2.817/2020 aprovado no dia 21 de outubro de 2020 no plenário do TCU.

As três linhas foram extraídas de uma lista de  mais de 30 exigências e recomendações que  o tribunal faz ao Ministério da Saúde, depois de analisar as ações para o combate à Covid:

(…) utilizar a incidência de Covid-19 como critério para :transferência de recursos com base em dados declarados pelas Secretarias Estaduais de Saúde, pode incentivar a supernotificação do número de casos da doença, devendo, na medida do possível, serem confirmados os dados apresentados pelos entes subnacionais.  

A partir dessas linhas, isoladas, os assessores da Presidência (“A tabela eu fiz”, disse Bolsonaro) produziram um “documento”, com base em estimativas estatísticas,  onde se conclui: 41% dos 195 óbitos por Covid registrados em 2020 podem ter outras causas.

“Isso pode ser um indício de que a pandemia causou efetivamente cerca de 80 mil óbitos em 2020”, diz o texto, que em outro trecho ressalva: “Em que pese não haja evidência de que essa prática deletéria esteja acontecendo, a fim de cotejar esse dado de quase 195 mil óbitos por Covid-19 no ano em 2020, foram analisados os dados do Portal da Transparência do Registro Civil.”l

O “documento”, cujos números foram usados por Bolsonaro e atribuidos a um relatório do TCU, foi distribuido num pdf de duas páginas com o cabeçalho do Tribunal de Contas da União.

Com base nele, Bolsonaro disse que vai pedir à Controladoria Geral da União uma investigação rigorosa sobre os números enviados pelas secretarias estaduais de Saúde: “Tem muitos vícios aí, nós vamos pra cima, apurar essas notificações em busca de dinheiro”.

Leia aqui o “documento” em que Bolsonaro se baseia para pedir a investigação dos governadores:

Documento produzido por Bolsonaro e distribuido com o cabeçalho do TCU

Nota de esclarecimento

TCU presta esclarecimentos sobre número
divulgado pelo Presidente da República
Por Secom TCU
07/06/2021
O TCU esclarece que não há informações em relatórios do tribunal que apontem que “em torno de 50% dos óbitos por Covid no ano passado não foram por Covid”, conforme afirmação do Presidente Jair Bolsonaro divulgada nesta segunda-feira (7/6).

O TCU reforça que não é o autor de documento que circula na imprensa e nas redes sociais intitulado “Da possível supernotificação de óbitos causados por Covid-19 no Brasil”.

O documento refere-se a uma análise pessoal de um servidor do Tribunal compartilhada para discussão e não consta de quaisquer processos oficiais desta Casa, seja como informações de suporte, relatório de auditoria ou manifestação do Tribunal. Ressalta-se, ainda, que as questões veiculadas no referido documento não encontram respaldo em nenhuma fiscalização do TCU.

Será instaurado procedimento interno para apurar se houve alguma inadequação de conduta funcional no caso.

 

Sinal dos tempos: jornais vendem suas impressoras para o ferro-velho

Há quinze anos, o empresário Antonio Badra investiu R$ 2 milhões para comprar uma impressora rotativa de oito unidades, capaz de imprimir 20 mil exemplares por hora de um jornal de 36 páginas, coloridas.

Tinha planos de fazer de seu jornal A Platéia, de Santana do Livramento, um diário regional e montar um polo gráfico para imprimir jornais e periódicos de toda a região, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai.

Na semana passada,  Badra vendeu sua monumental rotativa Goss Communit, de 30 toneladas, pelo peso, a preço de sucata para a Siderúrgica Gerdau.

Ela estava há três anos parada, coberta com uma lona, no centro de um enorme galpão vazio, o que restou do parque gráfico sonhado pelo empresário. “É dolorido mas é a realidade”, disse ele ao JÁ.

Badra teve mais sorte: pelo menos cinco outras impressoras rotativas que imprimiam jornais no interior do Rio Grande do Sul – alguns deles centenários, como o Diário Popular, de Pelotas – já foram vendidas para o ferro-velho, que paga menos que a sucata.

Vendidas como sucata ou ferro velho, as enormes rotativas, que há 20 anos eram símbolo de uma revolução na produção de jornais, hoje são apenas a face mais visível e, talvez, mais chocante de uma outra revolução –  a maior já experimentada pela imprensa desde que os primeiros informativos impressos começaram a circular na Alemanha, no século 18.

Com a difusão da tecnologia digital,  o jornal impresso em papel, que reinou 200 anos no centro do universo da comunicação, rapidamente, tornou-se obsoleto como veículo para atingir grandes massas.

Uma notícia que no papel leva pelo menos oito horas para chegar aos primeiros consumidores, chega imediatamente a todos pelo meio digital on line.

Antonio Badra lembra que há dez anos não quis vender a impressora para o Correio do Povo, que pretendia criar um parque gráfico regional, para atender os seus assinantes e outros jornais da região. Um projeto parecido com o dele, que ainda parecia promissor, e por isso recusou o negócio.

Foi nos últimos cinco anos, segundo Badra, que se tornou claro o impasse do impresso: perda de circulação e aumento de custos. Há três anos ele parou as máquinas:  suspendeu a edição diária e passou a imprimir uma edição semanal aos fins de semana na gráfica da Zero Hora. Levou o noticiário do dia a dia para o digital.

Foi o mesmo caminho feito pelo Diário Popular, de Pelotas, que tem 131 anos. Levou o noticiário para o digital, vendeu a impressora para o ferro-velho e imprime suas edições na gráfica da Zero Hora, em Porto Alegre.

A cena que se pode imaginar de uma grande impressora fundida como sucata é simbólica, mas está longe de ser um epitáfio dos jornais ou das empresas jornalísticas no interior do Estado. Sequer dos impressos.

Antonio Badra, por exemplo, acha que o impresso vai se reabilitar, se descobrir o conteúdo adequado : “Nossos cadernos de variedades, com assuntos exclusivos, têm anunciantes e têm leitores”, diz . Ele já pensa inclusive em fazer uma edição impressa na quarta, além do domingo. “Demanda tem, mas tem que ter o conteúdo diferenciado.”

“Na verdade, estamos tirando um peso dos nossos ombros”, diz Adair Weiss, presidente da Associação dos Diários do Interior, sobre as impressoras a caminho do ferro-velho.

Segundo ele, trata-se de uma transição em que novos meios oferecem novas e amplas oportunidades no mercado da comunicação. Dispensar atividades secundárias e se preocupar com o conteúdo, é essencial, segundo Weiss.

Ele dá como exemplo sua própria empresa,  o Grupo A Hora, de Lajeado: “Temos um jornal diário há 19 anos e um semanário, nunca tivemos gráfica, não precisa, a gente manda os arquivos de noite recebe o jornal de manhã”.  O digital, segundo ele, pode ser complementar ao impresso,  com a vantagem de ter alcance ilimitado. “Os jornais que têm bons portais nunca foram tão influentes”, avalia Weiss.

A questão, não resolvida plenamente em nenhum lugar do mundo, é que o jornalismo digital ainda não encontrou sustentação financeira: o anunciante  tem alternativas melhores e mais baratas na web e o leitor não quer pagar pela informação.

A receita que os portais jornalísticos estão conseguindo, na maioria dos casos, não cobre o que foi perdido pelo encolhimento do impresso. “Nem de perto”, diz Eládio Vieira da Cunha, diretor do Jornal do Povo, de Cachoeira, diário que vai completar 92 anos e é o carro chefe do grupo, um dos mais fortes do interior do Estado.

Segundo o diretor, a circulação através de assinaturas, principalmente,  se mantém estável, mas a retração na publicidade é preocupante. A versão on line do jornal já tem um alcance muito maior do que o impresso, mas ainda não compensa as perdas com a migração dos anunciantes.

“Que eu saiba, diz Eládio, até agora apenas o New York Times, que é um dos maiores jornais do mundo, está conseguindo superar o desafio, ao menos é o que eles dizem: perderam 600 mil exemplares de circulação no impresso, mas obtiveram cinco milhões de assinantes no digital, que estaria compensando. Aqui no Brasil, mesmo os grandes ainda estão apanhando, embora venham dando sinais de recuperação”.

Ao mesmo tempo que alguns jornais se desfazem de suas impressoras ociosas, um outro movimento ocorre no mercado de jornais, cuja crise é mais aguda nas regiões com a economia deprimida, como a fronteira e a zona Sul.

Nas regiões mais dinâmicas estão se criando polos impressores como em Santa Cruz, Cachoeira, Novo Hamburgo e a Zero Hora, que hoje imprime cerca de 80 jornais, inclusive diários do interior do Estado, na sua gráfica em Porto Alegre. Nesses polos, os jornais impressos, embora com perdas em circulação, se mantém influentes e lucrativos.

A nova realidade fez com que a Associação dos Diários do Interior do RS mantivesse entre seus sócios mesmo aqueles que deixaram de circular diariamente, como é o caso de A Platéia.

Hoje são 24 jornais diários em cidades-polo do Estado. São aproximadamente 132.000 exemplares diários publicados, segundo o site da Associação.

Além destes jornais ligados à ADI, cerca de uma centena de  jornais impressos, com periodicidade semanal ou bissemanal, filiados à Associação dos Jornais do Interior (Adjori) circulam no interior do Rio Grande do Sul enfrentando as mesmas incertezas de uma transição sem precedentes.

NOTA DO EDITOR: Na primeira versão desta matéria constava que a edição impressa do Diário Popular de Pelotas passara a circular semanalmente. Errado. Ele terceirizou sua impressão mas segue diário. O DP completou 130 anos em 2020, é o mais antigo em circulação do RS.

Sábado, 29 de maio: crise empurra a população para a rua

As manchetes do domingo e da segunda-feira mostram que as grandes redações e suas afiliadas pelo Brasil afora não entenderam ou não quiseram entender o que aconteceu neste sábado, 29 de maio.

Primeiro, minimizaram a convocação para uma manifestação em todo o país em plena pandemia: nada publicaram sobre a preparação  e os organizadores, muitos sequer noticiaram o evento programado.

Como decorrência, fizeram uma cobertura pífia, que levou a uma avaliação incorreta dos acontecimentos.

Nesta segunda feira, os protestos eram assunto vencido e o destaque era a declaração de Bolsonaro de que as manifestação foi pequena porque faltou maconha.

O press release da Commebol, informando a realização da Copa América no Brasil mesmo com pandemia, tomou as manchetes e o fato político mais importante depois da CPI da Covid, talvez o mais importante desde as passeatas de 2016, passou batido.

As notícias, felizmente, não são os fatos e os fatos neste sábado mostraram que a população está perdendo o medo de ir pra rua por causa do vírus.

Ou, o que é mais provável, está sendo empurrada para a rua, apesar do vírus.

Frentes populares como a Povo sem Medo, Brasil Popular e a Coalizão Negra por Direitos, que congregam centenas de movimentos sociais, chamaram o protesto que teve respaldo de sindicatos e partidos de esquerda, em “graus variados de envolvimento, diante do dilema de se manifestar em plena pandemia”.

O argumento que convenceu foi : Bolsonaro é mais perigoso que o vírus.

A falta de respostas do governo, não só à crise sanitária, mas à crise social que se agrava rapidamente, é o que dá musculatura aos protestos e eles tendem a continuar e crescer.

O coordenador da Central dos Movimentos Populares (CMP), Raimundo Bonfim, estimou que os atos mobilizaram 420 mil pessoas em 213 cidades no Brasil e outras 14 cidades em diversos países do exterior.

A menos que se tenha uma terceira onda da Covid, ainda este ano teremos um milhão de pessoas nas ruas pedindo “fora Bolsonaro”.

Nota da Redação: O Jornal Nacional, na noite desta segunda-feira, deu o devido destaque às manifestações.

Imagens das manifestações em Porto Alegre:

Foto: Ramiro Furquim/@outroangulofoto
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